sábado, 16 de dezembro de 2017

Reminiscências natalícias de Soutelinho da Raia (1)

 

 
O Artur e a perspectiva de uma Consoada sem polvo
 
         Era véspera de Natal e as mulheres da casa – a minha avó Gracinda, a minha mãe Delfina e a minha irmã Aurora – andavam todas atarefadas a preparar as iguarias tradicionais, tais como as rabanadas, as filhoses, a aletria, o arroz doce, os sonhos, os bolos de bacalhau, o folar (ou a bola transmontana, como lhe chamam noutras partes de Portugal) e a ceia da Noite de Natal ou consoada. Enquanto os outros três irmãos – o Alfredo, o Fernando e eu – estávamos todos contentes e imersos no ambiente festivo da estação natalícia, o Artur, o irmão mais velho, estava amuado e triste, sentado cabisbaixo num canto do escano, perto da lareira. Minha mãe, ao reparar nessa atitude estranha e insólita do Artur, aproximou-se dele e dirigiu-se-lhe mais ou menos nestes termos:
 – Então, meu filho, é véspera de Natal, estão todos alegres e tu estás-me para aí triste como a noite. Porque estás assim?
Resposta pronta do Artur:
– Para mim, ceia de Natal sem polvo não é ceia de Natal.
(Informo, entre parêntesis, que a ceia tradicional de Natal ou consoada, na minha terra, Soutelinho da Raia, e por toda aquela zona transmontana, sobretudo a raiana, consistia em polvo cozido com batatas, grelos, cebola e ovos, ao contrário do que acontecia por todo o Portugal, que consistia em bacalhau cozido com batatas, grelos, cebola e ovos. Outrossim informo que, no ano em que isto aconteceu, praticamente ninguém na minha terra tinha conseguido comprar polvo, o qual, como todas as outras espécies de peixe, nos vinha sempre, fresco e bom, de Vigo, cidade espanhola, e era vendido legalmente junto do quartel da Guarda Fiscal, de que em tempos meu pai fora chefe, na sua qualidade de cabo. Por que razão, ao contrário do costume, se deu essa escassez de polvo nesse Natal confesso que não sei. Eu era pequeno e inocente para saber das manhas e artimanhas das pessoas grandes e eminências pardas que governavam Portugal, a começar pelos presidentes das câmaras municipais e governadores dos distritos e a acabar pelos mandarins do Terreiro do Paço e do Palácio de São Bento.)
Recordo-me, como se fosse hoje, que minha mãe, ouvidas essas palavras do seu filho mais velho, tirou o avental, agasalhou-se devidamente e calçou-se bem, e, pedindo-me a mim que me agasalhasse também e que a acompanhasse, pôs-se a caminho de Videferre, uma aldeia galega, a um quilómetro e tal da minha, Soutelinho da Raia. Aí chegados, minha mãe dirigiu-se a casa de uma família conhecida, e disse estas palavras à dona de casa e sua amiga, de cujo nome não me lembro: 
– Ó filha, por amor de Deus, vende-me ou empresta-me uns quilos de polvo, para fazer a ceia de Natal, pois o meu filho mais velho está muito triste e disse-me que para ele consoada sem polvo não é consoada. 
A boa senhora ficou tão comovida com a história, que disse à minha mãe mais ou menos estas palavras:
– O polvo nem to vendo nem to empresto: dou-to, que para isso são os amigos. É Natal e Natal é fraternidade, solidariedade e alegria.
Quando, já noite cerrada, chegámos a casa, com uns bons quilos de excelente polvo da Galiza, ao meu mano Artur como que lhe nasceu uma alma nova. A ceia da noite de Natal ou Consoada ia ser, como era da tradição, polvo cozido com batatas, grelos, cebola e ovos, tudo bem temperado com excelente azeite da Terra Quente, vinagre caseiro, feito na nossa adega, alho e colorau, além das mil e uma iguarias da praxe. 
 
 
António Cirurgião
 

 

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