domingo, 17 de dezembro de 2017

Reminiscências natalícias de Soutelinho da Raia (2)

 
 
 
Prenda de Natal: garrafões de vinho da nossa adega
 
         Se bem me recordo, quando eu era menino e moço, Soutelinho da Raia tinha à volta de quinhentos e sessenta habitantes ou almas, como também soía dizer-se, ou à volta de cento e cinquenta fogos ou famílias. Dessas famílias apenas umas dez ou doze por cento tinham colheita de vinho. Como nós pertencíamos ao reduzido número de famílias que tinham sido abençoadas com bons vinhedos, aliás situados, não no termo de Soutelinho da Raia, mas no termo de uma aldeia vizinha da nossa – Couto de Ervededo -, na véspera de Natal, o passatempo do Artur e do António (ou Tonico, como assim me chamavam os meus irmãos e a gente da terra, a partir do dia, que fora o meu primeiro de escola primária, em que a professora D. Marquinhas metamorfoseou o meu nome de António para Antonico, que os colegas de escola abreviaram logo para Tonico) consistia em levar garrafões de vinho às famílias que não tinham colheita de vinho. É que, para meus pais, assim como para os pais de outros como nós, era inconcebível que uma família cristã consoasse e celebrasse a Noite de Natal e o Dia de Nascimento sem vinho.
         Desnecessário é dizer da expressão de alegria e de gratidão, por parte das famílias contempladas com essa dádiva simbólica ou prenda de Natal.
Faltaria à verdade se não dissesse que tanto para o Artur como para mim, como garotos que éramos, seria bem mais agradável passar esse tempo a brincar na rua com os outros rapazes da nossa idade que fazer a via-sacra tradicional e ritualista, indo e vindo vezes sem conta da nossa adega à casa dos vizinhos que nos eram escalonados. Até porque, apesar de bem agasalhados, não podíamos deixar de sentir o frio que normalmente fazia nesse dia. Situada num planalto, a cerca de oitocentos metros de altitude, e a uns vinte quilómetros da Serra do Larouco, a segunda serra mais alta de Portugal, Soutelinho da Raia era uma aldeia extremamente fria, como o prova metaforicamente o provérbio que minha avó Gracinda com tanta frequência repetia: “dezoito nevadas e um nevão, bom ano de pão”, entendendo aqui por pão o centeio, pois no termo de Soutelinho não havia uma única leira de trigo.
          E nesta ordem de ideias ocorre-me referir que as árvores de fruta se reduziam aos castanheiros (lembro que Soutelinho, nome da minha aldeia, é o diminutivo de um diminutivo: soutelinho deriva de soutelo, que por sua vez deriva de souto, que é uma mata de castanheiros), à meia dúzia de pereiras e macieiras dos quintais do passal do pároco e da Dona Constança, e ao pomar de macieiras e pereiras e às duas ou três amoreiras da felizarda da Tia Albertina, que tinha herdado de um antigo pároco da freguesia, a quem  servira como criada toda a vida, uma das melhores fortunas da terra.
          Perante estas duas características de Soutelinho – terra de um frio de abrir gretas nas mãos e feridas nas orelhas e terra de uma pobreza franciscana em vinhedos e árvores de fruta –, não posso deixar de vagamente concordar com aquele nosso vizinho, cujo nome não recordo, que frequentemente repetia que Cristo não tinha passado por Soutelinho.
         Dito o quê, também não posso deixar de concluir que sinto saudades dos tempos em que, modéstia à parte, o meu mano mais velho e eu, apesar do frio e da renúncia involuntária às brincadeiras próprias da idade, dávamos testemunho de uma saudável e louvável solidariedade humana, por ocasião da celebração do nascimento do divino Redentor da humanidade.        
 
António Cirurgião
 
 
 

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