domingo, 12 de julho de 2026

João Pedro Marques Trabalhar Cansa (V)

 





          O Relojoeiro

 

          Escrever é um ofício que, tal como o bilhar, exige muita precisão e regularidade. É preciso cuidar de todos os pormenores, por mais insignificantes que pareçam. Como JPM é também historiador, não lhe basta a verosimilhança, precisa de representar os ambientes com o máximo de exactidão e rigor factual: "reproduzidos com a exactidão de um relógio", "um relógio de sala ia rodando imperceptivelmente os seus ponteiros", "o trabalho corria com uma regularidade de relógio" (Uma Fazenda em África, págs. 51, 239, 296); "com a regularidade e a precisão de um relógio suíço" (Vento de Espanha, p. 230); "com a regularidade de um relógio" (Haiti, p. 215); "Tudo na vida parecia bem sincronizado, como no mecanismo de um relógio" (Os Dias da Febre, p. 27); "com a regularidade exacta de um relógio" (Do Outro Lado do Mar, p. 237).

          Embora tenha desistido do curso de engenharia no Instituto Superior Técnico (onde se limitou a fazer uma única cadeira), JPM não se esquece da importância da geometria, sem a qual não é possível projectar, dimensionar e representar os volumes no espaço: "a admirável organização dos ingleses tinha para ele [Mateus Vilaverde] o rigor geométrico e securizante da lei", os "gestos reservados e geométricos da sua mão direita" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 37, 161); "Penteou-se com o habitual rigor de desenho geométrico", "Devia ser uma daquelas pessoas que tinha o mundo arrumado em categorias muito estanques e geométricas", "com rigor geométrico", "foi cartesiano, geométrico" (A Aluna Americana, págs. 8, 23, 102, 230); "pentear geométrica e irritantemente o bigode", "Bento era geométrico e metódico" (Até ao Fim da Terra, págs. 11, 20); "o que repugnava à sua geométrica moral e rigidez jacobina" (Haiti, p. 146); "a geometria masculina", "aquele mundo militar demasiado geométrico e ordenado" (Os Dias da Febre, págs. 119, 259).

          Todavia, JPM não é só geometrismo e frieza. Nada disso. JPM também se abre ao maravilhoso, ao mundo da adivinhação, à interpretação dos sinais e dos indícios dos fenómenos naturais, para através deles antecipar os acontecimentos. Do seu ponto de vista, a razão não se pode arrogar o direito de dizer tudo o que se pode dizer sobre o real, reprimindo todas as coisas irracionais e imaginárias.

          Os romances de JPM não podem ser lidos, apenas, como discursos da razão, mas também da irrazão. É por isso que o lúdico e o onírico ocupam um lugar ou posição central na obra deste autor, já com 10 romances publicados. O que o aproxima da escrita automática e do livre jogo das associações dos surrealistas, que romperam com o racionalismo redutor para libertarem a "vida do espírito" e captar o "maravilhoso" da vida quotidiana.




          A Profecia Celestina

 

          De facto, estes romances estão cheios de coisas da parapsicologia: prenúncios (e sonhos premonitórios), presságios, vaticínios, reminiscências, pressentimentos, etc. Algumas personagens possuem uma dimensão mítica, parecem ter capacidades adivinhatórias especiais, possuem um radar interior que lhes confere uma percepção extra-sensorial e lhes permite prever a inevitabilidade de certos destinos. Marcas fundamentais do romance fantástico e do realismo mágico latino-americano, nestes livros o sobrenatural é tratado com naturalidade e usado para explorar a fatalidade, a memória e a história. Muitas vezes, as premonições são alegorias para traumas históricos ou políticos, ou servem para reforçar a ideia de um tempo que não é linear, mas sim cíclico.

          As personagens prevêem muitas coisas (mortes, tragédias, etc.): "Algo que dizia que aquelas mortes eram o prenúncio de uma mudança radical da sua sorte", "um barulho inquietante, de mau agouro", "Formara-se um círculo de pessoas em redor de qualquer coisa caída no chão e Luísa teve um mau pressentimento", "quando pensava nisso só lhe ocorriam negros presságios", "E, então, num raro momento de superstição, viu naqueles dois colegas do padre Guilherme, e nas várias infelicidades que já lhe tinham acontecido numa viagem que ainda mal começara, um possível sinal do desagrado do céu" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 30, 71, 244, 274, 299); "sons prenunciadores da desgraça", "Nesse momento, uma grande águia-pescadora cortou o céu, inesperada, e lançou-se num voo picado, afugentado as gaivotas que seguiam no encalço do navio. A águia deu duas voltas em torno do mastro grande e depois bateu as suas poderosas asas subindo em direcção ao sol e desaparecendo na sua luz intensa. – Isto é um bom presságio – assegurou Bernardino, vibrando de satisfação", "viam quase tudo carregado de prenúncios favoráveis", "Aquela estranha culinária, que incluía uma dança bárbara e descuidada em torno de um caldeirão, surgiu a Peter como uma espécie de prenúncio do que o esperava na costa de África e isso fê-lo sorrir", "como se aquela mão tivesse o condão de afastar de si os prenúncios de desgraça", "A viagem inaugural até àquele buraco (...) fora o prenúncio dos dias muito duros que estavam para vir", Benedita "viu grandes massas de nuvens negras que corriam no céu umas contra as outras como se fossem empurradas por ventos desencontrados e prenunciassem desgraças", "O seu semblante estava cada vez mais carregado de maus pressentimentos", "o ar estava abafado e aperreado pelo céu cinzento num prenúncio de trovoada" (Uma Fazenda em África, págs. 29, 44, 61, 81, 167, 192, 258, 311, 419).

          Muitos destes presságios estão certos, as personagens é que não fazem o que estava previsto. Laforêt "era supersticioso e aquela louca a gritar pareceu-lhe um sinal de mau agoiro", Marquês de Alorna é "tomado por uma espécie de pressentimento", Maria Constança "lutara com os percevejos, piava e esvoaçava um bando de pardais, o que ela achou de bom prenúncio", "será esta queda um mau presságio?", "levantou-se um vento e começou a chover, e isso pareceu-lhe auspicioso", Bento Calheiros fez toda a viagem "com o coração apertado não fosse aquela água toda ser mau prenúncio", Bernardo Sá Nogueira levava "um embrulho sob o braço direito e ela teve um negro pressentimento" (Até ao Fim da Terra, págs. 82, 138, 172, 182, 193, 238, 246); "pôs os olhos no céu para agradecer essa Graça ao Criador no momento em que dois pássaros cruzavam velozmente o círculo luminoso da Lua e viu nisso um auspicioso sinal de bom sucesso", "O grito de um pássaro que cruzava os céus veio sublinhar aquela mensagem de desamparo", Toussaint "mandou que ela o procurasse nos seus aposentos, algo que Joséphine entendeu como mau presságio" (Haiti, p. 83, 94, 237); "Qualquer coisa que ele não sabia nomear nem apontar, talvez fosse um prenúncio de morte", "os pássaros sentem o que está para vir" (Vento de Espanha, p. 7, 125); "os animais têm a capacidade de detectar a maldade e para farejas as almas perversa" (Até ao Fim da Terra, p. 176); "Para Pedro, a festa funcionou como uma cerimónia iniciática, como um prenúncio de um reencontro com a terra firme"; p. 317: uma frase de circunstância que "acabaria por se revelar profética" (Os Dias da Febre, págs. 38, 317); "ficava a contemplar a fogueira que os soldados acendiam para se aquecerem e via tremeluzir o convidativo sorriso de Caetana através das labaredas. Lembrando-se do que ouvira, em tempos idos, às ciganas de Évora, via nisso um bom presságio", "os homens tinham percebido que aqueles antílopes eram um sinal de mau agouro", "O sol da tarde carregava o céu de nuvens vermelhas, como se quisesse anunciar uma tragédia", "Um bando de pássaros passava sobre o pântano num piar contínuo que se entrelaçava com o coaxar das rãs numa música jovial e acolhedora, o que lhe pareceu um bom auspício" (Do Outro Lado do Mar, págs. 12, 66, 97, 289); "aquele infractor podia ser mau prenúncio", Valentina estava a ladeada de "plantas de que não sabia o nome, mas que exalavam um suave perfume, o que lhe pareceu bom augúrio" (O Prazer de Guiar, p. 55, 156); "Ninguém se alongava muito sobre isso [serviço militar e ida para a guerra em África], como se o facto de falar no assunto pudesse dar azar", Bebé Mexia "concluiu que o Técnico [Instituto Superior] lhe dava azar" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 40, 41).


 


          João Pedro Mágico

 

          Na verdade, os livros de JPM abrem caminho a uma magia maior que nós: Peter gostava daquela "espécie de primitivismo que andara escondido dentro dele e que agora desabrochava como que por feitiço. Havia qualquer coisa de sobrenatural no seu fascínio por África", "parecia querer empurrá-lo magicamente em direcção àquela terra", "como se fosse uma fórmula mágica", os cozinhados de Gertrudes traziam "os mágicos sabores da infância", "Ali ou em Angola, a magia era sempre a mesma e era irresistível; um magnete que se tornava mais forte a cada dia que passava e que o prendia àquele continente", "uma floresta mágica", "aquelas semanas de magia", "momentos mágicos" (Uma Fazenda em África, págs. 82, 90, 92, 99, 159, 242, 322); "um tempo mágico", "viver magicamente de ar e sorrisos", "Cada minuto daquelas horas era mágico", "daquele momento mágico", "mãos mágicas" (A Aluna Americana, págs. 81, 89, 208, 218, 226); "naquela paisagem francesa, que passava pelos seus olhos como as imagens de uma lanterna mágica" (Até ao Fim da Terra, p. 172); "dia mágico" (do casamento de Lurdes com Gervásio), "passeio mágico", "atmosfera mágica" (Vento de Espanha, p. 44, 108, 195); "tudo aquilo tinha um ar mágico" (Haiti, p. 129); um "tempo mágico" (Do Outro Lado do Mar, p. 10); "mágicos dias", "mundo mágico", Luís Ashley, antes de se encontrar com Helena, pensa que "cada minuto do que se seguiria iria ser mágico" (alguns parágrafos depois, na página 83, isso confirma-se: "Cada minuto que passava com Helena era mágico"), "aquele mágico instante da música pop" (a gravação de All you need is love), o "mágico mundo da literatura", "uma carga mágica" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 56, 70, 81, 106, 143, 147).

          Os romances de JPM, apesar de marotos (aqui e acolá), têm também um lado religioso. Inflamam a imaginação e difundem entusiasmo místico: Mateus Vilaverde "seguia a legislação civil e os regulamentos militares com uma devoção quase religiosa", uma senhora loura "não tirava os olhos de si, seguindo religiosamente cada uma das suas palavras" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 23, 186); "um silêncio quase religioso"; p. 380: "em religioso silêncio" (Uma Fazenda em África, págs. 28, 380); "ela ouvia religiosamente as suas explicações" (A Aluna Americana, p. 252); "os condutores seguiam religiosamente as regras", João, aos fins-de-semana levava o filho Guilherme "religiosamente para os parques infantis" (O Prazer de Guiar, págs. 20, 108-109); "com um fervor quase religioso" (Vento de Espanha, p. 121); "Robert cumpriu religiosamente essa promessa", "Catarina respeitou religiosamente as restrições alimentares", "a religião é uma coisa estranha" (Os Dias da Febre, págs. 85, 160, 173); o avô de João Pedro Simões lia o jornal República "todas as noites, religiosamente", Luís "controlara-se religiosamente", "ele seguiu religiosamente o conselho da tia Lucinda" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 54, 164, 210).

 


          O Suave Milagre  

 

          Os milagres repetem-se, perfeitos: "milagrosamente calma", "Como que por milagre, a raiva que sentira nos últimos anos, desvaneceu-se" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 212, 328); "tudo se aquietou como que por milagre", "as tuas mãos fazem milagres. E os teus olhos também", "O seu amor estava ali, à sua frente, milagrosamente caído do céu"; p. 297: "tudo aquilo era um milagre" (Uma Fazenda em África, págs. 10, 135, 234, 297).

          De certa maneira, JPM funda uma nova mística: "a solução que procurava chegou-lhe quase que por milagre" (Até ao Fim da Terra, p. 211), "aquele Vasco Lacerda, que caíra milagrosamente no seu regaço" (Do Outro Lado do Mar, p. 208), uma história envolvendo o Batata era "um milagre" ou, segundo Bebé, "vários milagres", Ema "tinha dificuldade em digerir o milagre" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 44, 68).

          Graças à imensa plasticidade da escrita de JPM, a literatura portuguesa encontra novamente o poder da palavra para conjurar a realidade e compelir à crença: Maria Constança "juntou as mãos, numa espécie de oração", uma "premente vontade de rezar" (Até ao Fim da Terra, págs. 121, 156), Elvira fica "horas deitada na cama a pensar ou a rezar, sem conseguir adormecer" (Os Dias da Febre, p. 121).

 



          António Calvário

 

          As histórias de JPM simbolizam o caminho e o exercício de oração (Via-Sacra) ou mesmo o destino final e o local exacro em que Jesus foi crucificado (Calvário): a presença de Luísa ajudava Mateus a "suportar o seu calvário"; p. 71: Mateus "cumpria uma via-sacra para a inútil investigação de um suicídio"; p. 175: "calvário dietético"; p. 263: Mateus "prosseguiu a sua via-sacra" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 27, 71, 175, 263); "Quando teria fim aquele calvário?", Benedita: "parecia que o seu calvário não mais tinha fim", "A subida da Chela tinha sido um imenso calvário" (Uma Fazenda em África, págs. 139, 192, 324); as idas diárias de José Duarte ao hospital, quando a primeira mulher adoeceu, "eram calvários", "a noite foi um calvário", a vida de Isabel tornou-se "um calvário", "estava no meio de O Caminho do Calvário, o quadro de Bruegel", "A carroça pôs-se em movimento e foi-se aproximando do Gólgota", "como quem carrega uma cruz", "aliviado por ter posto fim ao seu calvário", "agora estou neste calvário", "estava condenado àquele calvário", "a Duque de Loulé era um calvário", "O resto das férias grandes foi um calvário", José Duarte lembrou-se "do calvário da mulher" (A Aluna Americana, págs. 13, 39, 78, 84, 85, 99, 115, 164, 199, 216, 231); "para suportarem melhor aquele calvário"(Até ao Fim da Terra, p. 206);  "por estar a aproximar-se do seu Gólgota", "Os primeiros meses de luto foram um verdadeiro calvário", ao ter-lhe proporcionado o encontro com Lurdes, "talvez Nosso Senhor quisesse dar-lhe um sinal quando a pusera no seu caminho. Talvez quisesse dizer-lhe que não o havia esquecido e que pretendia compensá-lo pelo calvário que a sua vida tinha sido até aí", "Custódio Moreira deu em pensar que aquilo eram reproduções do Calvário de Nosso Senhor", "aquele calvário durava há horas" (Vento de Espanha, págs. 53, 63, 87, 161, 214); Beauregard deu "graças a Deus por as mulheres da sua família terem sido poupadas a esse calvário" (Haiti, p. 86); "Os primeiros dias de viagem foram um calvário de enjoos", Robert "sabia que daí para diante a sua vida iria ser um calvário e que demoraria uma eternidade a esquecer Elvira", "Marília tentou apoiá-la no seu calvário" (Os Dias da Febre, págs. 35, 200, 303); "o calvário daqueles desgraçados", "A bela mulher era como um curso de água fresca que o ajudava a resistir àquele calvário"(Do Outro Lado do Mar, págs. 133, 277); "As borbulhas do queixo não lhe doíam, mas estavam com mão aspecto. Quando chegaria o dia em que Deus o livrasse do calvário do acne?", Henrique tem "uma pesada cruz para transportar" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 48, 79).

 



          Apocalipse Não

 

          Seguem-se as imagens criadas para transmitir uma sensação de fim dos tempos. JPM pode não ser uma calamidade, mas a partir dele vê-se o Apocalipse: um cabo que perdeu uma perna arrasta-se "como um animal moribundo, tentando escapar daquele apocalipse", "tétricos sinais do apocalipse local" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 233, 289); Peter naufraga e a sua bagagem pessoal e o caixote com as suas armas foram "as únicas coisas que fora possível salvar daquele apocalipse de água", "Bernardino sentiu que a sua vida fora completamente trucidada por um apocalipse" (Uma Fazenda em África, págs. 95, 412); "A guerra era um apocalipse" (Até ao Fim da Terra, p. 230); "as cinzas e o fumo das propriedades em chamas continuavam a toldar o céu como se os dias do apocalipse de que o padre falava tivessem vindo para ficar", "tudo o que vira no apocalipse em que mergulhara" (Haiti, págs. 75, 103); "era como se o destino tivesse intervindo com uma inclemência apocalíptica"; aquele Outono em Lisboa, devastado pela febre, foi "verdadeiramente apocalíptico" (Os Dias da Febre, págs. 157, 169).

          No Apocalipse, a identidade do Diabo ("o pai da mentira") é revelada, sendo ali descrito como "o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo e Satanás". No Livro do Apocalipse, ou Livro da Revelação (o 66º livro da Bíblia e o 27.º e último do Novo Testamento), o demónio não actua sozinho, delega alguns dos seus poderes a uma imitação fajuta da Santíssima Trindade, para com ela enganar as nações: o Dragão (o próprio Diabo), a Besta do Mar (o Anti-Cristo, que assume a figura de um líder político ou que é representada por um império) e a Besta da Terra (um Falso Profeta, ou líder religioso e/ou ideológico, capaz de realizar falsos milagres", para com deles convencer a humanidade a adorar o Dragão e o Anti-Cristo).

          As personagens levam uma vida de luta constante para desmascarar o demónio e denunciar as suas estratégias de manipulação. A mitologia do indivíduo autónomo perseguido pelo demónio simboliza a luta do ser humano contra a sua própria destruição e contra a implementação. Tal como para Baudelaire, que o evoca em As Flores do Mal e o refere nos seus Diários Íntimos como "o tipo mais perfeito de beleza viril", para JPM, Satã não é um mito, mas uma realidade tangível, patente na crueldade, na violência e no erotismo sanguinário (embora este seja um assunto de demónios privados, JPM sabe perfeitamente que os demónios privados falam também a uma ansiedade colectiva amplamente partilhada).

          Em Uma Fazenda em África, Peter "queria matar de vez o homem indeciso e ocioso que vivia dentro si", "em África o diabo brinca connosco" (p. 80), "pedia constantemente que acelerassem o passo, como se fosse perseguida por demónios" (p. 167), "escoiceou-a com força, como quem expulsa um demónio" (p. 207), "José Leite ficou hirto como se lhe tivessem falado no demónio" (p. 334), "as poucas mulheres que estavam na rua refugiavam-se em casa, como se vissem o demónio" (p. 402).

          Depois, em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus "bateu seca e vigorosamente com os nós dos dedos na madeira, como quem excomunga um demónio" (p. 31), João Rebocho temia não conseguir "encontrar dentro de si a força suficiente para vencer o demónio que o subjugava" (p. 111), Golias lançou um berro aterrador, "como se travasse uma luta interior consigo mesmo e com os seus demónios" (p. 142), "Abriu muito os olhos como se tivesse visto o demónio" (p. 321). Em Até ao Fim da Terra, Bento procura "escapar dos seus demónios" (Até ao Fim da Terra, p. 21) e em Vento de Espanha, Custódio tenta ceder "àquela tentação do demónio" (Vento de Espanha, p. 190).

 



          Conhecimento do inferno

 

          Em JPM, os valores são nítidos e precisos. O Apocalipse é o Apocalipse. O Diabo é o Diabo. O Inferno é o Inferno (embora, como disse Shakespeare, "o furor dos infernos nada é comparado ao de uma mulher"). JPM é um escritor que quando vai ao inferno volta quando lhe apetece (como Boccaccio, quando as mulheres o viam passar na rua imerso nos seus pensamentos).

          De acordo com esta visão, a descida aos infernos é uma forma de introspecção. Aceitar a existência de um inferno dentro de nós é condição indispensável para o progresso da nossa consciência. Descer ao inferno pode ser um método de descoberta, mas também um beco sem saída.

          Cometemos erros e acumulamos contradições. Reincidimos. Viajar no nosso interior pode ser uma odisseia, como no Canto XI da Odisseia de Homero, ou no Ulisses de James Joyce, que reconstrói o ambiente daquela epopeia grega num único dia em Dublin (16 de Junho de 1904) e transfigura o herói da mitologia em cidadão comum, como em JPM: para Luísa, a hora das refeições com o marido "era o inferno", "Em frente dos seus olhos, o pesadelo do pecado mortal, o espectro da eterna danação, erguiam-se, enormes e incontornáveis, para o torturarem como um inferno na terra" (Padre Guilherme), "equivalia a um século de inferno!", "fragor infernal"; p. 190: "sentia-se às portas do seu inferno pessoal", "a cidade estava imersa numa atmosfera infernal", "aquele inferno de bombas e de perigos", Sátiro: "a estúpida vaidade que o tinha atirado para aquele inferno" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 65, 79, 174, 177, 190, 193, 195, 233); "estrondo infernal", os gritos "tornando-se infernais", Benedita e "o inferno da sua vida" e "Peter pensou no inferno" (Uma Fazenda em África, págs. 103, 106, 213, 422); José Duarte longe de Isabel é o "seu inferno pessoal", "queria escapar daquele inferno" (A Aluna Americana, págs. 138, 222).

          E mais, e mais, e mais: "descida aos infernos", Custódio dizia a si próprio "que aquele inferno que ali vivia era o castigo a que fora condenado pelos muitos erros que fizera no seu passado", "às vezes dizia a si próprio que já acumulara dinheiro suficiente" e isso "era como estar à porta do próprio inferno" (Vento de Espanha, págs. 63, 133, 134, 277).

          JPM está na mesma altura da vida que Dante quando embarcou na sua peregrinação: "teve a certeza de que aquela missão o levava numa viagem ao inferno"; "intensos braseiros cujas labaredas assobiavam e zuniam, tal qual um inferno" (Até ao Fim da Terra, págs. 75, 206); "sentiu o terror a agarrar-lhe o estômago e soube que tinha chegado a um inferno", os navios a arder pintavam o mar de tons avermelhados e isso "era uma visão do inferno", "quanto tempo mais conseguiria sobreviver naquele inferno?", "o alívio por fugir do inferno" (Haiti, págs. 95, 169, 227, 243); "Isto é um inferno. Pior do que a Serra Leoa" (Os Dias da Febre, p. 171); quando Caetana rompe com Vasco, "os primeiros dias sem ela foram uma autêntica descida aos infernos", "um pequeno inferno de dor e solidão", Vasco queria "sair daquela antecâmera do inferno", Vasco "debatia-se naquele seu inferno particular" (Do Outro Lado do Mar, págs. 37, 39, 93, 129).

          O autor da Divina Comédia está dolorosamente presente nestes livros, JPM identifica-se com ele, inspira-se nele, mergulha por completo nele: "À sua volta o espectáculo era dantesco" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 210), "ambiente dantesco" (Uma Fazenda em África, p. 410), "deparou-se com o dantesco espectáculo de umas trinta mulheres lívidas" (Haiti, p. 102), "uma atmosfera dantesca" e "Os primeiros dias de embarque foram dantescos" (Os Dias da Febre, págs. 75, 302); um "cenário dantesco" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 249).

 



          1000 vezes

 

          Para JPM, que tanta importância dá à simbologia, o número 1000 tem um vasto significado intelectual, religioso e espiritual. Profundo conhecedor das diferentes tradições culturais, folclóricas e sociais, JPM sabe que "mil" remete, em primeiro lugar, para a Bíblia, onde esse número representa a perfeição, a totalidade e a imensidão. No Antigo Testamento diz-se que Deus estabeleceu um pacto de sangue vitalício indestrutível com o ser humano. O amor de Deus expande-se até "mil gerações", bem como a sua fidelidade à promessa de proteger e cuidar dos seres humanos, devendo este viver segundo as suas leis. A expressão "mil gerações" não tem aqui um significado matemático, antes um sentido teológico: mil gerações equivalem à eternidade. O mil aponta também para a coragem, a persistência, a força espiritual e o início da caminhada rumo à evolução pessoal dos "anjos", e indica o período do reino de Cristo no Apocalipse.

          Na Cabala (e no misticismo judaico), o número 1000 é a primeira letra do alfabeto hebraico e está ligado ao Aleph, ou seja, a Unidade Absoluta, a Origem de Tudo e o Infinito. Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, para quem o Aleph é um ponto que nos permite ver, simultaneamente e sem distorção, todos os pontos do universo de todos os ângulos possíveis, também JPM utiliza o 1000 como número literário perfeito, a partir do qual as suas personagens recriam intimamente o universo e a totalidade cósmica: Mateus "arrependendo-se mil vezes", "o coração partia-se em mil bocados", "Mil beijos amor do meu coração" [envia Francisca a Sebastião Moncada], o capitão Rebocho "teria preferido mil vezes avançar de dia", Luísa "mil vezes desejou que a asma o levasse", "tinham-no levado com mil cuidados para a casa", "reconstituíra o triste acontecimento mil vezes na sua cabeça", "Mil beijos da tua Luísa" [enviados a Mateus Vilaverde], Luísa, relendo o jornal, "descobria mil coisas nas entrelinhas", dúzia e meia de voluntários liberais assaltaram Mateus "com mil perguntas sobre o cerco", "continuavam a levantar-se mil contratempos e obstáculos", Mateus passou por "mil perigos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 33, 82, 151, 157, 167, 176, 269, 282, 296, 319); "Por que motivo tinha tanto prazer em obedecer-lhe, em antecipar-lhe os desejos, em cheirá-lo, em satisfazê-lo de mil maneiras, como uma mulher amoral e perdida?", o barão de Vila Nova de Ourém perdia "a paciência para repetir o que já fora dito de mil maneiras", "saturando o ar com mil conjecturas", "os seus olhos brilhantes que falavam por ele dizendo mil coisas", "desejou ter mil feridas daquelas", "mil vezes pensou correr atrás da escrava", "mil estrelas suspensas do tecto", "dar-lhe mil beijos de todas as maneiras", "com olhos muito abertos e sofridos que diziam mais do que mil palavras", "com esforço e mil cuidados", "preferia mil vezes estar em movimento e ao ar livre", "mil solicitações" (Uma Fazenda em África, págs. 41, 49, 50, 74, 171, 198, 235, 248, 257, 295, 322, 369); "doía-lhe mil vezes mais o coração", "deu-lhe mil beijos no pescoço", "depois de o beijar mil vezes", "pensei mil vezes", "mil coisas reprimidas" (A Aluna Americana, págs. 63, 171, 179, 203, 272); "Pensou mil vezes", "olhou mil vezes", "mil vezes Florencia cuidou", "Nessa noite não conseguiu dormir. Ficou deitado na cama, de ollhos fixos no tecto negro", Bento envia "mil beijos" a Constança (Até ao Fim da Terra, págs. 166, 192, 206, 241, 248); "como já reconhecera mil vezes antes", um homem queixa-se "por entre mil lamúrias", Valentina "de dentes cerrados e por entre mil imprecações", "Já tivemos mil aventuras" (O Prazer de Guiar, págs. 13, 43, 49, 146); "o ruído de mil passos apressados", Lurdes "arrependeu-se mil vezes", "obrigava-os a repetir mil vezes as formaturas", "a fotografia, que viu mil vezes", "mil vezes dissera a si próprio", Zanelli preferia "mil vezes estar na frente de combate", "mil vezes desejou" (O Prazer de Guiar, págs. 46, 108, 128, 129, 207, 209, 238); Joséphine para Tilly: "tenho mil beijos para lhe dar", "mil beijos desta filha [Joséphine] que muito a ama" (Haiti, págs. 54, 183); "mil vezes mais fácil", "teria mil vezes preferido ignorar", Elvira "preferia mil vezes as actividades que implicavam movimento", "ainda que Roberto preferisse mil vezes vê-la com uma toilette de cerimónia", "Acho mil vezes preferível que arruínes a tua reputação", "milhões de beijos" (Os Dias da Febre, págs. 30, 39, 120, 196, 226, 274); "transmitindo-lhe a sua voracidade de mil maneiras até se fundir com ela", "mil encantos", "a terra exalava mil aromas", "preferia mil vezes estar no campo" e "Preferia mil vezes ter uma cobra na cama", Sara envia "mil beijos" a Vasco, "preferia mil vezes ter Joaquim Navarro como adversário" (Do Outro Lado do Mar, págs. 33, 78, 129, 184, 233, 360). (Como terão facilmente verificado, a expressão "mil vezes" tem 31 ocorrências e "mil beijos" apenas dez ocorrências).

          Em JPM, o enredo é um encadeamento linear de acontecimentos. Por vezes, no entanto, as histórias avançam em espiral, para transmitir a volúpia de um sentido fatalista da existência. A narrativa regressa constantemente aos mesmos temas, factos, traumas ou espaços geográficos. Porém, de cada vez que regressamos ao mesmo ponto, nem os leitores nem as personagens permanecem estáticos, no mesmo lugar. Porque em cada regresso ou repetição, os leitores e as personagens possuem nova informação e dispõem de uma maior profundidade psicológica (JPM é um psicólogo-nato), o que lhes permite adoptar perspectivas diferentes sobre as mesmas coisas. Aquilo a que os estudos literários chamam "progressão vertical": o enredo avança mantendo uma ligação circular com o que ficou para trás, com isso ganhando profundidade e densidade.

 


          No calor da noite

 

          Assim que abrimos os livros de JPM, somos golpeados pela canícula, autênticas ondas de calor de extremo: Benedita irradiava calor", o "doce calor que emanava dela", "o calor era muito", "o calor era intenso", "Estava um dia quente", "o calor e o arredondado das nádegas", "Trazia dentro de si uma urgência de Benedita que o queimava como fogo", "o calor dela ainda estava na cama", "um calor de rachar", "um exaltante calor interior" (Uma Fazenda em África, págs. 33, 157, 164, 212, 220, 267, 269, 354, 366); um "calor de rachar", "sol abrasador", "Luís pegou-lhe na mão e Catarina sentiu o seu calor através da luva", "disse Robert, pensando na forma quente e plena como faziam amor", "o calor das mãos dela" (Os Dias da Febre, págs. 137, 156, 157, 259).

          JPM soma assim a sua voz ao debate actual em torno das alterações climáticas e do aquecimento global, preocupação que partilha com a obra de J. D. Ballard ("demasiado calor" é a expressão que aparece na primeira frase do romance The Drowned World, publicado pelo escritor inglês em 1962). Como nesta última obra, passada numa Londres submersa e tropical, transformada pelo aquecimento global, o calor em JPM é tórrido e espesso, ou húmido: "o corpo queria demorar-se, queria ficar naquele calor húmido", "Ele levou-a, por entre beijos e risos, a mala numa mão e a outra mão no corpo dela, sentindo o seu calor" (Vento de Espanha, págs. 102, 193); uma negra nascida em África "dava-lhe febres e calores" e talvez, por isso, "sentiu a intensidade do seu calor" (Haiti, p. 111); "carícias que o punham num entusiasmo tão incandescente", "ela ardia em curiosidade de saber o quê", "esmagando-lhe a cara contra o calor perfumado dos seus seios" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 48, 158, 323); "Deitar-se a seu lado, sentir o seu calor, fazer-lhe festas", "Sentia o desejo escalar, espicaçado pelo calor do corpo dela e pelo seu perfume" (A Aluna Americana, págs. 107, 203); "Sentia o calor do seu corpo, o seu perfume" (Até ao Fim da Terra, p. 122); "o calor era abrasador", "sentiu um doce calor quando a mão dele tocou a sua pele" (Do Outro Lado do Mar, págs. 276, 285).

          O ar é quente, muito quente mesmo. Não se sente a mais ligeira brisa: "sorrindo de prazer ao antever o momento em que tocaria a pele quente de Luísa", "esfregando-lhe o sexo duro com a palma quente e macia da mão direita", "as mãos apalpavam-lhe as coxas quentes e roliças" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 31, 97, 116); "sensações fortes, quentes e boas", "o contorno quente de um seio encostado ao seu braço", "Estava uma manhã mole e quente, pintada num céu imaculadamente azul" (Vento de Espanha, págs. 95, 208); "beijos quentes e furtivos", "um ar quente e alegre", "achou-a mais desejável, mais quente", Robert "acariciou-lhe o cabelo e ela fechou os olhos, foi-se aninhando melhor naquela pele quente e macia" (Os Dias da Febre, págs. 155, 197, 231); Vasco "uma vez tocou-lhe [a Caetana], por acaso, o cabelo quente e macio, e sentiu o desejo a percorrer-lhe o corpo todo", "a pele quente dela" (Caetana), Vasco apertou a mulher do soba nos braços, que "era macia e quente", Sara "tinha uma voz quente e suave", "Uma noite, na escuridão do compartimento, Sara subiu a escada do beliche e veio procurá-lo à cama de cima. (...) Estava nua e tinha a pele tão quente, tão macia e convidativa, que Vasco correspondeu instantaneamente", a "voz quente de Felicidade", "o corpo quente de Felicidade" (Do Outro Lado do Mar, págs. 10, 37, 139, 140, 227).

 



          Frituras criativas

 

          Há páginas que são como óleo a ferver: pode-se mergulhar nelas seja o que for que daí sairá sempre um frito. O interior dos livros do autor de Os Dias da Febre ferve de vida: Sátiro da Costa ia "fervendo num lume de muitas curiosidades", Vilaverde desceu as escadas "numa fervura de cólera mal contida" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 13, 33); "Bernardino sentiu-se a ferver por dentro", "a ferver de raiva", Peter "fervia de desejos" e "fervendo em sensualidade", "o seu sangue fervia", "Sentia a raiva a borbulhar, fervente" (Uma Fazenda em África, págs. 189, 192, 242, 244, 311); "uma amálgama a ferver de adrenalina, excitação, gratidão e amor", "a ferver de revolta" e "beijou-a de novo com fervor" (A Aluna Americana, págs. 92, 107); Robert "sentia-se ferver por dentro" e "Uma mão na mão de Arnaldo, outra a erguer a saia, e ela sempre a vibrar com a aventura e o calor – pois as labaredas estavam altas" (Os Dias da Febre, págs. 189, 195); "Vasco fervia por dentro", "o cais fervilhava de sons", Tarquínio Torcato "fervia de impaciência e cólera", Eugénia "sentia-se gelar por dentro e, ao mesmo tempo, ferver de indignação", Bento e Viridiana "ferviam de preocupação" (Do Outro Lado do Mar, págs. 28, 79, 121, 286, 288).

          Entre ferver (do latim fervere) e fervilhar (construído pelo acréscimo do sufixo -ilhar ao verbo ferver) existe uma ligação morfológica e semântica, porque partilham a mesma raiz e porque ambos apontam para a ideia de agitação.

          O calor faz os líquidos ferver (quando atingem a temperatura de ebulição) e, consequentemente, também os faz fervilhar (aquelas inúmeras bolhas pequeninas que sobem rapidamente na cafeteira). Para representar sensações interiores (intensas ou abundantes) como agitação, ansiedade ou pressentimento, que mexem com o estado de espírito das personagens, JPM recorre ao processo de transfiguração figurativa dos verbos em substantivos, para transmitir a ideia de pensamentos, emoções, coisas ou pessoas que não param de quietas: um "fervilhar vago", "num fervilhar inquieto", "as ruas fervilhavam de gente", a casa das irmãs Machadinho "fervilhava de movimento e alegria", "o seu cérebro fervilhava" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 123, 157, 182, 184, 288); "fervilhar fumegante e sibilante", "num fervilhar exaltado", "A gente praticamente nua que até então aguardava compacta e expectante, frente à plataforma, começou a fervilhar como a lava de um vulcão", "A fazenda começava a fervilhar de curiosos", "a nação fervilharia numa enorme excitação", "aquele fervilhar de iniciativas", "a sua mente ia fervilhando de ideias loucas", "A imagem da antiga mulher (...) não parava de lhe fervilhar na cabeça", Moçâmedes "ia fervilhando de excitação" (Uma Fazenda em África, págs. 11, 34, 106, 117, 160, 241, 245, 335, 362); "a Academia tinha um fervilhar muito próprio", "um inquieto e penoso fervilhar dentro de si", "o seu cérebro fervilhava" (A Aluna Americana, págs. 9, 16, 211); "o seu cérebro fervilhava", "um fervilhar nervoso" (Até ao Fim da Terra, págs. 177, 183); Léger-Félicité estava "a fervilhar por dentro" (Haiti, p. 139); "a cidade fervilhava", o "colorido de afectos que via fervilhar em casa das outras pessoas", a "cidade fervilhando de vida" (Os Dias da Febre, págs. 41, 208, 290); "A sua imaginação já fervilhava", "havia um fervilhar, um desconforto a crescer dentro de si", "cérebro a fervilhar de ideias", "Gaspar assistia àquele fervilhar", "as vontades desencontradas já estavam a fervilhar na panela e o caldo podia vir por fora" (Do Outro Lado do Mar, págs. 166, 254, 299, 320, 330); Valentina, com "o cérebro a fervilhar de conjecturas", "sentia o prazer a fervilhar e a crescer dentro de si e surpreendeu-se consigo própria. Já não fazia uma coisa assim, espontânea e solta, desde os vinte anos" (O Prazer de Guiar, págs. 50, 137); o cérebro a fervilhar de pensamentos" (Vento de Espanha, p. 200); "com a imaginação a fervilhar" e "as ideias que lhe cavalgavam na cabeça", "fervilhava de impaciência", "a contestação ao regime fervilhava" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 109, 237, 245).

          Se as palavras ferver e fervilhar são irmãs, o adjectivo febril é primo em primeiro grau de ambas: "Ela seguia a narrativa com interesse febril e ria com grande espontaneidade" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 46); Bernardino sentia por Benedita "uma estranha mistura de sentimento paternal e de desejo febril" (Uma Fazenda em África, p. 214); "olhar febril" (Vento de Espanha, p. 62); "sensação febril", "uma entoação febril", "curiosidade febril", "vontade febril", "um drama febril" (Os Dias da Febre, págs. 198, 201, 233, 241, 318); "com sobrancelhas espessas e olhar febril" (Do Outro Lado do Mar, p. 91).

 

          Sinais de fogo

 

          As três estão ligadas, entre si, pelas ideias de calor, fogo e incêndio: "O alarme e o pavor eram gerais e propagavam-se como um incêndio em capim seco" (Uma Fazenda em África, p. 414); "A revolta espalhou-se pelo reino como fogo na palha" (Até ao Fim da Terra, p. 86); "espalhou-se como fogo na palha seca" (Vento de Espanha, p. 50); "o incêndio ia-se propagando como chama em mato seco" (Haiti, p. 166); "um namoro que avançou como fogo na palha" (Os Dias da Febre, p. 191).

          O fogo comunica-se ao interior do ser humano: Peter "trazia dentro de si uma urgência de Benedita que o queimava como fogo", "sentia-se sobre brasas" (Uma Fazenda em África, p. 267, 322); as palavras "queimavam como fogo" (Vento de Espanha, p. 111); "Estas questões queimavam-na como labaredas e não tinha água para as apagar", "Carlos sentiu-se a queimar por dentro" (Os Dias da Febre, p. 125, 274); "um azedume que o [Vasco] queimava por dentro" (Do Outro Lado do Mar, p. 216).

          A notável fraseologia de JPM consegue transmitir a ideia de calor forte, insuportável, total. Não deve ser fácil escrever romances debaixo de 250 ou 300 graus (máximo de temperatura atingida pelos fornos domésticos convencionais), até porque a refrigeração nestes livros não é assim tão boa.

          Tudo isto contribui para dar aos livros de JPM uma atmosfera tórrida, um hálito de fornalha, que aquece dia e noite (está tão quente que nem o rumor das cigarros ou dos grilhos se ouve): "a sensação que tinha é que andava num forno"; p. 298: "corria uma quente, como um hálito de um forno" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 291, 298); "o calor era tanto que pareceu a Quisama ter entrado no forno onde o tio Labaranga fazia as anilhas de cobre e as lâminas de ferro" (Do Outro Lado do Mar, p.51); "Estava muito calor, um verdadeiro forno" (Vento de Espanha, p. 183); "no autêntico forno que estavam a ser aqueles dias de Junho", "Luanda em Novembro era um autêntico forno" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 59, 257).

 



          Por cima do vulcão

 

          As personagens principais de JPM são como aquelas bactérias que suportam temperaturas muito altas sem perderem por isso a sua estrutura molecular. Antes pelo contrário: cospem lava, cinzas, gases tóxicos, além de libertarem uma enorme energia térmica (equivalente a milhares de bombas atómicas): Luísa tinha uma "emotividade vulcânica", "havia nela um vulcão de lascívia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 27, 251); Isabel era um "vulcão erótico" (A Aluna Americana, p. 47); "Era a lava ardente prestes a desprender-se do formidável vulcão que assusta os legisladores em Lisboa" (Uma Fazenda em África, p. 358); "José tinha uma imaginação desconcertada e vulcânica" (Até ao Fim da Terra, p. 20); "duas cabeças vulcânicas" no Terreiro do Paço (Do Outro Lado do Mar, p. 15); "Era um vulcão, permanentemente a transbordar de desejo", a "lava da crueldade e de pulsões violentas", "era um prazer tão intenso, tão vulcânico", "um acesso de raiva vingativa, surgido de um vulcão que andava escondido no seu peito" (Vento de Espanha, págs. 95, 241, 290, 302).

          Embora, em rigor, o corpo humano não derreta (como é composto maioritariamente por água, proteínas e ossos, o nosso corpo não passa pelo processo físico de fusão, como o gelo ou o plástico, mas sofre, em contrapartida, quando exposto a calor extremo, degradação química e combustão), o tecido adiposo (gordura) pode liquefazer-se quando sujeita a fogo intenso (sendo necessário apanhá-lo às colheres) ou a queimaduras químicas (nas cremações, por exemplo, a gordura queima antes que os ossos se partam e os tecidos orgânicos se transformem em cinza).

          Para transmitir essas sensações ao leitor, JPM recorre as metáforas associadas à passagem do estado sólido para o estado líquido. Mas como essas metáforas já se cristalizaram, o leitor não as sente como metáforas: "derreter por dentro" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 41), "Ai, meu querido! (...) que me derreto toda" (Uma Fazenda em África, p. 248), "se deixou derreter nos seus braços", "Um íman que a punha noutra dimensão e que a derretia por dentro" (Os Dias da Febre, págs. 194, 213), Caetana "oferecia-se, derretia-se sob o corpo dele e pedia-lhe que a tivesse como entendesse" (Do Outro Lado do Mar, p. 33).

          Como nas dietas super-calóricas abundantes em gorduras, próprias dos países ricos, as páginas dos livros de JPM são por vezes gordurentas como manteiga derretida: "cortando através dos opositores como uma faca quente em manteiga" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 308), "deixou-se ir, como se fosse manteiga a derreter" (Uma Fazenda em África, p. 196), "derretiam como manteiga ao lume" (Vento de Espanha, p. 72).

 



          Rexona

 

          O calor é tanto que o suor salta em grandes vagas para cima dos leitores. Quem for suficientemente distraído, permanecendo perto destas páginas, corre o risco de ficar todo borrifado de suor: o padre Guilherme "queixou-se, lançando os braços ao alto e espalhando um desagradável cheiro a suor à sua volta", "irradiando o seu [padre Guilherme] desagradável cheiro a suor", "o cheiro a suor que se sentira no quarto", o estalajadeiro "suava em bica" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 74, 147, 227, 235).

          As camisas estão completamente encharcadas ou ensopadas, com a temperatura rondando os 45 graus, como se as personagens vestissem camisolas de lã, por baixo de um casaco de penas. Até as palavras exsudam: Benedita "acordou com a camisa de noite empapada de suor", Benedita "a transpirar intensamente", "suados da dança", "bagas de suor a escorrer pela testa", "as mãos suavam-lhe", "um suor frio empapava-lhe a camisa", "Bernardino acordou a meio da noite com suores" (Uma Fazenda em África, págs. 9, 29, 118, 248, 253, 291, 406); Melchior Salazar (administrador da plantação de Deux-Rivières) "chegava frequentemente coberto de suor", "o desagradável cheiro a suor" que empestava a carruagem, Beauregard: "começou a suar profusamente" (Haiti, págs. 28, 180, 223); Carlos sentia "o suor empapar-lhe a camisa" (Os Dias da Febre, p. 287); "acordou sobressaltado em suor" (O Prazer de Guiar, p. 17); "transpirava por todos os poros da sua pele" (Vento de Espanha, p. 118).

          Banhados em suor, com manchas nos sovacos, é uma imagem de que JPM não consegue livrar-se. O suor tornou-se uma sua imagem pessoal, um traço distintivo: Tó "suava em bica", Jaime "acordou alagado em suor", Manuel "a suar, de cócoras", Jorge e Manuel arranjaram "um trabalho que os fazia suar as estopinhas", o filme que Luís viu no cinema São Jorge "fê-lo transpirar de angústia numa coxia do balcão" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 45, 103, 105, 133, 167, 175).

 

          JPM é um homem preocupado com a higiene pessoal. A mistura de suor acumulado com a oleosidade natural da pele cria um ambiente húmido que favorece a proliferação de microrganismos. Por isso, e muito acertadamente, JPM descreve as personagens a secar o suor, não só para eliminar esses "nichos ecológicos" onde se reproduzem os microrganismos, como também para prevenir irritações, odores, o agravamento de problemas como a acne ou simplesmente para se refrescarem.

          Repare-se em O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "Mateus limpou o suor da cara a um lenço" (p. 101), "encharcado em suor" (p. 212), Golias "limpou o suor que lhe molhava a testa" (p. 226), Mateus "respirou fundo, desalentado, e limpou o suor da testa com a manga da camisa" (p. 271), "o homem gordo limpava a cara suada com um lenço" (p. 302), um homem rachava lenha e "limpava o suor do rosto com a manga da camisa" (p. 319).

          Ou em Uma Fazenda em África: "Simão da Luz Soriano tirou o lenço do bolso e parou no átrio de entrada para limpar a transpiração que lhe molhava a testa" (p. 23), "Bernardino "limpou o suor da testa e suspirou", p. 185: "José Leite passou a manga da camisa pelo rosto, para enxugar o suor" (p. 185), "os mais gordos suavam sob o ar abafado e limpavam as caras molhadas com lenços enxovalhados" (p. 364), Costa "puxou um lenço do bolso, limpou a transpiração da testa e da cara" (p. 365).




          Afinal, limpar e tratar a pele é mais que um gesto, é um caminho para se reencontrar com o equilíbrio no final do dia: "passou as mangas da camisa pela testa, para limpar o suor" (Vento de Espanha, p. 180), endireitou-se para "limpar o suor" (Haiti, p. 227), "perguntou Arnaldo, limpando o suor da testa com um lenço" (Os Dias da Febre, p. 193), senhor da Fazenda Bolina "vinha alagado em suor, limpando a testa com um lenço encardido" (p. 186).

          Sendo a transpiração produzida pelas glândulas sudoríparas, localizadas na derme, ela é libertada para a superfície da epiderme através dos poros. Estas pequenas aberturas na superfície da epiderme, que participam no processo de termorregulação (arrefecimento do corpo), são outra imagem recorrente em JPM: gente agressiva "que destilava ódio por todos os poros do corpo", Arrobas "transpirava força e decisão por todos os poros", "A ansiedade escapava-lhe por todos os poros" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 85, 148, 156); Benedita "foi sentindo a sua alegria a contrair-se e a escapar-lhe por todos os poros da pele" (Uma Fazenda em África, p. 33); "brotando jovialidade por todos os poros" (Os Dias da Febre, p. 237); "emanava bom gosto por todos os poros" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 225).

 

          Os ambivalentes

 

          JPM é um escritor extremamente complexo, marcado por tensões e contradições. Daí que as suas personagens sejam seres divididos por sentimentos sucessivos e momentos de síntese ­– sempre provisórios e instáveis – que os submetem à ambiguidade e à ambivalência: "Uma estúpida ambivalência, que iria cortar cerce", "com um sentimento ambivalente de alívio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 126, 187); "Bento recebeu aquela informação com um sentimento ambivalente" (Até ao Fim da Terra, p. 243); "o que lhe provocava sentimentos ambivalentes" (Os Dias da Febre, p. 122); "Valentina viu-os partir com sentimentos ambivalentes" (O Prazer de Guiar, p. 125).

          Apesar de JPM recusar a ideia de que as emoções opostas são irreconciliáveis, as suas personagens sentem-se perdidas na ambiguidade e na contradição: Benedita "foi tomada por sentimentos contraditórios e não soube o que sentir", "sentimentos confusos e contraditórios" (Uma Fazenda em África, págs. 252, 389); "tentava lidar com sentimentos contraditórios" (Vento de Espanha, p. 70); "sentimentos contraditórios que ainda não conseguia conciliar", "Constança debatia-se com sentimentos contraditórios", "Lisboa causava-lhe sentimentos contraditórios", "numa teia de sentimentos contraditórios" (Até ao Fim da Terra, págs. 24, 64, 108, 264).

 

          Queijo e fiambre

 

          As personagens que não conseguem explicar os seus sentimentos contraditórios são mais interessantes e enigmáticas, tornando-se, por isso, em poderosos mecanismos narrativos. JPM, não raro, agrupa dois ou três adjectivos que apontam para emoções paradoxais, para com eles qualificar as personagens a que se referem, mas também por uma questão de ritmo e harmonia da cadência: "Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância", "num misto de horror e de curiosidade mórbida", Mateus "sentia uma estranha mistura de inquietação e de curiosidade", "num misto de angustiada curiosidade e de desejo de ajudar" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19, 25, 93, 137); "um misto de curiosidade e de gosto pelo mundo dos bas fonds" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 126); "misto de curiosidade e desdém" (Uma Fazenda em África, p. 119); "um misto de curiosidade e de receio" (Vento de Espanha, p. 17); "misto de curiosidade e admiração", "misto de inquietação e de curiosidade" (Do Outro Lado do Mar, págs. 127, 189).

          Convergindo para um misto de emoções paradoxais, JPM cria um equilíbrio instável às suas vidas. É uma complicação enorme tentar separá-las: Mateus sentia "um misto de surpresa e de pesar", "um encadeado de novidades e de surpresas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 180, 215); "Raquel sentiu um misto de surpresa e de frustração" (O Prazer de Guiar, p. 75); "sentiu um misto de surpresa e de desilusão"; p. 302: "um misto de surpresa e de exasperação" (Vento de Espanha, págs. 38, 302); "um misto de surpresa e rejeição" (Do Outro Lado do Mar, p. 274).

          A palavra "misto" é um substantivo masculino que significa uma mistura, uma combinação ou um conjunto de coisas, sentimentos ou elementos de naturezas diferentes que se unem num só corpo. Em JPM, ela assume diferentes funções sintáticas, tanto pode funcionar como predicativo do sujeito, como complemento directo ou simplesmente como sujeito.

          Independentemente disso, a ideia central – sentimentos opostos que ocorrem ao mesmo tempo, fundidos na mesma sensação – mantém-se a mesma. O significado semântico não muda, ou seja, continua a descrever a simultaneidade e fusão de emoções opostas, em contraste ou de natureza diferente, no íntimo das personagens: "um misto de pavor e de deslumbramento", "com um misto de impotência e de pena", "um misto de raiva e de apreensão", "com um misto de cansaço e de muda reprovação", "misto de desilusão e de resignação", "misto de excitação e doce torpor", "misto de satisfação, de repulsa e de temor", "sentiu um misto de tristeza e de resignação", "num misto de sono e de espanto" (Uma Fazenda em África, págs. 52, 101, 252, 288, 321, 378, 387, 402, 423); "um misto de condescendência e de sobranceria", "misto de arrependimento e de vergonha", "misto de indignação e de espanto", "sentiu um misto de falta de ar e de cólera", "misto de agradecimento e de irónico prazer", "num misto de homenagem e de agradecimento" (A Aluna Americana, págs. 28, 58, 106, 141, 283); "um sentimento mal definido que era um misto de lástima, de culpa e de vontade de retaliação" (Até ao Fim da Terra, p. 102); Raquel começou a rir, "num misto de divertimento e de reprovação", Valentina Lara, luso-ucraniana: "Sentia um misto de divertimento e de desprezo", João sentia "um misto de ternura e de gosto de estar próximo dela", João: "Já na cama teve dificuldade em conciliar o sono devido a um misto de cansaço físico e de excitação da façanha", Valentina voltou a sorrir "com um misto de bonomia e de distanciamento filosófico" (O Prazer de Guiar, págs. 28, 43, 107, 149, 151); "um misto de amor e de gratidão"; p. 173: "misto de medo e de raiva" (Vento de Espanha, págs. 55, 173); "com um misto de cerimónia e de hostilidade" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 178); "misto de solidariedade patriótica e de admiração", "o sentimento de descoberta foi misto", "misto de gentileza e de coquetterie", "sentia um misto de perplexidade e zanga", "um misto de vergonha, repulsa e raiva" (Os Dias da Febre, págs. 45, 121, 142, 247, 284); "um misto de ingenuidade e de ousadia", "um misto de satisfação e de sarcasmo" (Haiti, págs. 37, 228); "misto de temor supersticioso e de expectativa", "um misto de inveja e de indisfarçável rancor", "misto de desânimo e de impaciência" (Do Outro Lado do Mar, págs. 144, 184, 337).

          Por vezes, possuem um denominador comum, que funciona como um adereço do espírito. Desde a revolta – "Sentiu um misto de revolta e de receio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 201); "sentia um misto de raiva (...) e de revolta" (A Aluna Americana, p. 87); João sentiu "um misto de revolta e de desespero" (O Prazer de Guiar, p. 16) – à irritação – "num misto de desespero e de irritação" (Os Dias da Febre, p. 19); "num misto de incredulidade e de irritação surda" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 238); Valentina "sentia um misto de irritação e de bem-estar" (O Prazer de Guiar, p. 140) – passando pelo desespero – "num misto de desespero e de irritação" (Os Dias da Febre, p. 19); João sentiu "um misto de revolta e de desespero" (O Prazer de Guiar, p. 16); "num misto de desespero, raiva e desprezo" (A Aluna Americana, p. 77); Tilly sentiu "um misto de apreensão e desespero" (Haiti, p. 102) –, pela ansiedade – "misto de ansiedade e de preocupação" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 243); "um misto de ansiedade e de prazer" (Uma Fazenda em África, p. 431) –, pela inquietação "misto de mágoa e inquietação" (A Aluna Americana, p. 188); "misto de perplexidade e de inquietação" (Uma Fazenda em África, p. 339) –, pelo prazer – "um misto de ansiedade e de prazer" (Uma Fazenda em África, p. 431); "misto de prazer e de melancolia", "misto de agradecimento e de irónico prazer" (A Aluna Americana, págs. 38, 283); "mistura de indizível prazer e de recorrente dor" (Os Dias da Febre, p. 261); "misto de prazer e de descoberta" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 100) – pelo desdém – "misto de exasperação e de desdém", "um misto de compreensão e desdém" (Uma Fazenda em África, págs. 312, 426); "um ódio misturado de desdém" (A Aluna Americana, p. 54); João sentiu "um misto de ira e de desdém" (O Prazer de Guiar, p. 30) – e pelo alívio "com um sentimento ambivalente de alívio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 187); "um misto de alívio e de desânimo" (Uma Fazenda em África, p. 208); "com um misto de premência e de alívio" (O Prazer de Guiar, p. 122); "um misto de alívio e de triunfo" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 68); "com o peito emaranhado num confuso novelo de ciúme e de renúncia, de alívio e de saudade", "misto de alívio e de inquietação", "sentiu-se simultaneamente aliviado e inquieto" (Do Outro Lado do Mar, págs. 41, 153, 197).

          JPM defende que tudo o que existe, existe em estado de mistura: "sentia uma estranha mistura de inquietação e de curiosidade", "uma insólita mistura de sentimentos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 93, 257); "de mistura com a luz do sol e o palrar dos escravos", Bernardino sentia por Benedita "uma estranha mistura de sentimento paternal e de desejo febril", "mistura de saudade e de apreensão" (Uma Fazenda em África, págs. 179, 214, 376); "As coisas estavam tão misturadas, tão entrelaçadas", "uma confusa mistura de nervosismo, expectativa e impaciência", "uma mistura de cavalheirismo romântico, de mal pensado voluntarismo e, sobretudo, de fortes sentimentos de culpa" (Até ao Fim da Terra, págs. 9, 12, 110); "uma mágoa misturada com raiva" (A Aluna Americana, p. 213); "foi acometido por uma mistura de sentimentos desencontrados", "uma tal mistura de provocação, de vivacidade e agilidade" (Haiti, págs. 149, 218); "uma mistura de aceitação, carinho, agradecimento e amor" (Os Dias da Febre, p. 318); "uma mistura de espanto e de reconhecimento" (Do Outro Lado do Mar, p. 275); "o que sentia era uma mistura de tristeza, de aborrecimento e de coisas mal resolvidas" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 138).

          Fiel à máxima do poeta, crítico literário e dramaturgo inglês John Dryden, segundo a qual a literatura deve oferecer simultaneamente, ou ao mesmo tempo, um misto e uma mistura de "instrução e prazer", JPM convida-nos a contemplar a simultaneidade de perspectivas aparentemente discordantes ou dissonantes, mas que acabam por se harmonizar num plano de ambiguidade. A experiência de sentimentos simultâneos é tipicamente poética, posto que enche o vazio e, através da combinação ou enumeração de antíteses, paradoxos, ou oxímoros, produz intuições acerca das coisas, dos seres e das suas relações: "simultaneamente esperançado e apreensivo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 322); "simultaneamente calma e penetrante", "um sorriso jovial e, simultaneamente, tímido", "simultaneamente um tempo de êxtase e de suplício" (Uma Fazenda em África, págs. 101, 145, 152); "uma voz simultaneamente doce e desolada" (sinestesia combinada com uma antítese), "Foi simultaneamente belo e difícil tê-los ali", José Duarte era "um homem simultaneamente acre e doce, corajoso e atento, másculo e feminino", "simultaneamente tranquilizador e limitativo", "simultaneamente feliz e preocupado" (A Aluna Americana, págs. 38, 87, 91, 283); "isso era simultaneamente estranho e muito eloquente"(O Prazer de Guiar, p. 34); "simultaneamente feliz e muito assustada"; "simultaneamente firme e alegre", "simultaneamente eufórico e embaraçado", "simultaneamente o castigo e a redenção", "simultaneamente com esperança e com medo", "simultaneamente furtivo e feroz", "simultaneamente doce e triste" (Vento de Espanha, págs. 70, 78, 88, 208, 263, 279, 329); "simultaneamente ilustrada e intuitiva", "um feixe de emoções simultâneas" (Haiti, págs. 160, 213); "simultaneamente suave e firme", "a atmosfera luminosa e simultaneamente quente" (repare-se nesta sinestesia), "simultaneamente alcançável e inacessível", "simultaneamente controlado e sensível" (Os Dias da Febre, págs. 116, 128, 197, 292); "sentiu-se simultaneamente aliviado e inquieto", "simultaneamente assustado e intrigado", "sentia-se simultaneamente divertida e magoada" (Do Outro Lado do Mar, págs. 197, 227, 286); "simultaneamente fonte de liberdade e de medos", "Luís sentiu-se simultaneamente maravilhado e perplexo", "o que simultaneamente a aliviava e entristecia" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 53, 85, 88).

          O mau e o bom, o pior e o melhor, o antigo e o moderno, central e o marginal, o trágico e o picaresco, o intelectual e o emocional, o pragmático e o idealista, o acelerador e o travão, o consentido e o proibido, a calma e o nervosismo, a segurança e a incerteza, o agradável e o desagradável. São muitas coisas ao mesmo tempo: "Isabel sentiu pena dela e ao mesmo tempo uma grande alegria", "doce e compreensivo e ao mesmo tempo firme e seguro", "ternurento e ao mesmo tempo um general" (A Aluna Americana, págs. 86, 163); "ao mesmo tempo ingénua e astuta" (Do Outro Lado do Mar, p. 213); "sentia, ao mesmo tempo, alívio e pena"; p. 166: "era doce e compreensivo e ao mesmo tempo firme e seguro" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 140, 166).

          Tudo surge ora num torvelinho – "num torvelinho cada vez mais confuso de ideias", "num torvelinho de expectativas e de rumores" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 70, 119); "um torvelinho de prazeres e de emoções", "num torvelinho de mágoa e de ressentimento" (A Aluna Americana, págs. 44, 105) –, ora num novelo – "Sátiro saiu do hospital com um novelo de sentimentos a apertar-lhe a garganta" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 237) –, ora numa enxurrada – "uma enxurrada de sentimentos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 286) –, ora numa amálgama – "uma amálgama de tensão, expectativa, desapontamento e, acima de tudo, tédio" (Até ao Fim da Terra, p. 103) –, ora em turbilhão – "Carlos sentia-se perto de explodir, percorrido por um turbilhão de sentimentos" (Os Dias da Febre, p. 273) –, ora entrelaçando-se – "campos onde o amor e a morte se entrelaçavam de uma forma tão estreita, tão intensa e tão profunda" (Os Dias da Febre, p. 318) – ora entrançando-se – "Algures dentro de si essas sensações [medo e exaltação] entrançavam-se uma na outra como se fossem indissociáveis" – ora numa confusão – "Aquela aluna voluntária provocava-lhe uma confusão de sentimentos" (A Aluna Americana, p. 24), Etelvino "foi percorrido por uma confusão de sentimentos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 327).

 

          E se os gestos?

 

          As descrições de JPM são de quem teve tempo de observar as múltiplas formas de construirmos o corpo e todos os seus contornos e movimentos. Quem ler estes romances aprenderá a interpretar os significados ocultos nos gestos (e microgestos), nas reacções, nas expressões faciais, nas posturas, etc. Vejamos alguns exemplos: "Mateus Vilaverde levantou-se. Sabia que aquela conversa tinha chegado ao fim", "Gonçalo Henriques fez um sorriso condescendente e ergueu-se, o que assinalava o final da conversa" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 77, 247); "Bernardino ergueu-se também, sentindo que a audiência findara" (Uma Fazenda em África, p. 231); Balakirev "levantou-se, percebendo que a conversa acabara, e Vorobiov pôs-se igualmente de pé e acompanhou-o à porta" (Vento de Espanha, p. 306); "disse Pedro, enquanto se erguia por sentir que o encontro terminara" (Os Dias da Febre, p. 35); "Eugénia ergueu-se para dar a entender que aquela conversa acabara" (Do Outro Lado do Mar, p. 338); "E dizendo isso o velho ergueu-se, dando a entender que aquele encontro estava terminado" (Até ao Fim da Terra, p. 107).

 

                                                                        (Continua)


          Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de João Pedro Marques que será editado em breve.



                                                            João Pedro George

 

 

 

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