O
Relojoeiro
Escrever
é um ofício que, tal como o bilhar, exige muita precisão e regularidade. É
preciso cuidar de todos os pormenores, por mais insignificantes que pareçam.
Como JPM é também historiador, não lhe basta a verosimilhança, precisa de
representar os ambientes com o máximo de exactidão e rigor factual:
"reproduzidos com a exactidão de um relógio", "um
relógio de sala ia rodando imperceptivelmente os seus ponteiros",
"o trabalho corria com uma regularidade de relógio" (Uma
Fazenda em África, págs. 51, 239, 296); "com a regularidade e a
precisão de um relógio suíço" (Vento de Espanha, p.
230); "com a regularidade de um relógio" (Haiti, p.
215); "Tudo na vida parecia bem sincronizado, como no mecanismo de um
relógio" (Os Dias da Febre, p. 27); "com a regularidade
exacta de um relógio" (Do Outro Lado do Mar, p. 237).
Embora
tenha desistido do curso de engenharia no Instituto Superior Técnico (onde se
limitou a fazer uma única cadeira), JPM não se esquece da importância da
geometria, sem a qual não é possível projectar, dimensionar e representar os
volumes no espaço: "a admirável organização dos ingleses tinha para ele
[Mateus Vilaverde] o rigor geométrico e securizante da lei", os
"gestos reservados e geométricos da sua mão direita" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 37, 161); "Penteou-se com o
habitual rigor de desenho geométrico", "Devia ser uma daquelas
pessoas que tinha o mundo arrumado em categorias muito estanques e geométricas",
"com rigor geométrico", "foi cartesiano, geométrico"
(A Aluna Americana, págs. 8, 23, 102, 230); "pentear geométrica
e irritantemente o bigode", "Bento era geométrico e
metódico" (Até ao Fim da Terra, págs. 11, 20); "o que
repugnava à sua geométrica moral e rigidez jacobina" (Haiti,
p. 146); "a geometria masculina", "aquele mundo militar
demasiado geométrico e ordenado" (Os Dias da Febre, págs.
119, 259).
Todavia,
JPM não é só geometrismo e frieza. Nada disso. JPM também se abre ao
maravilhoso, ao mundo da adivinhação, à interpretação dos sinais e dos indícios
dos fenómenos naturais, para através deles antecipar os acontecimentos. Do seu
ponto de vista, a razão não se pode arrogar o direito de dizer tudo o que se
pode dizer sobre o real, reprimindo todas as coisas irracionais e imaginárias.
Os romances de JPM não podem ser lidos, apenas, como discursos da razão, mas também da irrazão. É por isso que o lúdico e o onírico ocupam um lugar ou posição central na obra deste autor, já com 10 romances publicados. O que o aproxima da escrita automática e do livre jogo das associações dos surrealistas, que romperam com o racionalismo redutor para libertarem a "vida do espírito" e captar o "maravilhoso" da vida quotidiana.
A
Profecia Celestina
De
facto, estes romances estão cheios de coisas da parapsicologia: prenúncios (e
sonhos premonitórios), presságios, vaticínios, reminiscências, pressentimentos,
etc. Algumas personagens possuem uma dimensão mítica, parecem ter capacidades
adivinhatórias especiais, possuem um radar interior que lhes confere uma
percepção extra-sensorial e lhes permite prever a inevitabilidade de certos
destinos. Marcas fundamentais do romance fantástico e do realismo mágico
latino-americano, nestes livros o sobrenatural é tratado com naturalidade e
usado para explorar a fatalidade, a memória e a história. Muitas vezes, as
premonições são alegorias para traumas históricos ou políticos, ou servem para
reforçar a ideia de um tempo que não é linear, mas sim cíclico.
As
personagens prevêem muitas coisas (mortes, tragédias, etc.): "Algo que
dizia que aquelas mortes eram o prenúncio de uma mudança radical da sua
sorte", "um barulho inquietante, de mau agouro",
"Formara-se um círculo de pessoas em redor de qualquer coisa caída no chão
e Luísa teve um mau pressentimento", "quando pensava nisso só
lhe ocorriam negros presságios", "E, então, num raro momento
de superstição, viu naqueles dois colegas do padre Guilherme, e nas várias
infelicidades que já lhe tinham acontecido numa viagem que ainda mal começara,
um possível sinal do desagrado do céu" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 30, 71, 244, 274, 299); "sons prenunciadores
da desgraça", "Nesse momento, uma grande águia-pescadora cortou o
céu, inesperada, e lançou-se num voo picado, afugentado as gaivotas que seguiam
no encalço do navio. A águia deu duas voltas em torno do mastro grande e depois
bateu as suas poderosas asas subindo em direcção ao sol e desaparecendo na sua
luz intensa. – Isto é um bom presságio – assegurou Bernardino, vibrando
de satisfação", "viam quase tudo carregado de prenúncios
favoráveis", "Aquela estranha culinária, que incluía uma dança
bárbara e descuidada em torno de um caldeirão, surgiu a Peter como uma
espécie de prenúncio do que o esperava na costa de África e isso fê-lo
sorrir", "como se aquela mão tivesse o condão de afastar de si os
prenúncios de desgraça", "A viagem inaugural até àquele buraco
(...) fora o prenúncio dos dias muito duros que estavam para vir",
Benedita "viu grandes massas de nuvens negras que corriam no céu umas
contra as outras como se fossem empurradas por ventos desencontrados e prenunciassem
desgraças", "O seu semblante estava cada vez mais carregado de
maus pressentimentos", "o ar estava abafado e aperreado pelo céu
cinzento num prenúncio de trovoada" (Uma Fazenda em África,
págs. 29, 44, 61, 81, 167, 192, 258, 311, 419).
Muitos
destes presságios estão certos, as personagens é que não fazem o que estava
previsto. Laforêt "era supersticioso e aquela louca a gritar pareceu-lhe um
sinal de mau agoiro", Marquês de Alorna é "tomado por uma
espécie de pressentimento", Maria Constança "lutara com os
percevejos, piava e esvoaçava um bando de pardais, o que ela achou de bom
prenúncio", "será esta queda um mau presságio?",
"levantou-se um vento e começou a chover, e isso pareceu-lhe auspicioso",
Bento Calheiros fez toda a viagem "com o coração apertado não fosse aquela
água toda ser mau prenúncio", Bernardo Sá Nogueira levava "um
embrulho sob o braço direito e ela teve um negro pressentimento" (Até
ao Fim da Terra, págs. 82, 138, 172, 182, 193, 238, 246); "pôs os
olhos no céu para agradecer essa Graça ao Criador no momento em que dois
pássaros cruzavam velozmente o círculo luminoso da Lua e viu nisso um
auspicioso sinal de bom sucesso", "O grito de um pássaro que
cruzava os céus veio sublinhar aquela mensagem de desamparo", Toussaint
"mandou que ela o procurasse nos seus aposentos, algo que Joséphine
entendeu como mau presságio" (Haiti, p. 83, 94, 237);
"Qualquer coisa que ele não sabia nomear nem apontar, talvez fosse um
prenúncio de morte", "os pássaros sentem o que está para
vir" (Vento de Espanha, p. 7, 125); "os animais têm a
capacidade de detectar a maldade e para farejas as almas perversa" (Até
ao Fim da Terra, p. 176); "Para Pedro, a festa funcionou como uma
cerimónia iniciática, como um prenúncio de um reencontro com a terra
firme"; p. 317: uma frase de circunstância que "acabaria por se
revelar profética" (Os Dias da Febre, págs. 38, 317);
"ficava a contemplar a fogueira que os soldados acendiam para se aquecerem
e via tremeluzir o convidativo sorriso de Caetana através das labaredas.
Lembrando-se do que ouvira, em tempos idos, às ciganas de Évora, via nisso um
bom presságio", "os homens tinham percebido que aqueles antílopes
eram um sinal de mau agouro", "O sol da tarde carregava o céu
de nuvens vermelhas, como se quisesse anunciar uma tragédia",
"Um bando de pássaros passava sobre o pântano num piar contínuo que se
entrelaçava com o coaxar das rãs numa música jovial e acolhedora, o que lhe
pareceu um bom auspício" (Do Outro Lado do Mar, págs. 12, 66,
97, 289); "aquele infractor podia ser mau prenúncio",
Valentina estava a ladeada de "plantas de que não sabia o nome, mas que
exalavam um suave perfume, o que lhe pareceu bom augúrio" (O
Prazer de Guiar, p. 55, 156); "Ninguém se alongava muito sobre isso
[serviço militar e ida para a guerra em África], como se o facto de falar no
assunto pudesse dar azar", Bebé Mexia "concluiu que o Técnico
[Instituto Superior] lhe dava azar" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
págs. 40, 41).
João
Pedro Mágico
Na
verdade, os livros de JPM abrem caminho a uma magia maior que nós: Peter
gostava daquela "espécie de primitivismo que andara escondido dentro dele
e que agora desabrochava como que por feitiço. Havia qualquer coisa de
sobrenatural no seu fascínio por África", "parecia querer empurrá-lo magicamente
em direcção àquela terra", "como se fosse uma fórmula mágica",
os cozinhados de Gertrudes traziam "os mágicos sabores da
infância", "Ali ou em Angola, a magia era sempre a mesma e era
irresistível; um magnete que se tornava mais forte a cada dia que passava e que
o prendia àquele continente", "uma floresta mágica",
"aquelas semanas de magia", "momentos mágicos"
(Uma Fazenda em África, págs. 82, 90, 92, 99, 159, 242, 322); "um
tempo mágico", "viver magicamente de ar e
sorrisos", "Cada minuto daquelas horas era mágico",
"daquele momento mágico", "mãos mágicas" (A
Aluna Americana, págs. 81, 89, 208, 218, 226); "naquela paisagem
francesa, que passava pelos seus olhos como as imagens de uma lanterna
mágica" (Até ao Fim da Terra, p. 172); "dia mágico"
(do casamento de Lurdes com Gervásio), "passeio mágico",
"atmosfera mágica" (Vento de Espanha, p. 44, 108, 195);
"tudo aquilo tinha um ar mágico" (Haiti, p. 129); um
"tempo mágico" (Do Outro Lado do Mar, p. 10); "mágicos
dias", "mundo mágico", Luís Ashley, antes de se
encontrar com Helena, pensa que "cada minuto do que se seguiria iria
ser mágico" (alguns parágrafos depois, na página 83, isso confirma-se:
"Cada minuto que passava com Helena era mágico"), "aquele
mágico instante da música pop" (a gravação de All you
need is love), o "mágico mundo da literatura", "uma carga
mágica" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 56, 70, 81, 106, 143,
147).
Os
romances de JPM, apesar de marotos (aqui e acolá), têm também um lado
religioso. Inflamam a imaginação e difundem entusiasmo místico: Mateus
Vilaverde "seguia a legislação civil e os regulamentos militares com uma
devoção quase religiosa", uma senhora loura "não tirava os
olhos de si, seguindo religiosamente cada uma das suas palavras" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 23, 186); "um silêncio
quase religioso"; p. 380: "em religioso silêncio"
(Uma Fazenda em África, págs. 28, 380); "ela ouvia religiosamente
as suas explicações" (A Aluna Americana, p. 252); "os
condutores seguiam religiosamente as regras", João, aos
fins-de-semana levava o filho Guilherme "religiosamente para os
parques infantis" (O Prazer de Guiar, págs. 20, 108-109); "com
um fervor quase religioso" (Vento de Espanha, p. 121);
"Robert cumpriu religiosamente essa promessa", "Catarina
respeitou religiosamente as restrições alimentares", "a religião
é uma coisa estranha" (Os Dias da Febre, págs. 85, 160, 173); o
avô de João Pedro Simões lia o jornal República "todas as noites, religiosamente",
Luís "controlara-se religiosamente", "ele seguiu religiosamente
o conselho da tia Lucinda" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 54,
164, 210).
O
Suave Milagre
Os
milagres repetem-se, perfeitos: "milagrosamente calma",
"Como que por milagre, a raiva que sentira nos últimos anos,
desvaneceu-se" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 212,
328); "tudo se aquietou como que por milagre", "as tuas
mãos fazem milagres. E os teus olhos também", "O seu amor
estava ali, à sua frente, milagrosamente caído do céu"; p. 297:
"tudo aquilo era um milagre" (Uma Fazenda em África,
págs. 10, 135, 234, 297).
De
certa maneira, JPM funda uma nova mística: "a solução que procurava
chegou-lhe quase que por milagre" (Até ao Fim da Terra, p.
211), "aquele Vasco Lacerda, que caíra milagrosamente no seu
regaço" (Do Outro Lado do Mar, p. 208), uma história envolvendo o
Batata era "um milagre" ou, segundo Bebé, "vários
milagres", Ema "tinha dificuldade em digerir o milagre"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 44, 68).
Graças
à imensa plasticidade da escrita de JPM, a literatura portuguesa encontra
novamente o poder da palavra para conjurar a realidade e compelir à crença:
Maria Constança "juntou as mãos, numa espécie de oração", uma
"premente vontade de rezar" (Até ao Fim da Terra, págs.
121, 156), Elvira fica "horas deitada na cama a pensar ou a rezar,
sem conseguir adormecer" (Os Dias da Febre, p. 121).
António
Calvário
As
histórias de JPM simbolizam o caminho e o exercício de oração (Via-Sacra) ou
mesmo o destino final e o local exacro em que Jesus foi crucificado (Calvário):
a presença de Luísa ajudava Mateus a "suportar o seu calvário";
p. 71: Mateus "cumpria uma via-sacra para a inútil investigação de
um suicídio"; p. 175: "calvário dietético"; p. 263:
Mateus "prosseguiu a sua via-sacra" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 27, 71, 175, 263); "Quando teria fim aquele calvário?",
Benedita: "parecia que o seu calvário não mais tinha fim",
"A subida da Chela tinha sido um imenso calvário" (Uma
Fazenda em África, págs. 139, 192, 324); as idas diárias de José Duarte ao
hospital, quando a primeira mulher adoeceu, "eram calvários",
"a noite foi um calvário", a vida de Isabel tornou-se "um
calvário", "estava no meio de O Caminho do Calvário,
o quadro de Bruegel", "A carroça pôs-se em movimento e foi-se
aproximando do Gólgota", "como quem carrega uma cruz",
"aliviado por ter posto fim ao seu calvário", "agora
estou neste calvário", "estava condenado àquele calvário",
"a Duque de Loulé era um calvário", "O resto das férias
grandes foi um calvário", José Duarte lembrou-se "do
calvário da mulher" (A Aluna Americana, págs. 13, 39, 78, 84,
85, 99, 115, 164, 199, 216, 231); "para suportarem melhor aquele calvário"(Até
ao Fim da Terra, p. 206); "por
estar a aproximar-se do seu Gólgota", "Os primeiros meses de
luto foram um verdadeiro calvário", ao ter-lhe proporcionado o
encontro com Lurdes, "talvez Nosso Senhor quisesse dar-lhe um sinal quando
a pusera no seu caminho. Talvez quisesse dizer-lhe que não o havia esquecido e
que pretendia compensá-lo pelo calvário que a sua vida tinha sido até
aí", "Custódio Moreira deu em pensar que aquilo eram reproduções do Calvário
de Nosso Senhor", "aquele calvário durava há horas" (Vento
de Espanha, págs. 53, 63, 87, 161, 214); Beauregard deu "graças a Deus
por as mulheres da sua família terem sido poupadas a esse calvário"
(Haiti, p. 86); "Os primeiros dias de viagem foram um calvário
de enjoos", Robert "sabia que daí para diante a sua vida iria ser
um calvário e que demoraria uma eternidade a esquecer Elvira",
"Marília tentou apoiá-la no seu calvário" (Os Dias da Febre,
págs. 35, 200, 303); "o calvário daqueles desgraçados",
"A bela mulher era como um curso de água fresca que o ajudava a resistir àquele
calvário"(Do Outro Lado do Mar, págs. 133, 277); "As
borbulhas do queixo não lhe doíam, mas estavam com mão aspecto. Quando chegaria
o dia em que Deus o livrasse do calvário do acne?", Henrique tem
"uma pesada cruz para transportar" (Um de Nós Deve Lembrar-se,
págs. 48, 79).
Apocalipse
Não
Seguem-se
as imagens criadas para transmitir uma sensação de fim dos tempos. JPM pode não
ser uma calamidade, mas a partir dele vê-se o Apocalipse: um cabo que perdeu
uma perna arrasta-se "como um animal moribundo, tentando escapar daquele
apocalipse", "tétricos sinais do apocalipse local" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 233, 289); Peter naufraga e a sua
bagagem pessoal e o caixote com as suas armas foram "as únicas coisas que
fora possível salvar daquele apocalipse de água", "Bernardino
sentiu que a sua vida fora completamente trucidada por um apocalipse"
(Uma Fazenda em África, págs. 95, 412); "A guerra era um
apocalipse" (Até ao Fim da Terra, p. 230); "as cinzas e o
fumo das propriedades em chamas continuavam a toldar o céu como se os dias
do apocalipse de que o padre falava tivessem vindo para ficar",
"tudo o que vira no apocalipse em que mergulhara" (Haiti,
págs. 75, 103); "era como se o destino tivesse intervindo com uma
inclemência apocalíptica"; aquele Outono em Lisboa, devastado pela
febre, foi "verdadeiramente apocalíptico" (Os Dias da Febre,
págs. 157, 169).
No
Apocalipse, a identidade do Diabo ("o pai da mentira") é revelada,
sendo ali descrito como "o grande dragão, a antiga serpente, chamado Diabo
e Satanás". No Livro do Apocalipse, ou Livro da Revelação (o 66º livro da Bíblia
e o 27.º e último do Novo Testamento), o demónio não actua sozinho, delega
alguns dos seus poderes a uma imitação fajuta da Santíssima Trindade, para com
ela enganar as nações: o Dragão (o próprio Diabo), a Besta do Mar (o
Anti-Cristo, que assume a figura de um líder político ou que é representada por
um império) e a Besta da Terra (um Falso Profeta, ou líder religioso e/ou
ideológico, capaz de realizar falsos milagres", para com deles convencer a
humanidade a adorar o Dragão e o Anti-Cristo).
As
personagens levam uma vida de luta constante para desmascarar o demónio e
denunciar as suas estratégias de manipulação. A mitologia do indivíduo autónomo
perseguido pelo demónio simboliza a luta do ser humano contra a sua própria
destruição e contra a implementação. Tal como para Baudelaire, que o evoca em As
Flores do Mal e o refere nos seus Diários Íntimos como "o tipo
mais perfeito de beleza viril", para JPM, Satã não é um mito, mas uma
realidade tangível, patente na crueldade, na violência e no erotismo
sanguinário (embora este seja um assunto de demónios privados, JPM sabe
perfeitamente que os demónios privados falam também a uma ansiedade colectiva
amplamente partilhada).
Em
Uma Fazenda em África, Peter "queria matar de vez o homem indeciso
e ocioso que vivia dentro si", "em África o diabo brinca
connosco" (p. 80), "pedia constantemente que acelerassem o passo, como
se fosse perseguida por demónios" (p. 167), "escoiceou-a
com força, como quem expulsa um demónio" (p. 207),
"José Leite ficou hirto como se lhe tivessem falado no demónio"
(p. 334), "as poucas mulheres que estavam na rua refugiavam-se em casa, como
se vissem o demónio" (p. 402).
Depois,
em O Estranho Caso de Sebastião Moncada, Mateus "bateu seca e
vigorosamente com os nós dos dedos na madeira, como quem excomunga um
demónio" (p. 31), João Rebocho temia não conseguir "encontrar
dentro de si a força suficiente para vencer o demónio que o subjugava"
(p. 111), Golias lançou um berro aterrador, "como se travasse uma luta
interior consigo mesmo e com os seus demónios" (p. 142), "Abriu
muito os olhos como se tivesse visto o demónio" (p. 321). Em Até
ao Fim da Terra, Bento procura "escapar dos seus demónios"
(Até ao Fim da Terra, p. 21) e em Vento de Espanha, Custódio
tenta ceder "àquela tentação do demónio" (Vento de Espanha,
p. 190).
Conhecimento
do inferno
Em
JPM, os valores são nítidos e precisos. O Apocalipse é o Apocalipse. O Diabo é
o Diabo. O Inferno é o Inferno (embora, como disse Shakespeare, "o furor
dos infernos nada é comparado ao de uma mulher"). JPM é um escritor que
quando vai ao inferno volta quando lhe apetece (como Boccaccio, quando as
mulheres o viam passar na rua imerso nos seus pensamentos).
De
acordo com esta visão, a descida aos infernos é uma forma de introspecção.
Aceitar a existência de um inferno dentro de nós é condição indispensável para
o progresso da nossa consciência. Descer ao inferno pode ser um método de
descoberta, mas também um beco sem saída.
Cometemos
erros e acumulamos contradições. Reincidimos. Viajar no nosso interior pode ser
uma odisseia, como no Canto XI da Odisseia de Homero, ou no Ulisses de
James Joyce, que reconstrói o ambiente daquela epopeia grega num único dia em
Dublin (16 de Junho de 1904) e transfigura o herói da mitologia em cidadão
comum, como em JPM: para Luísa, a hora das refeições com o marido "era o
inferno", "Em frente dos seus olhos, o pesadelo do pecado mortal,
o espectro da eterna danação, erguiam-se, enormes e incontornáveis, para o
torturarem como um inferno na terra" (Padre Guilherme),
"equivalia a um século de inferno!", "fragor infernal";
p. 190: "sentia-se às portas do seu inferno pessoal", "a
cidade estava imersa numa atmosfera infernal", "aquele
inferno de bombas e de perigos", Sátiro: "a estúpida vaidade que
o tinha atirado para aquele inferno" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, págs. 65, 79, 174, 177, 190, 193, 195, 233);
"estrondo infernal", os gritos "tornando-se infernais",
Benedita e "o inferno da sua vida" e "Peter pensou no
inferno" (Uma Fazenda em África, págs. 103, 106, 213, 422);
José Duarte longe de Isabel é o "seu inferno pessoal",
"queria escapar daquele inferno" (A Aluna Americana,
págs. 138, 222).
E
mais, e mais, e mais: "descida aos infernos", Custódio dizia a
si próprio "que aquele inferno que ali vivia era o castigo a que
fora condenado pelos muitos erros que fizera no seu passado", "às
vezes dizia a si próprio que já acumulara dinheiro suficiente" e isso
"era como estar à porta do próprio inferno" (Vento de
Espanha, págs. 63, 133, 134, 277).
JPM
está na mesma altura da vida que Dante quando embarcou na sua peregrinação:
"teve a certeza de que aquela missão o levava numa viagem ao
inferno"; "intensos braseiros cujas labaredas assobiavam e zuniam,
tal qual um inferno" (Até ao Fim da Terra, págs. 75, 206);
"sentiu o terror a agarrar-lhe o estômago e soube que tinha chegado a
um inferno", os navios a arder pintavam o mar de tons avermelhados e
isso "era uma visão do inferno", "quanto tempo mais
conseguiria sobreviver naquele inferno?", "o alívio por fugir do
inferno" (Haiti, págs. 95, 169, 227, 243); "Isto é um
inferno. Pior do que a Serra Leoa" (Os Dias da Febre, p. 171);
quando Caetana rompe com Vasco, "os primeiros dias sem ela foram uma
autêntica descida aos infernos", "um pequeno inferno de
dor e solidão", Vasco queria "sair daquela antecâmera do inferno",
Vasco "debatia-se naquele seu inferno particular" (Do Outro
Lado do Mar, págs. 37, 39, 93, 129).
O
autor da Divina Comédia está dolorosamente presente nestes livros, JPM
identifica-se com ele, inspira-se nele, mergulha por completo nele: "À sua
volta o espectáculo era dantesco" (O Estranho Caso de
Sebastião Moncada, p. 210), "ambiente dantesco" (Uma
Fazenda em África, p. 410), "deparou-se com o dantesco espectáculo
de umas trinta mulheres lívidas" (Haiti, p. 102), "uma atmosfera
dantesca" e "Os primeiros dias de embarque foram dantescos"
(Os Dias da Febre, págs. 75, 302); um "cenário dantesco"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 249).
1000
vezes
Para
JPM, que tanta importância dá à simbologia, o número 1000 tem um vasto
significado intelectual, religioso e espiritual. Profundo conhecedor das
diferentes tradições culturais, folclóricas e sociais, JPM sabe que
"mil" remete, em primeiro lugar, para a Bíblia, onde esse número
representa a perfeição, a totalidade e a imensidão. No Antigo Testamento diz-se
que Deus estabeleceu um pacto de sangue vitalício indestrutível com o ser
humano. O amor de Deus expande-se até "mil gerações", bem como a sua
fidelidade à promessa de proteger e cuidar dos seres humanos, devendo este
viver segundo as suas leis. A expressão "mil gerações" não tem aqui
um significado matemático, antes um sentido teológico: mil gerações equivalem à
eternidade. O mil aponta também para a coragem, a persistência, a força
espiritual e o início da caminhada rumo à evolução pessoal dos
"anjos", e indica o período do reino de Cristo no Apocalipse.
Na
Cabala (e no misticismo judaico), o número 1000 é a primeira letra do alfabeto
hebraico e está ligado ao Aleph, ou seja, a Unidade Absoluta, a Origem de Tudo
e o Infinito. Tal como o escritor argentino Jorge Luis Borges, para quem o
Aleph é um ponto que nos permite ver, simultaneamente e sem distorção, todos os
pontos do universo de todos os ângulos possíveis, também JPM utiliza o 1000
como número literário perfeito, a partir do qual as suas personagens recriam
intimamente o universo e a totalidade cósmica: Mateus "arrependendo-se mil
vezes", "o coração partia-se em mil bocados",
"Mil beijos amor do meu coração" [envia Francisca a
Sebastião Moncada], o capitão Rebocho "teria preferido mil vezes
avançar de dia", Luísa "mil vezes desejou que a asma
o levasse", "tinham-no levado com mil cuidados para
a casa", "reconstituíra o triste acontecimento mil vezes
na sua cabeça", "Mil beijos da tua Luísa"
[enviados a Mateus Vilaverde], Luísa, relendo o jornal, "descobria mil
coisas nas entrelinhas", dúzia e meia de voluntários liberais
assaltaram Mateus "com mil perguntas sobre o cerco",
"continuavam a levantar-se mil contratempos e
obstáculos", Mateus passou por "mil perigos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 33, 82, 151, 157, 167, 176,
269, 282, 296, 319); "Por que motivo tinha tanto prazer em obedecer-lhe,
em antecipar-lhe os desejos, em cheirá-lo, em satisfazê-lo de mil
maneiras, como uma mulher amoral e perdida?", o barão de Vila
Nova de Ourém perdia "a paciência para repetir o que já fora dito de mil
maneiras", "saturando o ar com mil conjecturas",
"os seus olhos brilhantes que falavam por ele dizendo mil coisas",
"desejou ter mil feridas daquelas", "mil
vezes pensou correr atrás da escrava", "mil estrelas
suspensas do tecto", "dar-lhe mil beijos de todas as
maneiras", "com olhos muito abertos e sofridos que diziam mais do que
mil palavras", "com esforço e mil cuidados",
"preferia mil vezes estar em movimento e ao ar
livre", "mil solicitações" (Uma Fazenda em África, págs. 41, 49, 50, 74, 171, 198,
235, 248, 257, 295, 322, 369); "doía-lhe mil vezes mais o
coração", "deu-lhe mil beijos no pescoço",
"depois de o beijar mil vezes", "pensei mil
vezes", "mil coisas reprimidas" (A Aluna Americana, págs. 63, 171, 179, 203, 272);
"Pensou mil vezes", "olhou mil vezes",
"mil vezes Florencia cuidou", "Nessa noite não
conseguiu dormir. Ficou deitado na cama, de ollhos fixos no tecto negro",
Bento envia "mil beijos" a Constança (Até ao Fim da Terra, págs. 166, 192, 206, 241, 248);
"como já reconhecera mil vezes antes", um homem
queixa-se "por entre mil lamúrias", Valentina
"de dentes cerrados e por entre mil imprecações",
"Já tivemos mil aventuras" (O Prazer de Guiar, págs. 13, 43, 49, 146); "o
ruído de mil passos apressados", Lurdes
"arrependeu-se mil vezes", "obrigava-os a
repetir mil vezes as formaturas", "a fotografia, que
viu mil vezes", "mil vezes dissera
a si próprio", Zanelli preferia "mil vezes estar na
frente de combate", "mil vezes desejou" (O Prazer de Guiar, págs. 46, 108, 128, 129, 207, 209,
238); Joséphine para Tilly: "tenho mil beijos para lhe
dar", "mil beijos desta filha [Joséphine] que muito
a ama" (Haiti, págs. 54, 183); "mil
vezes mais fácil", "teria mil vezes
preferido ignorar", Elvira "preferia mil vezes as
actividades que implicavam movimento", "ainda que Roberto preferisse mil
vezes vê-la com uma toilette de cerimónia", "Acho mil
vezes preferível que arruínes a tua reputação", "milhões de
beijos" (Os
Dias da Febre,
págs. 30, 39, 120, 196, 226, 274); "transmitindo-lhe a sua voracidade de mil
maneiras até se fundir com ela", "mil encantos",
"a terra exalava mil aromas", "preferia mil
vezes estar no campo" e "Preferia mil vezes
ter uma cobra na cama", Sara envia "mil beijos"
a Vasco, "preferia mil vezes ter Joaquim Navarro como
adversário" (Do
Outro Lado do Mar,
págs. 33, 78, 129, 184, 233, 360). (Como terão facilmente verificado, a
expressão "mil vezes" tem 31 ocorrências e "mil beijos"
apenas dez ocorrências).
Em
JPM, o enredo é um encadeamento linear de acontecimentos. Por vezes, no
entanto, as histórias avançam em espiral, para transmitir a volúpia de um
sentido fatalista da existência. A narrativa regressa constantemente aos mesmos
temas, factos, traumas ou espaços geográficos. Porém, de cada vez que
regressamos ao mesmo ponto, nem os leitores nem as personagens permanecem
estáticos, no mesmo lugar. Porque em cada regresso ou repetição, os leitores e
as personagens possuem nova informação e dispõem de uma maior profundidade
psicológica (JPM é um psicólogo-nato), o que lhes permite adoptar perspectivas
diferentes sobre as mesmas coisas. Aquilo a que os estudos literários chamam
"progressão vertical": o enredo avança mantendo uma ligação circular
com o que ficou para trás, com isso ganhando profundidade e densidade.
No
calor da noite
Assim que abrimos os livros de JPM,
somos golpeados pela canícula, autênticas ondas de calor de extremo: Benedita irradiava calor",
o "doce calor que emanava dela", "o calor
era muito", "o calor era intenso", "Estava
um dia quente", "o calor e o
arredondado das nádegas", "Trazia dentro de si uma urgência de
Benedita que o queimava como fogo", "o calor dela
ainda estava na cama", "um calor de rachar",
"um exaltante calor interior" (Uma Fazenda em África, págs. 33, 157, 164, 212, 220, 267,
269, 354, 366); um "calor de rachar", "sol
abrasador", "Luís pegou-lhe na mão e Catarina sentiu o seu calor
através da luva", "disse Robert, pensando na forma quente
e plena como faziam amor", "o calor das mãos
dela" (Os Dias da Febre, págs. 137, 156, 157, 259).
JPM
soma assim a sua voz ao debate actual em torno das alterações climáticas e do
aquecimento global, preocupação que partilha com a obra de J. D. Ballard
("demasiado calor" é a expressão que aparece na primeira frase do
romance The Drowned World, publicado pelo escritor inglês em 1962). Como
nesta última obra, passada numa Londres submersa e tropical, transformada pelo
aquecimento global, o calor em JPM é tórrido e espesso, ou húmido: "o
corpo queria demorar-se, queria ficar naquele calor húmido",
"Ele levou-a, por entre beijos e risos, a mala numa mão e a outra mão no
corpo dela, sentindo o seu calor" (Vento de Espanha, págs.
102, 193); uma negra nascida em África "dava-lhe febres e calores"
e talvez, por isso, "sentiu a intensidade do seu calor" (Haiti,
p. 111); "carícias que o punham num entusiasmo tão incandescente",
"ela ardia em curiosidade de saber o quê", "esmagando-lhe
a cara contra o calor perfumado dos seus seios" (O Estranho Caso
de Sebastião Moncada, págs. 48, 158, 323); "Deitar-se a seu lado, sentir
o seu calor, fazer-lhe festas", "Sentia o desejo escalar,
espicaçado pelo calor do corpo dela e pelo seu perfume" (A Aluna
Americana, págs. 107, 203); "Sentia o calor do seu corpo, o seu
perfume" (Até ao Fim da Terra, p. 122); "o calor era
abrasador", "sentiu um doce calor quando a mão dele tocou
a sua pele" (Do Outro Lado do Mar, págs. 276, 285).
O ar é quente, muito quente mesmo. Não se sente a mais ligeira
brisa: "sorrindo de prazer ao antever o momento em que tocaria a
pele quente de Luísa", "esfregando-lhe o sexo duro com a palma
quente e macia da mão direita", "as mãos apalpavam-lhe as coxas
quentes e roliças" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs.
31, 97, 116); "sensações fortes, quentes e boas", "o
contorno quente de um seio encostado ao seu braço", "Estava uma
manhã mole e quente, pintada num céu imaculadamente azul" (Vento
de Espanha, págs. 95, 208); "beijos quentes e furtivos",
"um ar quente e alegre", "achou-a mais desejável, mais
quente", Robert "acariciou-lhe o cabelo e ela fechou os olhos,
foi-se aninhando melhor naquela pele quente e macia" (Os Dias da
Febre, págs. 155, 197, 231); Vasco "uma vez tocou-lhe [a Caetana], por
acaso, o cabelo quente e macio, e sentiu o desejo a percorrer-lhe o
corpo todo", "a pele quente dela" (Caetana), Vasco
apertou a mulher do soba nos braços, que "era macia e quente",
Sara "tinha uma voz quente e suave", "Uma noite, na
escuridão do compartimento, Sara subiu a escada do beliche e veio procurá-lo à
cama de cima. (...) Estava nua e tinha a pele tão quente, tão macia e
convidativa, que Vasco correspondeu instantaneamente", a "voz
quente de Felicidade", "o corpo quente de Felicidade"
(Do Outro Lado do Mar, págs. 10, 37, 139, 140, 227).
Frituras
criativas
Há
páginas que são como óleo a ferver: pode-se mergulhar nelas seja o que for que
daí sairá sempre um frito. O interior dos livros do autor de Os Dias da
Febre ferve de vida: Sátiro da Costa ia "fervendo num lume de
muitas curiosidades", Vilaverde desceu as escadas "numa fervura de
cólera mal contida" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 13, 33); "Bernardino sentiu-se a ferver por dentro",
"a ferver de raiva", Peter "fervia de desejos"
e "fervendo em sensualidade", "o seu sangue fervia",
"Sentia a raiva a borbulhar, fervente" (Uma Fazenda em
África, págs. 189, 192, 242, 244, 311); "uma amálgama a ferver de
adrenalina, excitação, gratidão e amor", "a ferver de revolta"
e "beijou-a de novo com fervor" (A Aluna Americana,
págs. 92, 107); Robert "sentia-se ferver por dentro" e
"Uma mão na mão de Arnaldo, outra a erguer a saia, e ela sempre a
vibrar com a aventura e o calor – pois as labaredas estavam altas"
(Os Dias da Febre, págs. 189, 195); "Vasco fervia por dentro",
"o cais fervilhava de sons", Tarquínio Torcato "fervia
de impaciência e cólera", Eugénia "sentia-se gelar por dentro e,
ao mesmo tempo, ferver de indignação", Bento e Viridiana "ferviam
de preocupação" (Do Outro Lado do Mar, págs. 28, 79, 121, 286,
288).
Entre
ferver (do latim fervere) e fervilhar (construído pelo acréscimo do
sufixo -ilhar ao verbo ferver) existe uma ligação morfológica e semântica,
porque partilham a mesma raiz e porque ambos apontam para a ideia de agitação.
O
calor faz os líquidos ferver (quando atingem a temperatura de ebulição) e,
consequentemente, também os faz fervilhar (aquelas inúmeras bolhas pequeninas
que sobem rapidamente na cafeteira). Para representar sensações interiores
(intensas ou abundantes) como agitação, ansiedade ou pressentimento, que mexem
com o estado de espírito das personagens, JPM recorre ao processo de
transfiguração figurativa dos verbos em substantivos, para transmitir a ideia
de pensamentos, emoções, coisas ou pessoas que não param de quietas: um "fervilhar
vago", "num fervilhar inquieto", "as ruas fervilhavam
de gente", a casa das irmãs Machadinho "fervilhava
de movimento e alegria", "o seu cérebro fervilhava"
(O Estranho Caso de
Sebastião Moncada,
págs. 123, 157, 182, 184, 288); "fervilhar fumegante e
sibilante", "num fervilhar exaltado", "A
gente praticamente nua que até então aguardava compacta e expectante, frente à
plataforma, começou a fervilhar como a lava de um
vulcão", "A fazenda começava a fervilhar de
curiosos", "a nação fervilharia numa enorme
excitação", "aquele fervilhar de iniciativas",
"a sua mente ia fervilhando de ideias loucas",
"A imagem da antiga mulher (...) não parava de lhe fervilhar
na cabeça", Moçâmedes "ia fervilhando de
excitação" (Uma
Fazenda em África,
págs. 11, 34, 106, 117, 160, 241, 245, 335, 362); "a Academia tinha um fervilhar
muito próprio", "um inquieto e penoso fervilhar
dentro de si", "o seu cérebro fervilhava" (A Aluna Americana, págs. 9, 16, 211); "o seu
cérebro fervilhava", "um fervilhar
nervoso" (Até
ao Fim da Terra,
págs. 177, 183); Léger-Félicité estava "a fervilhar por
dentro" (Haiti, p. 139); "a cidade fervilhava",
o "colorido de afectos que via fervilhar em casa das
outras pessoas", a "cidade fervilhando de vida"
(Os Dias da Febre, págs. 41, 208, 290); "A sua
imaginação já fervilhava", "havia um fervilhar,
um desconforto a crescer dentro de si", "cérebro a fervilhar
de ideias", "Gaspar assistia àquele fervilhar",
"as vontades desencontradas já estavam a fervilhar na
panela e o caldo podia vir por fora" (Do Outro Lado do Mar, págs. 166, 254, 299, 320, 330); Valentina, com "o
cérebro a fervilhar de conjecturas", "sentia o
prazer a fervilhar e a crescer dentro de si e surpreendeu-se
consigo própria. Já não fazia uma coisa assim, espontânea e solta, desde os
vinte anos" (O
Prazer de Guiar,
págs. 50, 137); o cérebro a fervilhar de pensamentos" (Vento de Espanha, p. 200); "com a imaginação a fervilhar"
e "as ideias que lhe cavalgavam na cabeça", "fervilhava
de impaciência", "a contestação ao regime fervilhava"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 109, 237, 245).
Se
as palavras ferver e fervilhar são irmãs, o adjectivo febril é primo em
primeiro grau de ambas: "Ela seguia a narrativa com interesse febril
e ria com grande espontaneidade" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 46); Bernardino sentia por
Benedita "uma estranha mistura de sentimento paternal e de desejo febril"
(Uma Fazenda em África, p. 214); "olhar febril"
(Vento de Espanha, p. 62); "sensação febril",
"uma entoação febril", "curiosidade febril",
"vontade febril", "um drama febril"
(Os Dias da Febre, págs. 198, 201, 233, 241, 318);
"com sobrancelhas espessas e olhar febril" (Do Outro Lado do Mar, p. 91).
Sinais
de fogo
As
três estão ligadas, entre si, pelas ideias de calor, fogo e incêndio: "O
alarme e o pavor eram gerais e propagavam-se como um incêndio em capim seco"
(Uma Fazenda em África, p. 414); "A revolta espalhou-se pelo reino como
fogo na palha" (Até ao Fim da Terra, p. 86); "espalhou-se como
fogo na palha seca" (Vento de Espanha, p. 50); "o incêndio
ia-se propagando como chama em mato seco" (Haiti, p. 166);
"um namoro que avançou como fogo na palha" (Os Dias da
Febre, p. 191).
O
fogo comunica-se ao interior do ser humano: Peter "trazia dentro de si uma
urgência de Benedita que o queimava como fogo", "sentia-se sobre
brasas" (Uma Fazenda em África, p. 267, 322); as palavras
"queimavam como fogo" (Vento de Espanha, p. 111);
"Estas questões queimavam-na como labaredas e não tinha água para
as apagar", "Carlos sentiu-se a queimar por dentro" (Os
Dias da Febre, p. 125, 274); "um azedume que o [Vasco] queimava por
dentro" (Do Outro Lado do Mar, p. 216).
A
notável fraseologia de JPM consegue transmitir a ideia de calor forte,
insuportável, total. Não deve ser fácil escrever romances debaixo de 250 ou 300
graus (máximo de temperatura atingida pelos fornos domésticos convencionais),
até porque a refrigeração nestes livros não é assim tão boa.
Tudo
isto contribui para dar aos livros de JPM uma atmosfera tórrida, um hálito de
fornalha, que aquece dia e noite (está tão quente que nem o rumor das cigarros
ou dos grilhos se ouve): "a sensação que tinha é que andava num forno";
p. 298: "corria uma quente, como um hálito de um forno" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 291, 298); "o calor era
tanto que pareceu a Quisama ter entrado no forno onde o tio Labaranga
fazia as anilhas de cobre e as lâminas de ferro" (Do Outro Lado do Mar,
p.51); "Estava muito calor, um verdadeiro forno" (Vento de
Espanha, p. 183); "no autêntico forno que estavam a ser aqueles
dias de Junho", "Luanda em Novembro era um autêntico forno"
(Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 59, 257).
Por
cima do vulcão
As
personagens principais de JPM são como aquelas bactérias que suportam
temperaturas muito altas sem perderem por isso a sua estrutura molecular. Antes
pelo contrário: cospem lava, cinzas, gases tóxicos, além de libertarem uma
enorme energia térmica (equivalente a milhares de bombas atómicas): Luísa tinha
uma "emotividade vulcânica", "havia nela um vulcão
de lascívia" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 27, 251);
Isabel era um "vulcão erótico" (A Aluna Americana, p.
47); "Era a lava ardente prestes a desprender-se do formidável vulcão
que assusta os legisladores em Lisboa" (Uma Fazenda em África, p.
358); "José tinha uma imaginação desconcertada e vulcânica" (Até
ao Fim da Terra, p. 20); "duas cabeças vulcânicas" no
Terreiro do Paço (Do Outro Lado do Mar, p. 15); "Era um vulcão,
permanentemente a transbordar de desejo", a "lava da crueldade
e de pulsões violentas", "era um prazer tão intenso, tão vulcânico",
"um acesso de raiva vingativa, surgido de um vulcão que andava
escondido no seu peito" (Vento de Espanha, págs. 95, 241, 290,
302).
Embora,
em rigor, o corpo humano não derreta (como é composto maioritariamente por
água, proteínas e ossos, o nosso corpo não passa pelo processo físico de fusão,
como o gelo ou o plástico, mas sofre, em contrapartida, quando exposto a calor
extremo, degradação química e combustão), o tecido adiposo (gordura) pode
liquefazer-se quando sujeita a fogo intenso (sendo necessário apanhá-lo às
colheres) ou a queimaduras químicas (nas cremações, por exemplo, a gordura
queima antes que os ossos se partam e os tecidos orgânicos se transformem em
cinza).
Para
transmitir essas sensações ao leitor, JPM recorre as metáforas associadas à
passagem do estado sólido para o estado líquido. Mas como essas metáforas já se
cristalizaram, o leitor não as sente como metáforas: "derreter por
dentro" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 41),
"Ai, meu querido! (...) que me derreto toda" (Uma Fazenda
em África, p. 248), "se deixou derreter nos seus braços",
"Um íman que a punha noutra dimensão e que a derretia por dentro"
(Os Dias da Febre, págs. 194, 213), Caetana "oferecia-se, derretia-se
sob o corpo dele e pedia-lhe que a tivesse como entendesse" (Do
Outro Lado do Mar, p. 33).
Como
nas dietas super-calóricas abundantes em gorduras, próprias
dos países ricos, as páginas dos livros de JPM são por vezes gordurentas como
manteiga derretida: "cortando através dos opositores como uma faca
quente em manteiga" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
308), "deixou-se ir, como se fosse manteiga a derreter" (Uma
Fazenda em África, p. 196), "derretiam como manteiga ao lume"
(Vento de Espanha, p. 72).
Rexona
O
calor é tanto que o suor salta em grandes vagas para cima dos leitores. Quem
for suficientemente distraído, permanecendo perto destas páginas, corre o risco
de ficar todo borrifado de suor: o padre Guilherme "queixou-se, lançando
os braços ao alto e espalhando um desagradável cheiro a suor à sua
volta", "irradiando o seu [padre Guilherme] desagradável cheiro a
suor", "o cheiro a suor que se sentira no quarto", o
estalajadeiro "suava em bica" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 74, 147, 227, 235).
As
camisas estão completamente encharcadas ou ensopadas, com a temperatura
rondando os 45 graus, como se as personagens vestissem camisolas de lã, por
baixo de um casaco de penas. Até as palavras exsudam: Benedita "acordou
com a camisa de noite empapada de suor", Benedita "a
transpirar intensamente", "suados da dança", "bagas
de suor a escorrer pela testa", "as mãos suavam-lhe",
"um suor frio empapava-lhe a camisa", "Bernardino acordou
a meio da noite com suores" (Uma Fazenda em África, págs. 9,
29, 118, 248, 253, 291, 406); Melchior Salazar (administrador da plantação de
Deux-Rivières) "chegava frequentemente coberto de suor",
"o desagradável cheiro a suor" que empestava a carruagem,
Beauregard: "começou a suar profusamente" (Haiti, págs.
28, 180, 223); Carlos sentia "o suor empapar-lhe a camisa" (Os
Dias da Febre, p. 287); "acordou sobressaltado em suor" (O
Prazer de Guiar, p. 17); "transpirava por todos os poros da sua
pele" (Vento de Espanha, p. 118).
Banhados
em suor, com manchas nos sovacos, é uma imagem de que JPM não consegue
livrar-se. O suor tornou-se uma sua imagem pessoal, um traço distintivo: Tó
"suava em bica", Jaime "acordou alagado em suor",
Manuel "a suar, de cócoras", Jorge e Manuel arranjaram
"um trabalho que os fazia suar as estopinhas", o filme que
Luís viu no cinema São Jorge "fê-lo transpirar de angústia numa
coxia do balcão" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 45, 103, 105,
133, 167, 175).
JPM
é um homem preocupado com a higiene pessoal. A mistura de suor acumulado com a
oleosidade natural da pele cria um ambiente húmido que favorece a proliferação
de microrganismos. Por isso, e muito acertadamente, JPM descreve as personagens
a secar o suor, não só para eliminar esses "nichos ecológicos" onde
se reproduzem os microrganismos, como também para prevenir irritações, odores,
o agravamento de problemas como a acne ou simplesmente para se refrescarem.
Repare-se
em O Estranho Caso de Sebastião Moncada: "Mateus limpou o suor
da cara a um lenço" (p. 101), "encharcado em suor" (p.
212), Golias "limpou o suor que lhe molhava a testa" (p. 226),
Mateus "respirou fundo, desalentado, e limpou o suor da testa com a
manga da camisa" (p. 271), "o homem gordo limpava a cara suada
com um lenço" (p. 302), um homem rachava lenha e "limpava o suor
do rosto com a manga da camisa" (p. 319).
Ou
em Uma Fazenda em África: "Simão da Luz Soriano tirou o lenço do
bolso e parou no átrio de entrada para limpar a transpiração que lhe
molhava a testa" (p. 23), "Bernardino "limpou o suor da
testa e suspirou", p. 185: "José Leite passou a manga da camisa pelo
rosto, para enxugar o suor" (p. 185), "os mais gordos suavam
sob o ar abafado e limpavam as caras molhadas com lenços
enxovalhados" (p. 364), Costa "puxou um lenço do bolso, limpou a
transpiração da testa e da cara" (p. 365).
Afinal,
limpar e tratar a pele é mais que um gesto, é um caminho
para se reencontrar com o equilíbrio no final do dia: "passou as
mangas da camisa pela testa, para limpar o suor" (Vento de
Espanha, p. 180), endireitou-se para "limpar o suor" (Haiti,
p. 227), "perguntou Arnaldo, limpando o suor da testa com um
lenço" (Os Dias da Febre, p. 193), senhor da Fazenda Bolina
"vinha alagado em suor, limpando a testa com um lenço
encardido" (p. 186).
Sendo
a transpiração produzida pelas glândulas sudoríparas, localizadas na derme, ela
é libertada para a superfície da epiderme através dos poros. Estas pequenas
aberturas na superfície da epiderme, que participam no processo de
termorregulação (arrefecimento do corpo), são outra imagem recorrente em JPM:
gente agressiva "que destilava ódio por todos os poros do corpo",
Arrobas "transpirava força e decisão por todos os poros",
"A ansiedade escapava-lhe por todos os poros" (O Estranho
Caso de Sebastião Moncada, págs. 85, 148, 156); Benedita "foi sentindo
a sua alegria a contrair-se e a escapar-lhe por todos os poros da pele"
(Uma Fazenda em África, p. 33); "brotando jovialidade por todos
os poros" (Os Dias da Febre, p. 237); "emanava bom gosto por
todos os poros" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 225).
Os
ambivalentes
JPM
é um escritor extremamente complexo, marcado por tensões e contradições. Daí
que as suas personagens sejam seres divididos por sentimentos sucessivos e
momentos de síntese – sempre provisórios e instáveis – que os submetem à
ambiguidade e à ambivalência: "Uma estúpida ambivalência, que iria
cortar cerce", "com um sentimento ambivalente de alívio"
(O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 126, 187); "Bento
recebeu aquela informação com um sentimento ambivalente" (Até ao
Fim da Terra, p. 243); "o que lhe provocava sentimentos
ambivalentes" (Os Dias da Febre, p. 122); "Valentina
viu-os partir com sentimentos ambivalentes" (O Prazer de Guiar,
p. 125).
Apesar
de JPM recusar a ideia de que as emoções opostas são irreconciliáveis, as suas
personagens sentem-se perdidas na ambiguidade e na contradição: Benedita
"foi tomada por sentimentos contraditórios e não soube o que
sentir", "sentimentos confusos e contraditórios" (Uma
Fazenda em África, págs. 252, 389); "tentava lidar com sentimentos
contraditórios" (Vento de Espanha, p. 70); "sentimentos
contraditórios que ainda não conseguia conciliar", "Constança
debatia-se com sentimentos contraditórios", "Lisboa causava-lhe
sentimentos contraditórios", "numa teia de sentimentos
contraditórios" (Até ao Fim da Terra, págs. 24, 64, 108, 264).
Queijo
e fiambre
As
personagens que não conseguem explicar os seus sentimentos contraditórios são
mais interessantes e enigmáticas, tornando-se, por isso, em poderosos
mecanismos narrativos. JPM, não raro, agrupa dois ou três adjectivos que
apontam para emoções paradoxais, para com eles qualificar as personagens a que
se referem, mas também por uma questão de ritmo e harmonia da cadência:
"Abriu os braços num misto de impotência e de ignorância",
"num misto de horror e de curiosidade mórbida", Mateus
"sentia uma estranha mistura de inquietação e de curiosidade",
"num misto de angustiada curiosidade e de desejo de ajudar" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 19, 25, 93, 137); "um
misto de curiosidade e de gosto pelo mundo dos bas fonds" (Um
de Nós Deve Lembrar-se, p. 126); "misto de curiosidade e
desdém" (Uma Fazenda em África, p. 119); "um misto de
curiosidade e de receio" (Vento de Espanha, p. 17); "misto
de curiosidade e admiração", "misto de inquietação e de
curiosidade" (Do Outro Lado do Mar, págs. 127, 189).
Convergindo
para um misto de emoções paradoxais, JPM cria um equilíbrio instável às suas
vidas. É uma complicação enorme tentar separá-las: Mateus sentia "um misto
de surpresa e de pesar", "um encadeado de novidades e de
surpresas" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 180, 215);
"Raquel sentiu um misto de surpresa e de frustração" (O
Prazer de Guiar, p. 75); "sentiu um misto de surpresa e de
desilusão"; p. 302: "um misto de surpresa e de
exasperação" (Vento de Espanha, págs. 38, 302); "um misto
de surpresa e rejeição" (Do Outro Lado do Mar, p. 274).
A
palavra "misto" é um substantivo masculino que significa uma mistura,
uma combinação ou um conjunto de coisas, sentimentos ou elementos de naturezas
diferentes que se unem num só corpo. Em JPM, ela assume diferentes funções
sintáticas, tanto pode funcionar como predicativo do sujeito, como complemento
directo ou simplesmente como sujeito.
Independentemente
disso, a ideia central – sentimentos opostos que ocorrem ao mesmo tempo,
fundidos na mesma sensação – mantém-se a mesma. O significado semântico não
muda, ou seja, continua a descrever a simultaneidade e fusão de emoções
opostas, em contraste ou de natureza diferente, no íntimo das personagens:
"um misto de pavor e de deslumbramento", "com um misto
de impotência e de pena", "um misto de raiva e de
apreensão", "com um misto de cansaço e de muda
reprovação", "misto de desilusão e de resignação", "misto
de excitação e doce torpor", "misto de satisfação, de
repulsa e de temor", "sentiu um misto de tristeza e de
resignação", "num misto de sono e de espanto" (Uma
Fazenda em África, págs. 52, 101, 252, 288, 321, 378, 387, 402, 423);
"um misto de condescendência e de sobranceria", "misto
de arrependimento e de vergonha", "misto de indignação e
de espanto", "sentiu um misto de falta de ar e de
cólera", "misto de agradecimento e de irónico prazer",
"num misto de homenagem e de agradecimento" (A Aluna
Americana, págs. 28, 58, 106, 141, 283); "um sentimento mal definido
que era um misto de lástima, de culpa e de vontade de retaliação" (Até
ao Fim da Terra, p. 102); Raquel começou a rir, "num misto de
divertimento e de reprovação", Valentina Lara, luso-ucraniana:
"Sentia um misto de divertimento e de desprezo", João sentia
"um misto de ternura e de gosto de estar próximo dela", João:
"Já na cama teve dificuldade em conciliar o sono devido a um misto de
cansaço físico e de excitação da façanha", Valentina voltou a sorrir
"com um misto de bonomia e de distanciamento filosófico" (O
Prazer de Guiar, págs. 28, 43, 107, 149, 151); "um misto de
amor e de gratidão"; p. 173: "misto de medo e de raiva" (Vento
de Espanha, págs. 55, 173); "com um misto de cerimónia e de
hostilidade" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 178); "misto de
solidariedade patriótica e de admiração", "o sentimento de descoberta
foi misto", "misto de gentileza e de coquetterie",
"sentia um misto de perplexidade e zanga", "um misto
de vergonha, repulsa e raiva" (Os Dias da Febre, págs. 45, 121,
142, 247, 284); "um misto de ingenuidade e de ousadia", "um
misto de satisfação e de sarcasmo" (Haiti, págs. 37, 228);
"misto de temor supersticioso e de expectativa", "um
misto de inveja e de indisfarçável rancor", "misto de
desânimo e de impaciência" (Do Outro Lado do Mar, págs. 144, 184,
337).
Por
vezes, possuem um denominador comum, que funciona como um adereço do espírito.
Desde a revolta – "Sentiu um misto de revolta e de
receio" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 201);
"sentia um misto de raiva (...) e de revolta" (A Aluna
Americana, p. 87); João sentiu "um misto de revolta e de
desespero" (O Prazer de Guiar, p. 16) – à irritação – "num
misto de desespero e de irritação" (Os Dias da Febre, p. 19);
"num misto de incredulidade e de irritação surda" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 238); Valentina "sentia um
misto de irritação e de bem-estar" (O Prazer de Guiar, p. 140)
– passando pelo desespero – "num misto de desespero e de
irritação" (Os Dias da Febre, p. 19); João sentiu "um misto de
revolta e de desespero" (O Prazer de Guiar, p. 16); "num
misto de desespero, raiva e desprezo" (A Aluna Americana, p.
77); Tilly sentiu "um misto de apreensão e desespero" (Haiti,
p. 102) –, pela ansiedade – "misto de ansiedade e de
preocupação" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 243); "um
misto de ansiedade e de prazer" (Uma Fazenda em África, p. 431)
–, pela inquietação – "misto de mágoa e
inquietação" (A Aluna Americana, p. 188); "misto de
perplexidade e de inquietação" (Uma Fazenda em África, p. 339) –,
pelo prazer – "um misto de ansiedade e de prazer" (Uma
Fazenda em África, p. 431); "misto de prazer e de
melancolia", "misto de agradecimento e de irónico prazer"
(A Aluna Americana, págs. 38, 283); "mistura de indizível
prazer e de recorrente dor" (Os Dias da Febre, p. 261); "misto
de prazer e de descoberta" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 100)
– pelo desdém – "misto de exasperação e de
desdém", "um misto de compreensão e desdém" (Uma
Fazenda em África, págs. 312, 426); "um ódio misturado de
desdém" (A Aluna Americana, p. 54); João sentiu "um misto
de ira e de desdém" (O Prazer de Guiar, p. 30) – e pelo alívio
– "com um sentimento ambivalente de alívio" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 187); "um misto de
alívio e de desânimo" (Uma Fazenda em África, p. 208); "com um
misto de premência e de alívio" (O Prazer de Guiar, p. 122);
"um misto de alívio e de triunfo" (Um de Nós Deve
Lembrar-se, p. 68); "com o peito emaranhado num confuso novelo
de ciúme e de renúncia, de alívio e de saudade", "misto de alívio
e de inquietação", "sentiu-se simultaneamente aliviado e
inquieto" (Do Outro Lado do Mar, págs. 41, 153, 197).
JPM
defende que tudo o que existe, existe em estado de mistura: "sentia uma estranha
mistura de inquietação e de curiosidade", "uma insólita
mistura de sentimentos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada,
págs. 93, 257); "de mistura com a luz do sol e o palrar dos
escravos", Bernardino sentia por Benedita "uma estranha mistura de
sentimento paternal e de desejo febril", "mistura de saudade e
de apreensão" (Uma Fazenda em África, págs. 179, 214, 376);
"As coisas estavam tão misturadas, tão entrelaçadas", "uma
confusa mistura de nervosismo, expectativa e impaciência", "uma
mistura de cavalheirismo romântico, de mal pensado voluntarismo e,
sobretudo, de fortes sentimentos de culpa" (Até ao Fim da Terra,
págs. 9, 12, 110); "uma mágoa misturada com raiva" (A Aluna
Americana, p. 213); "foi acometido por uma mistura de
sentimentos desencontrados", "uma tal mistura de provocação,
de vivacidade e agilidade" (Haiti, págs. 149, 218); "uma
mistura de aceitação, carinho, agradecimento e amor" (Os Dias da
Febre, p. 318); "uma mistura de espanto e de
reconhecimento" (Do Outro Lado do Mar, p. 275); "o que sentia
era uma mistura de tristeza, de aborrecimento e de coisas mal
resolvidas" (Um de Nós Deve Lembrar-se, p. 138).
Fiel
à máxima do poeta, crítico literário e dramaturgo inglês John Dryden, segundo a
qual a literatura deve oferecer simultaneamente, ou ao mesmo tempo, um misto e
uma mistura de "instrução e prazer", JPM convida-nos a contemplar a
simultaneidade de perspectivas aparentemente discordantes ou dissonantes, mas
que acabam por se harmonizar num plano de ambiguidade. A experiência de
sentimentos simultâneos é tipicamente poética, posto que enche o vazio e,
através da combinação ou enumeração de antíteses, paradoxos, ou oxímoros,
produz intuições acerca das coisas, dos seres e das suas relações: "simultaneamente
esperançado e apreensivo" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
322); "simultaneamente calma e penetrante", "um sorriso
jovial e, simultaneamente, tímido", "simultaneamente um
tempo de êxtase e de suplício" (Uma Fazenda em África, págs. 101,
145, 152); "uma voz simultaneamente doce e desolada"
(sinestesia combinada com uma antítese), "Foi simultaneamente belo
e difícil tê-los ali", José Duarte era "um homem simultaneamente
acre e doce, corajoso e atento, másculo e feminino", "simultaneamente
tranquilizador e limitativo", "simultaneamente feliz e
preocupado" (A Aluna Americana, págs. 38, 87, 91, 283); "isso
era simultaneamente estranho e muito eloquente"(O Prazer de
Guiar, p. 34); "simultaneamente feliz e muito assustada";
"simultaneamente firme e alegre", "simultaneamente
eufórico e embaraçado", "simultaneamente o castigo e a
redenção", "simultaneamente com esperança e com medo",
"simultaneamente furtivo e feroz", "simultaneamente
doce e triste" (Vento de Espanha, págs. 70, 78, 88, 208, 263, 279,
329); "simultaneamente ilustrada e intuitiva", "um feixe
de emoções simultâneas" (Haiti, págs. 160, 213); "simultaneamente
suave e firme", "a atmosfera luminosa e simultaneamente
quente" (repare-se nesta sinestesia), "simultaneamente alcançável
e inacessível", "simultaneamente controlado e sensível" (Os
Dias da Febre, págs. 116, 128, 197, 292); "sentiu-se simultaneamente
aliviado e inquieto", "simultaneamente assustado e
intrigado", "sentia-se simultaneamente divertida e
magoada" (Do Outro Lado do Mar, págs. 197, 227, 286); "simultaneamente
fonte de liberdade e de medos", "Luís sentiu-se simultaneamente
maravilhado e perplexo", "o que simultaneamente a aliviava e
entristecia" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs. 53, 85, 88).
O
mau e o bom, o pior e o melhor, o antigo e o moderno, central e o marginal, o
trágico e o picaresco, o intelectual e o emocional, o pragmático e o idealista,
o acelerador e o travão, o consentido e o proibido, a calma e o nervosismo, a
segurança e a incerteza, o agradável e o desagradável. São muitas coisas ao
mesmo tempo: "Isabel sentiu pena dela e ao mesmo tempo uma grande
alegria", "doce e compreensivo e ao mesmo tempo firme e
seguro", "ternurento e ao mesmo tempo um general" (A
Aluna Americana, págs. 86, 163); "ao mesmo tempo ingénua e
astuta" (Do Outro Lado do Mar, p. 213); "sentia, ao mesmo
tempo, alívio e pena"; p. 166: "era doce e compreensivo e ao
mesmo tempo firme e seguro" (Um de Nós Deve Lembrar-se, págs.
140, 166).
Tudo
surge ora num torvelinho – "num torvelinho cada vez mais confuso de
ideias", "num torvelinho de expectativas e de rumores" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, págs. 70, 119); "um torvelinho
de prazeres e de emoções", "num torvelinho de mágoa e de
ressentimento" (A Aluna Americana, págs. 44, 105) –, ora num novelo
– "Sátiro saiu do hospital com um novelo de sentimentos a
apertar-lhe a garganta" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p.
237) –, ora numa enxurrada – "uma enxurrada de sentimentos" (O
Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 286) –, ora numa amálgama – "uma
amálgama de tensão, expectativa, desapontamento e, acima de tudo,
tédio" (Até ao Fim da Terra, p. 103) –, ora em turbilhão –
"Carlos sentia-se perto de explodir, percorrido por um turbilhão de
sentimentos" (Os Dias da Febre, p. 273) –, ora entrelaçando-se –
"campos onde o amor e a morte se entrelaçavam de uma forma tão
estreita, tão intensa e tão profunda" (Os Dias da Febre, p. 318) –
ora entrançando-se – "Algures dentro de si essas sensações [medo e
exaltação] entrançavam-se uma na outra como se fossem
indissociáveis" – ora numa confusão – "Aquela aluna voluntária
provocava-lhe uma confusão de sentimentos" (A Aluna Americana,
p. 24), Etelvino "foi percorrido por uma confusão de
sentimentos" (O Estranho Caso de Sebastião Moncada, p. 327).
E
se os gestos?
As descrições de JPM são de quem teve
tempo de observar as múltiplas formas de construirmos o corpo e todos os seus
contornos e movimentos. Quem ler estes romances aprenderá a interpretar os
significados ocultos nos gestos (e microgestos), nas reacções, nas expressões
faciais, nas posturas, etc. Vejamos alguns exemplos: "Mateus Vilaverde
levantou-se. Sabia que aquela conversa tinha chegado ao fim",
"Gonçalo Henriques fez um sorriso condescendente e ergueu-se, o que
assinalava o final da conversa" (O Estranho Caso de Sebastião
Moncada, págs. 77, 247); "Bernardino ergueu-se também, sentindo que a
audiência findara" (Uma Fazenda em África, p. 231); Balakirev
"levantou-se, percebendo que a conversa acabara, e Vorobiov pôs-se
igualmente de pé e acompanhou-o à porta" (Vento de Espanha, p.
306); "disse Pedro, enquanto se erguia por sentir que o encontro
terminara" (Os Dias da Febre, p. 35); "Eugénia ergueu-se
para dar a entender que aquela conversa acabara" (Do Outro Lado
do Mar, p. 338); "E dizendo isso o velho ergueu-se, dando a entender
que aquele encontro estava terminado" (Até ao Fim da Terra,
p. 107).
Este texto é a pré-publicação de um estudo sobre a obra de
João Pedro Marques que será editado em breve.
João Pedro George













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