segunda-feira, 19 de agosto de 2024

São Cristóvão pela Europa (268).

 


Wolfsberg é outro distrito do Estado austríaco da Caríntia.

A sede do distrito tem duas povoações com imagens de São Cristóvão: St. Stefan in Lavanttal e St. Margarethen bei Wolfsberg.

Na primeira, a Igreja Matriz com um enquadramento paisagístico lindíssimo, tem uma bela imagem do nosso Santo do início do Século XVI, data da construção da igreja.

 


 

Na Klagenfurterstrasse, uma pizzeria tem um mural:

 


Em St. Margarethen bei Wolfsberg, na Weissenbachstrasse, uma casa particular possui também um mural:

 


A igreja Matriz possui uma imagem assente numa mísula e um altar dedicado a Santo André onde São Cristóvão está presente conjuntamente com São Sebastião. As estátuas do altar são do princípio do Século XVI.

 

 

                            Fotografias de 29 e 30 de Julho de 2024

                                                                       José Liberato




Um belo livro de divulgação do período sangrento das Invasões Francesas.



  

Há contracapas de livros que prendem imediatamente a atenção do leitor pela sua capacidade de incisão e pelo acicate para a leitura. É o caso daquela que acompanha Mapa Cor de Sangue, as lutas, as revoltas e as tragédias em Portugal do tempo das Invasões Francesas, por Rui Cardoso, Oficina do Livro, 2024:

“Portugal, 1808. Uma revolução social que acompanha os levantamentos patrióticos. O povo insurge-se contra a velha ordem de fidalgos e eclesiásticos e, ao mesmo tempo, contra o jogo do invasor francês.

Em Melgaço e Beja, populares lincham os magistrados, em Foz Côa, casas de famílias abastadas são saqueadas. Por outro lado, quem ousa rebelar-se contra os franceses é punido. Os habitantes de Vila Viçosa, Rio Maior, Alpedrinha e Régua são brutalmente castigados pelos soldados de Napoleão, mas nada se compara aos massacres em Leiria e Beja.

Os ingleses desembarcam e os franceses negoceiam a saída. Mas regressam menos de um ano depois. A guerrilha é espontânea, heroica e impiedosa. O general Bernardim Freire de Andrade é linchado pelo povo. E a entrada das tropas napoleónicas no Porto fica marcada pelas lutas casa a casa e pelo desastre da Ponte das Barcas, no qual milhares de pessoas perdem a vida. Fuzila-se e incendeia-se como método de contrainsurreição. Em São João da Madeira, a retaliação pela morte de um oficial francês leva à execução de 1 em cada 5 homens e rapazes da Arrifana. A resistência em Amarante exaspera franceses, que incendeiam a cidade.

Em agosto de 1810, o rio Côa tinge-se de sangue do prelúdio do cerco de Almeida, onde morrem meio milhar de defensores. Serão depois as vertentes do Buçaco a fincar juncadas de corpos dos combatentes.

Portugal entra no século XIX de forma violenta e traumática. Às invasões seguir-se-á a luta entre liberais e absolutistas, e mesmo depois da vitória dos primeiros haverá quase vinte anos de instabilidade, golpes militares e revoluções…”

É uma obra divulgativa de alto nível, faz-nos compreender como todo este período das invasões napoleónicas é o precedente sangrento do primeiro meio século do século XIX habitado pela violência político-social, as sublevações populares, as pilhagens à solta, toda esta turbulência só se acalmará com a Regeneração. Portugal irá sendo arrastado para o conflito que estalou entre a França e a Grã-Bretanha. A Corte partirá para o Brasil, fazendo-se acompanhar da Biblioteca Real da Ajuda, que não mais regressou. Os invasores saquearam e destruíram, a Bíblia dos Jerónimos será levada para França, tal com as coleções do Museu de História Natural de Lisboa; num ato de puro vandalismo, o famoso cadeiral que Olivier de Gand construiu no Capítulo da Igreja do Convento de Cristo será reduzido a lenha. O regente e futuro rei D. João VI viverá em permanente dilema, tentando negociar com ambas as partes; a Espanha, glutona, tenta juntar-se a Napoleão e ficar com uma parte de Portugal. Rui Cardoso dá conta dos efetivos portugueses, manifestamente impreparados, mas onde não faltaram comandantes com visão de futuro. A Grã-Bretanha domina os mares, a França possui um domínio terrestre. Para os britânicos, o teatro de operações ideal é Portugal. “O lado britânico vai praticar em Portugal (e acessoriamente em Espanha) um equivalente terrestre da guerra naval de corso. Ou seja, nunca procurará defender território fixo (exceção feita ao polígono Lisboa-Julião da Barra considerado vital para a retirada britânica em caso de malogro total), procedendo quase como uma força de guerrilha moderna (…) Já a doutrina napoleónica privilegiava a rapidez de movimentos, deslocando-se o exército com pouca bagagem e dispensando os lentos e vulneráveis comboios de abastecimento.” Por outras palavras, ambos os contendores esperam apossar-se dos recursos portugueses.

De forma expedita, o autor vai elencando  os acontecimentos avassaladores desde a Guerra das Laranjas (1801), em que Portugal estava teoricamente obrigado a fechar os portos aos britânicos, é um jogo dúplice até 1807, Junot atravessa o território português até Lisboa em condições penosas, vê de uma colina de Lisboa a partida da família real sob custódia da armada britânica; o jugo francês impõe-se, não faltará repressão, Napoleão impõe o pagamento de contribuição de guerra a Portugal, e no fim do ano Beresford ocupa a ilha da Madeira. Começa a resistência popular, não faltarão levantamentos, o execrado general Loison, conhecido por o Maneta, reprime com crueldade, será o caso de Évora, entre fuzilamentos e sacres há pelo menos 1500 mortos. E chegam os ingleses, o primeiro choque acontecerá a 17 de agosto de 1808, na Roliça, no Bombarral, segue-se o Vimeiro, Junot pede para negociar, sairá do país, de armas e bagagens e saque.

Meses depois, dá-se a segunda invasão, no entretanto espalha-se os ideais liberais um pouco por todo o país. É nesta invasão que se dá o desastre da Ponte das Barcas, o general Soult cedo se apercebe que não tem espaço de manobra nem meios suficientes, anda pelo norte do país à deriva, entra a ferro e fogo no Porto. O general Wellesley, que ainda não é duque de Wellington, vem-lhe no encalço, abandona Portugal pela Galiza, Soult, o duque da Dalmácia, abandona Portugal pela Galiza, um dos heróis de Austerlitz foge do país às arrecuas. A terceira e última invasão ocorrerá no verão de 1810. “A política de terra queimada decretada pelo general Wellesley, agora duque de Wellington, e aplicada quando o seu exército retirar para as Linhas de Torres Vedras, não se limitará a dificultar o avanço das tropas francesas – significará a miséria, a fome, e a devastação dos campos nas Beiras, no Ribatejo e no Oeste.”

Quem comanda a nova invasão é André Masséna, um veterano, tem palmarés, veio vitorioso da batalha de Essling e de Wagram, é valoroso, de uma bravura incontestável. A sua operação baseava-se na entrada em Portugal pela raia do Côa, seguida de um avanço sobre Lisboa utilizando os vales do Mondego e do Tejo. O invasor desconhecia totalmente as Linhas de Torres. Masséna perde tempo a cercar o resistente espanhol, cerca Almeida, segue para Pinhel, trava-se uma batalha sangrenta com o exército anglo-luso, inconclusiva. Por puro acidente, Almeida irá totalmente pelos ares, devido à explosão do arsenal, tenta acelerar a marcha ao longo do Mondego. O confronto decisivo irá ter lugar no Buçaco, os dois exércitos perseguem-se na direção de Lisboa, Masséna não sabe que o esperam as Linhas de Torres Vedras, não chega a haver nenhum ataque em forma às Linhas, Masséna vê-se obrigado a retirar em novembro. “As Linhas de Torres Vedras e a política de terra queimada tinham vencido os melhores soldados da época, mas à custa de um país devastado e dezenas de milhares de pessoas mortas de fome e de doença.” Napoleão perde condições para voltar a invadir Portugal, em 1812, o seu Grande Exército irá perder-se nas estepes geladas da Rússia, é o princípio do fim.

Rui Cardoso esboça um retrato sangrento das invasões napoleónicas, e deixa bem claro que isso dos brandos costumes é uma quase balela e que foram aqueles tempos que ajudaram a foguear os ideais liberais que se começarão a impor a partir de 1820. Excelente divulgação, não hesito em recomendar a sua leitura. 


                                                                        Mário Beja Santos

 


 

quinta-feira, 15 de agosto de 2024

Carta de Bruxelas - 22.




 

                                                                                            Qualquer coisa de egípcio

 

Em 1977, o filósofo Hans-Georg Gadamer, publicou a sua autobiografia intitulada Os anos de aprendizagem filosófica [Philosophische Lehrjahre, Frankfurt am Main, Vittorio Klostermann]. Como bom hermeneuta, passa em revista a sua vida e carreira com base na trama do diálogo. Entre os nomes próprios dos seus interlocutores de referência, o último é o de Karl Löwith, a quem o ligou uma amizade de mais de 50 anos. Löwith foi inclusive padrinho da sua filha Jutta. Apesar de isso, para caracterizar Löwith, Gadamer invoca nada mais nada menos do que a distância. Linhas depois, percebe-se o que queria dizer com essa palavra. Nele farejava-se sempre, conta Gadamer, qualquer coisa sem tempo, qualquer coisa de egípcio.

À primeira vista, a política invoca o oposto. Em vez da ausência de tempo, a correria imposta pelos acontecimentos, pelos humores caprichosos das vontades, pela irrupção da fortuna nos assuntos humanos, cuja roda esmaga previsões, frustra expectativas e desactualiza os pressupostos mais entranhados. Daí ser natural que a análise política tenha os seus especialistas da canelada, peritos na rasteira, e mais recentemente, no comentário televisivo, decifradores do significado oculto da coçadela na orelha ou das revelações esotéricas dos movimentos das sobrancelhas. E que tenha também os seus cientistas políticos, tantas vezes ansiosos por passarem para aquele nível primário. Crer que o torvelinho da vida não se compadece com a fixidez do conceito não esclarece, ofusca.

É, por isso, um consolo e uma alegria a publicação de um livro que pensa e pensa os conceitos fundamentais da filosofia política moderna. «Soberania popular – estudos sobre a ideia de um poder absoluto e intemporal» (Edições Húmus, 2024), de Diogo Pires Aurélio, recomenda-se por isso. Para lá do calor dos antagonismos, da febre da vitória ou da esperteza do curto prazo, a análise do conceito de soberania e das suas aporias mostra bem o que ainda hoje (espíritos subtis talvez dissessem «sobretudo hoje») faz o nosso mundo político. Com a distância necessária para uma visão límpida, perpassa nas suas páginas o abençoado vento frio do conceito – há nele qualquer coisa de egípcio. 


                                                                    João Tiago Proença

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quarta-feira, 14 de agosto de 2024

São Cristóvão pela Europa (267).

 

 

No distrito de Völkermarkt, ainda mais duas aldeias têm imagens do nosso Santo.

Um caso especial é o de Motschula que se situa na parte mais oriental dos Alpes.

A capela de São Cristóvão é privada e completou recentemente o seu 40º aniversário.

Foi construída em apenas quatro meses pela família Skubel como acção de graças pelo bom desfecho de um acidente familiar.

São várias as imagens de São Cristóvão:

 


 

Em Lind, a Igreja de São Matias tem um mural representando o nosso Santo:

 


 

                                    Fotografias de 29 de Julho de 2024

 

                                                        José Liberato

terça-feira, 13 de agosto de 2024

Uma obra de génio, A Torre de Barbela, continuamos a viver em tal país maravilhoso.

 


Daquela década de 1960 guardo três títulos literários de leitura obrigatória: Barranco de Cegos, de Alves Redol, O Delfim, de José Cardoso Pires, e A Torre de Barbela, de Ruben A. É desta obra-prima absoluta que vos quero falar.

Não é uma obra de literatura fantástica, nem vernacular e muito menos humorística. São recados sobre a história de Portugal, a Torre da Barbela é um ponto de partida e uma advertência para o ponto de chegada, a Torre estava ligada aos primórdios da nacionalidade, era agora uma mera atração turística, o solar conhecera a decadência e depois o ocaso. E daí o arranque da obra, o guia local clama pletórico a quem o acompanha numa viagem de muitos degraus até lá acima:

“Aqui estamos em frente da Torre, meus senhores, peço que se descubram e ao mesmo tempo um minuto de silêncio pela alminha dos Senhores que lá estão.

Esta Torre já não se sabe de quantos séculos podemos datá-la, mas certo é que Dom Raymundo Barbela – crê-se que tenha sido o primeiro da família da Torre – saiu destas bandas para ajudar com os seus homens nas cargas de Dom Afonso Henriques, seu primeiro do colateral. As pedras são todas da prumitiba, mesmo lá perto da torreta podemos ainda ler as inscrições latinas que rezam a sepultura de Dom Martim, morto de adigestão quando de uma lampreiada para festejar as vistorias do primo. Tem a Torre trinta e dois metros de altura, e é a máor da península e os degraus contam-se em oitenta e nove, com patamares de descanso. A vista lá em cima é grandiosa.”

Nunca se tinha ido na literatura portuguesa tão longe a falar de um Portugal feérico, mitológico, façanhudo. Temos, pois, aqui um guia que apresenta aos visitantes as memórias de um Portugal inventado, e momentos há em que se pode ter a ilusão de se estar perante um romance do fantástico, com incursões pelo sobrenatural; é através de uma leitura cuidada que se vai descodificando que este romance escrito em plena década de 1960 é uma xácara habilidosa para caricaturar um ideário de nacionalismo bacoco. Ruben A. Irá tratar com pinças esta visita ao alto da Torre, “outrora de menagem, estendia-se um país inteiro, seiva virgem de uma nação. Toda a História se abria com a paisagem”. De forma subtil, pela obra perpassa o Portugal do Quinto Império, das bravuras mil, das extraordinárias e desvairadas viagens e presenças em todos os continentes de gente desta nação mirífica e imortal. Ruben A. arriscou muito, a paródia de que os Barbelas não morrem e estão cientes do seu peso de uma nação de séculos é um tanto uma escrita no fio da lâmina, o escritor vai-nos apresentar que todos os que vivem na Torre levam às centenas de anos uma boa convivência, adormece o dia e eles andam por ali a revoltear, tudo na margem esquerda do rio Lima, a Ribeira Lima, folgam após o horário da visita conduzida por aquele guia de discurso estrondoso: os antigos Barbelas, vindos de oito séculos diferentes entram em cena, viajam por aqui e além, é uma azáfama de ardores e amores, coscuvilhices e êxtases, um arrebol naquele espaço minhoto, há quem vai à Moutosa, à vila de Serzedelo, mesmo a Viana do Castelo, à Serra de Arga, e é muito estimado o Jardim dos Buxos e a Fontinha. Sim, toda esta genealogia dos Barbelas tem muitíssimo para contar:

“Quando a linha do horizonte baixava a intensidade e os fumos azulados batiam a favor do vento e do andar das coisas, naquela dimensão abrupta que testemunhava o acender das constelações, os Barbelas realizavam-se vindos do sonho e da fantasia para os reais domínios da Torre. De noite, ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades, os dramas pessoais e a contagem de fábulas capazes de entrarem pelas ruelas aveludadas dos vizinhos de Serzedelo e de Vitorino das Donas. Aquele ressuscitar transfigurava a Torre. A procissão saía pé ante pé dos túmulos de pedra, dos sarcófagos egípcios – trazidos por Dom Payo da Barbela quando das suas incursões por terras do Prestes João – e também da vala comum surgiam ainda os apátridas, filhos ilegítimos, frades, freiras, e os que remotamente pertenciam à venerável espérmia da Torre.” Entraram em cena o Menino Sancho, Dona Urraca, o Cavaleiro e o seu garrano Vilancete, Dona Mafalda, Dona Urraca, Madeleine de Barbelat (esta terá papel crucial num desfecho trágico que nem vos conto!), percorre-se toda a História de Portugal e a sua épica, e chega o momento de apresentar a grandeza do lugar:

“O Solar da Barbela data precisamente do século XVI, quando os Barbelas em protesto contra os anos de cativeiro espanhol resolveram abandonar a capital do Reino e regressar às terras. Nessa época, os Barbelas voltaram à vida rural e nada mais encontraram da propriedade do que a Torre e o terreiro ao lado, com algumas habitações toscas. O oiro das especiarias e o comando das esquadras da Índia tinham levado os braços disponíveis nas redondezas. Quando Dom Sebastião desapareceu na sua fatal correria de Alcácer, além de arrastar muitos Barbelas consigo, deu também um ar desolador à pátria. Os fumos da Índia e as espumas de África trouxeram consigo a desolação, sem que para isso fossem bastantes as façanhas dos fidalgos de Entre Douro e Minho.”

Os Barbelas até tiveram santos, como São Cyro, é o comandante espiritual da Torre. Há paixões escondidas, dignas de Tristão e Isolda, como o Cavaleiro e Madeleine, há visitas dos Barbelas à Beringela, que guarda um fumeiro muito especial, logo um petisco capitoso, as enguias. E ao longo destas centenas de páginas vamos convivendo com os Barbelas, há gente que até lembra Eça de Queiroz, como o ridículo Dr. Mirinho. Que ninguém se iluda, a Torre de Ruben A. é o miraculoso país do passado, onde se celebram centenários, onde há bruxas apaixonadas, como aquela que vive em São Semedo, Madeleine é ligação à França, convém não esquecer os caixotes de Paris e a literatura que nos afogueou, antes e depois da monarquia constitucional.

Espantosa arquitetura da escrita, onde não falta o bobo italiano, passeios de burro, igrejas como não há no outro Portugal. Veja-se só: “A única igreja no Norte de Portugal que se pode comparar vagamente com a da Moutosa é a da Montaria, no caminho de Orbacém para São João de Arga. Mas é melhor não comparar. O curioso distinguirá imediatamente uma qualidade única em São Lourenço. Possui, como só a Torre de Belém, uma proporção de medidas que equilibra o pensamento ao primeiro relance. Olhando-se em frente fica-se à procura do desnível e do imperfeito. O talhe de pedra granítica, com os santos padroeiros das principais freguesias da Ribeira Lima empunhando uma escada para subirem mais facilmente ao Céu, transmite uma doçura de penetração que envolve até o menos crente.”

Convido o leitor a acompanhar a trama amorosa do Cavaleiro por Madeleine, tudo isto num lugar soberbo, de nome a Fontinha, que “fora desde tempos idos o ponto de partida dos Barbelas para as viagens de aquém e além-mar. Daquele estreito molhe de granito e terra batida, sombreado pelas ramagens quentes de salgueiros e choupos, as bateiras saíam em direção a Viana, donde os barcos de maior calado levavam a família aos mais diversos destinos do mundo.”

Reparem que não se fala aqui só do Portugal maravilhoso, há histórias de assombrar, é o caso do Grande Nevoeiro, uma das diabruras mais imprevistas do destino. “De Barcelos ao Lindoso, dos contrafortes do Gerês até às terras raianas do rio Minho, e descendo pela linha da costa, montes e vales ficaram cobertos de um misto de nevoeiro e neve que transformou o sentido do voo das aves e deu aos homens uma atitude meio religiosa meio borguista que perdurou pelos tempos.”

Porventura por sermos descentes dos Barbelas, seja qual for a colateral, é imperativo dever nosso conhecer de fio a pavio toda esta saga genialmente redigida por Ruben A. Está aqui o nosso retrato, caso não tenhamos perdido o gosto pela autocrítica: “Falavam, falavam, conversando fiado por tempos sem conta, discutiam, assentavam decisões e conversas, e ao fim encaminhavam-se ao natural de nada se ter passado. Enfim, o que havia era, bem ou mal, a prata da casa. Aquela prata que se apresentava nas grandes ocasiões de cerimónia e onde se comia a malga do caldo-verde e o naco de broa acompanhado de uma lasca de bacalhau cru ou de uma rodela de enchido de porco. Um destino embebido de fatalismo, uma espécie de não te rales. O resto não os preocupava em profundidade.”

Enquanto lia esta obra-prima da literatura portuguesa, passei os olhos por um injustamente esquecido Dicionário Crítico de Algumas Ideias e Palavras Correntes, por António José Saraiva, era uma edição de 1960, onde ele abordava em curto ensaio as distinções entre país real, país legal e país fabuloso. Percebe-se porque é que a Censura foi logo buscar o livro às livrarias:

“País fabuloso é o melhor dos mundos possíveis. Tudo nele decorre segundo o programa previsto. As pessoas são felizes, trabalham e produzem. Estão sempre agradecidas aos governantes que são sempre the right man on the right place. Nada acontece neles – a não ser os terramotos, os vulcões, os naufrágios ao largo e os excessos de temperatura, fenómenos indiferentes à vontade humana – que mereça uma reportagem especial, porque, como disse não sei já quem, os povos felizes não têm história. O país fabuloso é livre de seguir o seu encantador caminho sobre papel. Mas o país efetivo, que nada tem com isso, vai caminhando. Num caminhar obscuro, tateante, ao lusco-fusco de uma semiconsciência, porque não tem meios de dar notícia de si próprio. E é por isso que o país fabuloso, aparentemente risonho e inocente, se torna uma perigosa realidade. Ele nada cria a não ser fábulas.” 


                                                    Mário Beja Santos

 


segunda-feira, 12 de agosto de 2024

São Cristóvão pela Europa (266).

 

 

No final de Julho e no princípio de Agosto estive uns dias na Áustria, seguramente um dos países da Europa onde se encontram mais imagens de São Cristóvão.

Passei pelos Estados da Caríntia (Kärnten), Estíria (Steiermark), Burgenland, Baixa Áustria (Niederösterreich), e Viena.

Naturalmente que me documentei sobre o que vi.

Comecei pela Caríntia e pelo Distrito de Völkermarkt e o seu município de Bleiburg na fronteira com a Eslovénia. Nesta região ocorreram em 1945 os chamados massacres de Bleiburg. Para aqui fugiram, vindos da Jugoslávia, prisioneiros e colaboracionistas dos países do Eixo. As tropas ocupantes britânicas repeliram-nos de volta para a Jugoslávia onde foram massacrados. Estima-se em dezenas de milhares de mortos as consequências desta acção.

Em St. Margarethen am Kommel, uma pequena aldeia na vertente Sul da montanha Kömmel, uma igreja possui um mural representando o nosso Santo.

 




Em Aich, a Igreja de São Sebastião, românica, na sua parte fundamental datando do Século XII, ostenta um fresco do Século XVI. 




Em Rinkenberg, a Igreja de São Florian (Floriano em português) contem igualmente um belo fresco muito restaurado, mas bem antigo. A inscrição em esloveno tem traduções muito diversas.

Aparentemente deriva de uma Fraternidade de São Cristóvão, criada por Sigismund Dietrichstein (1484-1533), casado com uma filha ilegítima do Imperador Maximiliano I.


 

                                                Fotografias de 29 de Julho de 2024

 

                                                                        José Liberato




sexta-feira, 9 de agosto de 2024

Regresso e despedida.

 

                                                                                                            Agosto, de Jorge Silva Melo

 

Não é preciso o Outono para se concluir que o Verão é a única estação. Basta apenas o barulho das crianças à beira mar em brincadeiras sem amanhã. Um dia convidaram Walt Whitman, sentado ao ar livre numa praça, a juntar-se à conversa de um grupo de jovens no interior. Retorquiu: «No, dearie, I love to hear your laughter, but I do not care for your talk.» Como a morte, também a felicidade nada tem a dizer. Na terra da alegria, da água e do Sol, eternamente ditosas por um tempo breve, são moribundos que não saúdam ninguém. 


                                                                            João Tiago Proença


quarta-feira, 7 de agosto de 2024

Carta de Bruxelas.



 

             Para assinalar 10 meses passados sobre o dia 7 de Outubro de 2023



Em 22 de Março de 1938, Franklin Roosevelt lança da sua casa em Warm Springs, Geórgia, o projecto de uma Conferência Internacional para os Refugiados.  Ao mesmo tempo, instrui Cordell Hull, ministro dos Negócios Estrangeiros, para comunicar aos embaixadores americanos que as quotas de imigração para os EUA não serão aumentadas. Estava dado o mote. Tratava-se apenas de uma cortina de fumo para salvar as aparências. Num momento em que se pretendia salvar 650 000 judeus do Reich, da Áustria e dos Sudetas, os ingleses fazem saber ao embaixador americano, Joseph Kennedy, que as palavras «judeu» e «Palestina» não deverão nunca ser usadas nas sessões da conferência. A Suíça recusa que a conferência se realize no seu território. A França propõe então Évian-les-Bains, do outro lado do lago Léman. As actas mostram toda a má fé das nações e o abandono a que são votados os judeus. Em Berlim, ninguém se engana sobre o resultado, a imprensa titula: «Judeus à venda – mesmo a preços baixos ninguém os quer». Ninguém os quis. Particularmente instrutiva é uma observação do representante da Austrália : «O meu país não conhece nenhuma situação de racismo, não queremos que isso comece.»  Como ontem, hoje: sem judeus o mundo não conheceria o mal. 


                                                            João Tiago Proença





domingo, 4 de agosto de 2024

Israel e Palestina, as hecatombes em Gaza e Israel, não confundir a árvore com a floresta.

 



“A hecatombe de Gaza insere-se na longa série de hecatombes que devastaram as regiões do Norte de África e do Médio Oriente, suscitando uma compaixão universal de geometria variável – desde o massacre dos arménios da Turquia, em 1915, os curdos gazeados em Halabja, no Iraque, por Saddam Hussein, em 1988, as matanças interconfessionais durante a guerra civil libanesa, entre 1975 e 1990, as carnificinas da década negra da jihad na Argélia durante a década de 1990 e os banhos de sangue no Iémen a partir do verão de 2014, às devastações étnicas no Sudão. A qualificação de genocídio, que na utilização que lhe é dada no Ocidente parecia reservada ao extermínio dos judeus pelos nazis durante a Segunda Guerra Mundial, constitui na atualidade uma questão política considerável.

Aplicada a hecatombe de Gaza, tem como objetivo categorizar a matança causada por Israel como sendo cometida por um intruso ocidental no Médio Oriente e, assim, é especificamente culpável porque se inscreve na linhagem dos crimes da colonização e do imperialismo.”

Holocaustos, por Gilles Kepel, página 116.

 

Gil Kepel é porventura o politólogo arabista francófono mais conceituado, atenda-se ao seu acervo bibliográfico, traduzido em cerca de vinte línguas. Holocaustos, Israel, Gaza e a guerra contra o Ocidente, Publicações Dom Quixote, 2024, tem como ponto de partida os atos sanguinários de 7 de outubro de 2023, em território israelita, praticados pelos Hamas, e a resposta israelita. O seu ensaio não se escuda dos eventos do ataque do Hamas e da resposta israelita, a sua leitura é da longa duração, a linha do conflito, tem blocos de um lado e do outro, houve outrora a Guerra Fria e no espaço em que a geopolítica e geoestratégia mundiais se alteraram, configurando-se um Norte identificado com o mundo ocidental, e um Sul global, onde se amalgamam a China e a Rússia e outros países que fazem parte dos BRICS, caso do Brasil, Índia, Arábia Saudita e Etiópia, qualquer coisa como 46% da população mundial. O ensaio tem “o objetivo de colocar em perspetiva de longa duração as efemérides de Israel e de Gaza, e os locais da memória do conflito na geografia regional e na geografia universal. Em quatro capítulos, analisam-se sucessivamente as lógicas do pogrom do Hamas, as contradições de Israel ao invadir e bombardear Gaza, as tensões extremadas do contexto regional em torno do ‘eixo de resistência’ conduzido a partir de Teerão, e a nova guerra mundial contra o Ocidente combatida na frente dos valores morais e na demografia política por alguns, que se exprimem em nome de um Sul global que é mais heterogéneo e conflituoso do que desejariam.”

Os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 atingiram proporções mais do que dramáticas, foi o mais importante massacre de israelitas desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Na visão dos fundamentalistas islâmicos, foi um ataque bendito, prende-se com a usurpação sacrilíaca da Palestina por Israel, é uma longa história que Kepel descreve de forma exímia e rigorosa até à atualidade. Por detrás do Hamas está o líder Yahya Sinwar, o palestino que enganou Benjamin Netanyahu, julgava este líder fanático que graças ao apoio do Catar a Faixa de Gaza se manteria calma, apesar daquele caldeirão de mais de 2 milhões de habitantes num espaço tão exíguo. O Hamas não é uma entidade solúvel, recebe diferentes apoios desde o Irão ao Iémen. Kepel explica-nos quem é Sinwar, como é líder incontestado, e observa que para reconstituir o processo complexo que conduziu ao 7 de outubro, é preciso colocar em perspetiva a história do movimento islamita-palestiniano, apanhado, em primeiro lugar, entre o nacionalismo árabe e o Estado sionista, mais tarde entre o sunismo conservador da península arábica e o xiismo revolucionário iraniano, e, por fim, com a aproximação decisiva a este último realizada pelo seu ramo estabelecido em Gaza, que ele disseca com clareza, documentado como está; passa igualmente em revista o que se alterou com as Primaveras árabes.

As gerações de políticos que governam Israel pouco ou nada têm a ver com as que fundaram o Estado hebraico; o fundamentalismo sionista campeia, não quer reconhecer a Palestina, quer ocupar todos os espaços com colonatos, os supremacistas judeus reivindicam que Israel se torne num Estado teocrático, regido em exclusivo pela lei bíblica e pela anexação da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. Netanyahu resiste a todas as pressões para abandonar o poder, sabe que o processo que lhe é movido o levará à cadeia; tal como aconteceu com o antigo Presidente da República e o antigo primeiro-ministro. O Hamas também aproveitou habilidosamente as dissensões internas e mostrou que a capacidade de Israel em proteger os judeus de forma estrutural era um mito. Kepel expõe um argumento pouco versado à análise do conflito israelo-palestiniano: a demografia dos partidos religiosos, explica claramente quem são estes fundamentalistas sionistas que enformam o racismo em Israel: “A geração de sionistas religiosos que atualmente está junto do topo do poder nasceu na década de 1980 e vive com a obsessão de uma radicalização mais forte do que a dos seus antepassados. Bezalel Smotrich, um advogado de 43 anos, filho de um rabino e colono da Cisjordânia, onde mora numa casa construída ilegalmente, pensa, nem mais nem menos, que os palestinianos devem ir-se embora, serem mortos, ou servir os judeus se permanecerem na Terra Prometida. O seu colega Itamar Ben-Gvir, de 46 anos, morador na colónia ultrarradical de Kiryat Arba, perto de Hebron, militou desde os 14 anos no partido racista e violento Kach, do rabino Kahane, o que lhe valeu ser rejeitado pelo Exército. Deixou-se fotografar a tentar forçar a entrada na mesquita de Al-Aqsa enquanto membro do Knesset, de pistola em punho.” Para compor o puzzle, Kepel dá-nos a visão do judaísmo norte-americano e articula esta visão com a hostilidade à posição israelita depois do 7 de outubro como se viveu no mundo universitário norte-americano que lançou uma crise inédita na mais destacada das universidades norte-americanas, Harvard. “O conflito entre Israel e o Hamas, ao dividir a universidade mais prestigiosa do mundo, tinha por fim revelado as contradições existentes entre os Estados Unidos, o Estado judaico e o Médio Oriente.”

Neste mundo em que já não há Guerra Fria, há blocos constituídos. Numa tentativa de marginalizar, Trump, os chamados Acordos de Abraão procurou criar uma vasta zona comercial sob a égide dos Estados Unidos, usando como testa de ponte os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, Marrocos e o Sudão, não funcionou, os parceiros como a Arábia Saudita e a Turquia exigem sempre que essa maré de progresso exige logo à partida a salvaguarda dos direitos do povo palestiniano.

Sendo hoje Israel o Estado mais odiado no mundo, ninguém no Ocidente, tirando os EUA, lhes dão beneplácito político (a despeito de se manterem os bons negócios, com armas e tudo), o Sul global, que pretende constituir-se como uma ampla frente para disputar a supremacia aos EUA é, paradoxalmente constituído por regimes iliberais, onde pontifica a ditadura pura.

Um ensaio magistral para um conflito que continua sem fim à vista.

 

                                                                        Mário Beja Santos

 

segunda-feira, 29 de julho de 2024

Uma noveleta sublime, publicada debaixo do fogo da crítica.

 


 

Digamos que se trata de uma obra póstuma do Prémio Nobel da Literatura em 1982, que os filhos de Gabriel García Márquez justificam como o seu derradeiro esforço para continuar a criar já no turbilhão da perda de memória. “O processo foi uma corrida entre o perfecionismo do artista e o declínio das suas faculdades mentais.” Gabriel García Márquez terá dito que o livro não prestava, devia ser destruído. “Não o destruímos, deixando-o antes de parte, na esperança de que o tempo decidisse o que fazer com ele. Ao lê-lo mais uma vez, passados quase dez anos sobre a sua morte, descobrimos que o texto possuía muitíssimos e muitos apreciáveis méritos. Tem algumas lacunas e pequenas contradições, mas nada que nos impeça de usufruir o que a obra de Gabo tem de mais excelente: a sua capacidade de invenção, a poesia da língua, a narrativa cativante, a sua compreensão do ser humano e o carinho pelas suas vivências e as suas desventuras sobretudo no amor.” E assim a obra foi entregue a um mestre da escrita, Cristóbal Pera, que lhe deu a demão final. A crítica dividiu-se entre o aplauso e a indignação, dizendo os contestatários que era uma traição à vontade de Gabo.

Traição ou não, temos uma noveleta cujo poder metafórico conhece alguns antecedentes de valor extraordinário. Penso concretamente em A Incrível e Triste História da Cândida Eréndira e da Sua Avó Desalmada e Memórias das Minhas Putas Tristes, tramas que decorrem entre o onírico, a bestialidade/crueldade e a redenção pelo amor. No caso vertente de Vemo-nos em Agosto, Publicações D. Quixote, 2024, é mais o destino de uma mulher que conta; ano após ano, num dia preciso, 16 de agosto, apanha um ferry que a transporta até à ilha onde a mãe está enterrada, é uma emotiva visita que mete até confissão oral dos acontecimentos do ano transato. A mulher, Ana Magdalena Bach torna-se uma pessoa diferente durante uma noite por ano, finda a visita ao túmulo da mãe contempla os homens do bar do hotel, como se estivesse a proceder a uma seleção, haverá sempre um amante. E seremos integrados nessa galeria de noites caribenhas repletas de salsa e boleros, encontros extravagantes ou não tanto, até que num determinado mês de agosto haverá uma reviravolta nos acontecimentos, jamais saberemos o que virá a ser o seu velho normal ou o seu novo normal.

As descrições são as de uma inevitável beleza a que Gabo nos habituou. Falando da chegada de Ana Magdalena e na cerimónia da mudança entre a mulher casada e feliz e essa vontade irresistível de querer ser diferente naquela noite a caracterização da personagem é ímpar: “Escovou o cabelo índio, que lhe dava pelos ombros, e amarrou o rabo-de-cavalo com o lenço de pássaros. Para terminar, suavizou os lábios com batom de vaselina simples, humedeceu os indicadores na língua para alisar as sobrancelhas desencontradas, pôs um toque de Maderas de Oriente atrás de cada orelha e enfrentou, por fim, o espelho com o seu rosto de mãe outonal. A pele sem o rasto de cosméticos tinha a cor e a textura do melaço, e os olhos de topázio eram bonitos, com as suas escuras pálpebras portuguesas. Triturou-se a fundo, julgou-se sem piedade e achou-se quase tão bem como se sentia.”

É um desfile de inspiração esta sucessão de encontros: um homem distinto, vestia de linho branco, com o cabelo metálico, logo o primeiro, depois de muito folgarem, ela parte e descobre com horror que ele lhe deixara uma nota de vinte dólares, Ana Magdalena sente-se desfeiteada; somos introduzidos no meio familiar, marido músico, filho músico, e de música clássica, e há a filha, Micaela, uma desobediente encantadora, irá professar numa ordem religiosa. Sempre que ela volta da ilha, o marido nota diferenças, é assunto de atenção passageira. Regresso à ilha, ela procura o biltre que ele vendera com a nota de vinte dólares, desta feita surge um homem muito bonito, de pele lívida, olhos ardentes, indumentado com um smoking tropical de seda crua, muito mais novo do que ela, trocam galantarias (- Sabe que idade tenho? – Não posso imaginar que a senhora tenha uma idade – disse ele. – Só a que a senhora quiser.); García Márquez é um perito distinto em impedir sequências enfadonhas, na terceira viagem à ilha, ela escolhe um hotel de cabanas rústicas num bosque de amendoeiras, apareceu-lhe a fazer tagatés Aquiles Coronado, a quem Ana Magdalena nunca deu atenção, repudia-o secamente, e o genial escritor tem uma página inesperada sobre a solidão daquela mulher:

“Quando recuperou o humor passava da meia-noite. Doía-lhe a cabeça, mas doía-lhe mais ter perdido a sua noite. Arranjou-se um pouco e desceu, disposta a recuperá-la. Tomou um gin com soda num tamborete do bar frente ao jardim abandonado pelos turistas madrugadores. Chegou um hermafrodita de músculos artificiais com correntes e pulseiras de ouro, cabelo dourado e a pele avermelhada com unguentes para o Sol. Tomou ao balcão uma bebida fosforescente. Ela perguntou a si mesma se seria capaz de se insinuar ao empregado do bar, que era jovem e bem proporcionado, e respondeu a si própria que não. Chegou a interrogar-se sobre se seria capaz de sair par a rua e mandar parar automóveis até encontrar alguém que lhe fizesse o favor de seu gosto, e a resposta foi a mesma: não. Perder a noite era perder um ano, mas eram três da madrugada e não havia remédio: perdera-o.”

Retornamos ao ambiente familiar, diálogos soberbos com o marido. E voltamos a 16 de agosto, ela volta ao hotel do costume, renovado, e dá-se a relação mais improvável que alguma vez supusera. “Tinha a parcimónia de um reitor magnífico, uma voz pausada e mansa e um talento espantoso para os impropérios galantes.” Ele convida-a para um restaurante fora dos poisos do turismo, homem sóbrio, contador de anedotas simples, iniciam as preliminares, ele pergunta-lhe o nome, ela improvisa: Perpétua, resposta pronta do novo amante: “É uma pobre santa que morreu espezinhada por uma vaca.” Surpreendida ela pergunta como o sabia, placidamente ele responde que é bispo, ela parte precipitadamente, pretextou que não queria perder o ferry. E entramos no clímax da noveleta, os filhos a fazer a sua vida, o marido na rotina, ela com uma certa saudade daquele bispo, volta à ilha, “Diante da sepultura da mãe sofreu uma comoção porque encontrou um promontório inusitado de flores apodrecidas pelas chuvas.” Perguntou ao guarda quem as tinha posto, resposta: o senhor de sempre. E aqui sim, há uma pitada de realismo mágico, na tenda de um mágico ambulante perguntou por brincadeira onde estava o homem da sua vida, veio a resposta, o mágico trouxe-lhe uma imprecisão certeira: nem tão perto como quererias nem tão longe como julgas. O último encontro é um perfeito desencontro, ele bem bate à porta do quarto e ela adormece chorando de raiva. E o final tem um peso metafórico avassalador.

A despeito dos ditos de traição, temos aqui Gabu e o seu estilo inconfundível, Gabo podia estar demente mas deixou-nos este belo hino à vida finda a vindima.

 

 

Mário Beja Santos