domingo, 17 de junho de 2012

Corpos marcados.

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Um técnico do Fundo Monetário Internacional,
disfarçado de membro da máfia russa


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A agricultura portuguesa anda de crista em baixo, a indústria vai de mal a pior, no terciário há saudades das novas oportunidades. Um país em crise, portanto. Neste contexto recessivo, se há domínio em que estamos atrasados, mesmo muito atrasados, é o da tatuagem prisional. O panorama nacional neste sector-chave da macroeconomia é desolador, sendo lamentável que, no Memorandum of Understanding (MoU) celebrado com a troika, não tenha sido incluída uma alínea, uma simples alínea, a prever, por exemplo, uma reforma estrutural. A que se deveria associar, claro está, a já clássica reforma das mentalidades. Ambas as reformas, a estrutural e a das mentalidades, deveriam ter um objectivo, uma ambição, um desígnio: implementar uma agenda de crescimento sustentado e de promoção do empreendedorismo da tatuagem prisional. É um sector votado ao esquecimento. Nunca os poderes públicos, as associações empresariais, os patrões e os sindicatos, a Academia ou a sociedade civil (a sociedade civil em geral) se preocuparam em definir uma estratégia nacional que mobilizasse os Portugueses para este projecto colectivo. É pena.

A Primeira República, tempo de esperanças cívicas, ainda deu alguns passos no combate ao jesuitismo obscurantista que, durante séculos, conduziu o país a este lamentável atraso nas artes do criminal tatoo. A partir de 1910, tivemos tatuagens de Manuel de Arriaga (mas quem é que se lembra de tatuar no corpo o pacato Manuel de Arriaga?!), tivemos os bustos da Srª República, avantajados a botox, tivemos alguns outros atrevimentos. Mas, regra geral, tudo muito básico, tudo muito pueril, como o atesta este livro de Rudolfo Xavier da Silva, Os Reclusos de 1914:  
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Rudolfo Xavier da Silva, Os Reclusos de 1914. Estudo Estatistico e Antropologico,
Lisboa, Oficinas Gráficas da Cadeia Nacional, 1926

Varinas, toureiros, españolas, anjinhos e luta-livre:
o imaginário prisional republicano

Manuel de Arriaga?!




Em 1926, pressentia-se já que as coisas iriam piorar – e piorar para pior. A Ditadura Militar e, depois, o Estado Novo deram um profundo golpe numa arte aprisionada que começava a despontar. A repressão dos costumes, o moralismo de sacristia, o apagamento das liberdades, tudo contribuiu para que a tatuagem prisional estivesse sufocada 48 anos nas trevas e nas masmorras do fascismo salazarento.
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Rudolfo Xavier da Silva, Crime e Prisões, Lisboa, Oficinas Gráficas da Cadeia Nacional, 1926


Politatuagem dum tatuador das prisões

Tatuagem dum gatuno de cemitérios




Ary dos Santos, Como Vivem, Como Nascem e Como Morrem os Criminosos,
Lisboa, Livraria Clássica Editora, 1938 
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Na obra do advogado Ary dos Santos, Como Nascem, Como Vivem e Como Morrem os Criminosos, publicada em 1938, viam-se já os efeitos devastadores do Salazarismo na nobre arte da tatuagem prisional. Os exemplos mais criativos que se mostram em fotografia não são portugueses, é tudo material importado, excepção feita a uma imagem de um recluso de Monsanto que ostenta no bíceps o emblema do Sport Lisboa e Benfica. Tirando isso, faziam-se desenhos toscos e desinspirados, com tatuagens profissionais (era o tempo da fantasiosa alegria no trabalho) e uma ou outra tatuagem amorosa que, no estilo português suave, se limitava a mostrar uns castos corações enlaçados, à maneira das filigranas de oiro de Viana do Castelo e das instalações em colheres de plástico que a artista plástica Joana Vasconcelos exibe agora no Palais de Versailles. Muita plasticidade.

Nas húmidas celas do fascismo, houve, por certo, arroubos eróticos. Mas o regime, pudicamente, tudo ocultava, na mais completa das hipocrisias. «As tatuagens eróticas (…) devem ser classificadas aparte das amorosas e nesta série não se pode fazer ideia até onde pode ir a desvergonha, a falta de senso moral, o impudor de certa escória da sociedade», escrevia o Dr. Ary dos Santos a páginas 317 do seu já citado livro, o qual é abrilhantado por um prefácio do Senhor Director Geral dos Serviços Prisionais, Dr. Augusto de Oliveira. O livro, claro, não mostra um único exemplo de tatuagem erótica. Fascistas. A Censura tudo topava, tudo castrava. Existem exemplares de lâminas de peles tatuadas no Teatro Anatómico da Faculdade de Medicina, mas predomina o registo piedoso, com cristos na cruz. Há uma outra mulher nua, mas em pose frigidamente estática, sem os trejeitos corporais que nos nosso dias podemos ver em família, tranquilamente, no educativo «Morangos com Açúcar», transmitido aos finais da tarde a partir de uma emissora de Carnaxide.   
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Lâminas de pele no Teatro Anatómico, aqui

Não admira, pois, que Portugal tivesse entrado nos movimentados anos 60 sem a mínima preparação ou expertise na indústria da tatuagem. Fomos para a guerra de África depressa e em força. Mas, pasme-se, sem que as autoridades, civis e militares, tivessem consciência deste atraso nacional e da necessidade de implementar sem delongas um vasto programa de reformas administrativas, ou medidas de emergência, com vista a resgatar o país da sua confrangedora pobreza em tatuagem prisional. Daí os mortiços e amadorísticos «Moçambique, Amor de Mãe» ou «Guiné, Batalhão 314» que ainda hoje enfeitam os braços de alguns veteranos do mato, que agora aviam bicas e galões nas pastelarias e cafés da Graça e Sapadores. A revolução do 25 de Abril de 1974, não hesitamos dizê-lo, deveu-se, em larga medida, à falta de coragem do doutor Marcello Caetano para, com o apoio da Ala Liberal, desenvolver a tatuagem prisional e, em desenvolvendo, democratizar o país e descolonizar as colónias. Durante o PREC, não consta que os agentes da PIDE tenham tatuado os seus viciosos corpos. Preferiram evadir-se em massa da prisão de Alcoentre, episódio onde terá havido mãozinha de reaça, como assevera o poema de Ary dos Santos (não confundir com o atrás citado advogado.). E pronto, assim desaguámos na CEE sem que o Tratado de Adesão, como devia, haja previsto subsídios a fundo perdido ou um programa comunitário específico para a revitalização da indústria portuguesa da tatuagem prisional. Admiram-se que estejamos em crise?


Tatuagem emblemática de um recluso de Monsanto preso por furto.
O Sport Lisboa e Benfica, já na altura um ídolo da marginalidade lisboeta.

Tatuagens profissionais. Alguns exemplos.

Politatuagens (Locard)

Tatuagem Artística (Colecção Lacassagne)

Tatuagens amorosas



Russian Criminal Tatoo Encyclopedia. Vol. 1, 2004


O contraste com outras nações evidencia ainda mais o atraso português. Actualmente, em Berlim, está patente uma exposição sobre tatuagens criminais russas, que abrange o período de ouro desta arte, os dias soviéticos. O arco temporal vai de 1948 a 1986. Anjos e mulheres nuas, símbolos religiosos, saudades de casa; o trivial penitenciário, em suma. Mas também raridades doutrinárias do materialismo-dialéctico, como uns retratos de Marx, Lenine e Estaline em plena erecção de comunismo. A indústria de tatuagem russa já deu azo a um blogue, a uma Enciclopédia, em três grossos volumes, e a um livro teórico, de Alix Lambert, com análises profundas da pigmentação cutânea eslava. Uns eslavos de trabalho.  
Desengane-se, porém, quem julgar que a tatuagem criminal russa foi um projecto colectivo ou sequer colectivista. Na verdade, tudo isto se deve ao trabalho de um homem, é samba de uma nota só. Danzig Baldaev de seu nome. Nascido em 1925, cresceu num orfanato, pois o seu pai, um etnógrafo reputado, tinha sido denunciado às autoridades como “inimigo do povo” – Baldaev nunca mais o viu, está visto. Entrado na idade adulta, e após ter combatido na 2ª Guerra, o NKVD determinou que Baldaev iria ser guarda prisional em Kresty, Leninegrado, uma das prisões mais duras da Rússia soviética. Na URSS faltava o pão nos mercados, mas havia estabilidade no emprego: Baldaev foi guarda prisional em Kresty de 1948 a 1981. Decidiu, então, registar as tatuagens dos reclusos, seguindo os métodos de recolha etnográfica praticados pelo seu pai. Todas as noites, na mesa da cozinha do seu minúsculo apartamento em Leninegrado, desenhava o que vira nos corpos daqueles que guardara durante o dia. O KGB, curiosamente, não se opôs a este projecto artístico. Pelo contrário, viu nele uma oportunidade única para possuir um registo ambulante, inscrito na pele, da carreira prisional de cada detido. As tatuagens mostravam que crimes cometera, em que prisões pernoitara, contribuindo ainda para a elaboração do seu perfil psicológico. Baldaev foi então autorizado a percorrer a URSS em busca de novos materiais prisionais.  
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Danzig Baldaev. Com amigos.








Na URSS, era proibido tatuar o corpo, mas nas prisões todos o faziam. Nas celas, à noite, marcavam a pele derretendo os tacões das botas e fazendo uma mistela com sangue e urina. Não tatuar o corpo era sinal de fraqueza, pois revelava o desejo de regressar à liberdade e a uma vida normal. Ainda hoje isso faz parte do espírito tribal e dos rituais iniciáticos de quase todas as seitas criminosas. Tal acontece com as máfias de Leste, com a Rússia à cabeça: um corpo tatuado é uma exibição macho que se abraçou para sempre carreira no mundo do crime.
Cada sinal trazia consigo uma mensagem: as caveiras expressavam um status superior nas complexas hierarquias que se forjam atrás das grades; o gato era o símbolo dos ladrões e dos assaltantes; nas mulheres, o desenho de um pénis indicava que eram prostitutas; a suástica não revelava simpatias nazis, mas a rebeldia do preso em face das apertadas regras prisionais dos sovietes.
Nas prisões da URSS, o cúmulo da coragem era tatuar a pele com ícones do comunismo. Algumas tatuagens são meros retratos de Lenine e Estaline, imagens inócuas, respeitadoras até. Outras, pelo contrário, ironizam de forma caústica, por vezes chocante e mesmo pornográfica, com os líderes ou os símbolos comunistas. Os que o faziam, nada tinham a perder: estavam em prisão perpétua numa das mais duras prisões da Rússia, o que de pior lhes poderia acontecer? 
         Às vezes, era-se tatuado contra vontade, como acontecia com os homossexuais passivos ou os que perdiam apostas nos jogos de cartas. A pior de todas as tatuagens involuntárias – um coração no interior de um triângulo – sinalizava que o preso era um pedófilo ou violador de crianças, tendo passaporte assegurado para uma existência prisional muito movimentada.
Após a morte de Baldaev, em 2005, o seu gigantesco arquivo poder-se-ia ter perdido para sempre. Por um daqueles acasos da Fortuna, Damon Murray e Stephen Sorrell, da agência FUEL, contactaram a viúva, visitaram-na no exíguo apartamento de São Petersburgo e compraram o espólio, uma história contada aqui. Com ele fizeram os três volumes da Russian Criminal Tatoo Encyclopaedia e a exposição que actualmente está à mostra em Berlim.





Danzig Baldaev, uma lenda da tatuagem prisional soviética

Leonid Brejnev


Boris Ieltsin

Lenine














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Ieltsin e Gorbachov
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O talento de Baldaev também fica patente nos desenhos que fez sobre as atrocidades do Gulag, igualmente reunidos em livro, Drawings from the Gulag. Dos 130 desenhos publicados, aqui ficam alguns exemplos:

















Além da qualidade pictórica e dos dramas da narrativa, estes desenhos são interessantes pela sua afinidade com o estilo de Robert Crumb, o genial criador de Fritz, the Cat, cuja biografia pode ser vista aqui. As vinhetas saturadas de Crumb fazem-me lembrar os desenhos igualmente saturados de Baldaev. A lubricidade é outra afinidade entre russo e americano. Não sei porquê, mas acho que existe aqui uma semelhança. Alguns exemplos de Crumb, todos da controversa e excepcional novela gráfica The Book of Genesis Illustrated, de 2009 (há uma bela edição castelhana):  
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A Criação

Eva e a Serpente, no Paraíso

Adão e Eva

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A destruição de Sodoma e Gomorra

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Falta acrescentar um detalhe. Houve 58 razões para que Danzig Baldaev desenhasse o quotidiano horrível dos campos siberianos da fome e da morte. 58 razões. Foi esse o número dos seus familiares que perderam a vida no Gulag.

António Araújo




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