sexta-feira, 29 de março de 2013

Loving story.

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Fotografias de Grey Villet
 



Há um senhor que anda na minha rua, ao luso-fusco, a escrever «Morte aos Pretos» nas paredes e nas caixas da EDP. Eu não gosto das caixas da EDP, mas ainda gosto menos que o senhor escreva ñas paredes e, menos ainda, que escreva «Morte aos Pretos». Isto passa-se em Lisboa e estamos na Páscoa de 2013.
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         Há 45 anos, já eu era nascido – e, provavelmente, também muitos dos leitores destas linhas pascais –, 16 estados dos EUA ainda proibiam os casamentos mistos, entre pessoas de raças diferentes. Acontece que Richard Loving, que era branco, estava in loving por Mildred, que era negra. E, como Mildred também gostava de Richard, decidiu tornar-se Mrs. Loving. Foram condenados a um ano de cadeia apenas por estarem in loving um pelo outro e terem decidido casar. Um ano de prisão. Isto pode parecer-nos ridículo e arcaico, mas muitos de nós já éramos nascidos e até crescidos quando esta história aconteceu. E ainda ontem o senhor da minha rua voltou a escrever «Morte aos Pretos» numa caixa de electricidade.
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         Os Loving não se conformaram com a aplicação do Racial Integrity Act, de 1924, que proscrevia a «miscigenazção» (!) na Virgínia. Não sendo activistas dos direitos cívicos, queriam apenas que os deixassem em paz e levaram o seu caso às mais altas instâncias. Em 1967, o Supremo Tribunal, através da sentença Loving v. Virginia, decidiu, por unanimidade, que aquela lei da Virgínia era inconstitucional e revogou uma decisão, o Pace v. Alabama, do longínquo ano de 1883. O caso Loving v. Virginia abriu a porta aos casamentos entre pessoas de raças diferentes e firmou jurisprudência que veio a tornar-se muito importante no debate sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
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         Sobre o casal Loving já correram rios de tinta – e não os rivers of blood que  Enoch Powell tanto temia… –, já se fizeram filmes e músicas. Em 2012, na preparação de um documentário sobre os Loving, Nancy Buirski descobriu um conjunto maravilhoso de fotografias que Grey Villet, num trabalho para a Life, tirou à família Loving. As imagens foram exibidas no International Center of Photography, em Nova Iorque. E o António, que está por lá há tempo demais para o meu gosto, mandou-me a notícia, com aquele amor que é o do António, e que faz com que todos os amigos dele o amem por  ser assim tão amigo no amor amigo. Olhem para as imagens de Richard e Mildred juntos, observem a alegria das crianças. Haveria o direito de prender quem apenas cometeu o delito de amar? Pense nisso da próxima vez que ler «Morte aos Pretos» numa parede da sua rua.
 
 
António Araújo
 

6 comentários:

  1. " (...) Acontece que Richard Loving, que era branco, estava in loving por Mildred, que era branca. (..)"
    Helloooooooooo!...

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    1. Obrigado, Margarida, pela correcção. Já alterei, muito obrigado.
      Boa Páscoa,
      António Araújo

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  2. Não é que isto seja relevante, mas o tal "senhor" escreve "morte aos pretos" ou "pretos fora"?. É que quando vou para o meu trabalho, passo por uma rua onde tenho que ver essa m... escrita todos os dias. Há quem apague o escrito, risque, escreva por cima, etc. mas o tal "senhor" não desiste e já enjoa semelhante mania.
    P.S. Não sou a Fernanda Câncio, nem o José Falcão.
    P.P.S. Este blogue é muito bom (na minha modesta e irrelevante opinião) e gosto muito dos textos e fotografias.

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    1. Também tenho visto «Pretos Fora», mas o caso a que me refiro é «Morte aos Pretos».
      Obrigado pelas suas palavras.
      Cordilmente,
      António Araújo

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  3. do muito que há (sempre) a fazer face a questões do preconceito, lamento que não se faça (mais) repúdio da utilização abusiva da expressão "raça"

    creio que muitas pessoas reproduzem a utilização em sequência de a ver tantas vezes utilizada na Sociologia e até - valha-me a santíssima - na Medicina
    mas cabe a cada um de nós impôr o travão, se utilizo a expressão "raça" para falar de seres humanos (da mesma raça, portanto) faço-o com aspas e com ref.ª às mesmas

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