quinta-feira, 9 de julho de 2015



impulso!

100 discos de jazz para cativar os leigos e vencer os cépticos !

 

 

# 58, 59 – STAN GETZ

 
 
Fotografia de William Claxton
 

 
A popularidade pode ser um anátema, pelo que persiste alguma dificuldade em apreciar cabalmente a música de Stan Getz, sendo ela tão redonda e mansa, com um ilusório travo adocicado. Esta aparente facilidade deu-lhe renome (e riqueza), tanto como o estigmatizou nos círculos mais “exigentes” do jazz. E no entanto, como é costume descobrir-se, não faltam negrumes e tormentos no percurso de Stan Getz. Por exemplo o paradoxo de a sua carreira só ter verdadeiramente começado depois de a darem como acabada.
Na antinomia entre Lester Young e Coleman Hawkins que desde os anos 40 se impôs ao saxofone tenor, uma dialética mais conceptual do que vivida, mesmo musicalmente, o jovem Stan Getz irrompeu na orquestra de Woody Hermann (a “Manada”) e depressa foi ter à asa de Dexter Gordon, na militância de revelar e asseverar o estilo de Prez como aquele capaz de abrir outros horizontes do jazz que não os do bebop. A secura do timbre, cintilante como um cálice de Xerez, a dicção quase silabada e sem vibrato, dando valor a cada nota, e o “no nonsense” do fraseado conciso, puseram Getz nas bocas do mundo.
Aquilo a que se pode chamar de “sistema” aproveitou-se desta limpidez e quis fazer da sua música, ou melhor dele, o ícone branco de um jazz apaziguador e sem riços. Stan Getz viu-se assim metido numa camisa-de-onze-varas: não sendo o único músico branco de jazz – sequer o único de olhos azuis – nem o mais banco dos músicos de jazz, pois não se encaixava nos planaltos do cool da Costa do Pacífico, ficou encurralado como um dos músicos mais denegridos como filistino e fariseu graças à alvura da sua pele. Seria demasiado simplificador, ou seja psicológico, afirmar que as dilacerações deste dilema levaram Stan Getz a enveredar pelos hábitos que pareciam imprescindíveis aos jazzmen da época; de modo que acabou por ouvir o insulto de “poor excuse for a man” lançado pelo juíz que em 1954 o condenou por ter tentado assaltar uma farmácia em Seattle, desvairado com a ressaca de morfina. O amor e o exílio talvez pudessem quebrar o ciclo vicioso: Stan Getz casou com uma escandinava e foi viver para a Dinamarca. Quando regressou a Nova Iorque um punhado de anos depois os seus concertos ficavam às moscas – estava acabado.
 
 
 
Getz / Gilberto
1963 (2014)
Verve - B 002074902
Stan Getz (saxofone tenor), João Gilberto (gitarra, voz), António Carlos Jobim (piano), Tommy Williams (contrabaixo).Milton banana (bateria), Astrud Gilberto (voz).
 
No início de 1961, numa digressão meramente alimentar pela América do Sul, com etapa no Rio de Janeiro, Stan Getz ficou encantado pela música dos jovens locais. O ovo ou a galinha? Teria a Bossa Nova sido o que foi sem Stan Getz? Teria Stan Getz conquistado assento no panteão do jazz sem a Bossa Nova? O disco “Jazz Samba”, com um repertório de temas de Jobim, Baden Powell e Ary Barroso deu o alerta para esta coisa nova. No trilho dele produziu-se “Getz / Gilberto”, em 1963. Juntar em estúdio o acanhadíssimo João Gilberto, que acometido pelo medo de palco foi retirado a ferros do quarto do hotel, e o volúvel Stan Getz, dado a cóleras e caprichos; pedir à última hora que a dona-de-casa Astrud Gilberto se dispusesse a cantar pela primeira vez na vida; pedir emprestadas tonalidades e cores alheias à tradição do jazz, no momento histórico em que descolavam, pediam meças pela primazia e atraíam todas as atenções o jazz tonal de Miles Davis, o freejazz de Ornette Coleman e o hard bop de Horace Silver e Sonny Rollins – que melhores presságios haveria para o desastre?
“Getz / Gilberto” foi um retumbante sucesso comercial. Aos moços da Bossa Nova elevou-os até à voz do Senhor, ou seja de Frank Sinatra, e trouxe notoriedade mundial. A Stan Getz ofereceu o proveito e os avatares do lugar-comum; não havendo que ousasse desmentir o prodígio musical do disco, o resto da carreira do saxofonista dividiu-se entre o conforto da fortuna e os riscos da criatividade, com supremacia do primeiro aos olhos de quem não queria reparar nos segundos.
 

People Time
1992
Universal Distribution – 5101342
Stan Getz (saxofone tenor), Kenny Barron (piano).
 
 
O final da vida de Stan Getz ofereceu-lhe uma oportunidade trágica para a redenção absoluta. Como um gladiador – morituri te salutant – encarou com impavidez um cancro que sabia fatal, realizando nos primeiros dias de Março de 1991, uma série de três concertos ao vivo no Clube Montmatre de Copenhaga, em dueto com Kenny Barron. Morreu exactamente três meses depois. No ano seguinte a gravação destas sessões foi publicada com o nome “People Time”.
O lirismo não tem que ser confrangedor ou pungente, a melancolia pode prescindir o lamento, é possível proferir os derradeiros acordes testamentais aquém do nirvana dos desprendidos e além do ajuste de contas dos pesarosos. “People Time” não é um hino à vida, nem uma ode à morte, mas a celebração do preciso momento em que cada tema foi interpretado: transitivo, precário, irrecuperável. É verdade que ao lado de Stan Getz se apresenta Kenny Barron – cuja modéstia tem feito dele o mais subestimado pianista da história do jazz – com quem o instante parece definitivo dado o rigor das improvisações, a certeza de cada nota, a elegância do desenvolvimento do arco musical. Mas que outra coisa andou Stan Getz a dizer antes de o escutarem tão claramente como em “People Time”?
 
 
José Navarro de Andrade
 
 
 

9 comentários:

  1. Sobre este extraordinário período da musica do mundo e em particularda brasileira aconselho leitura de Ruy Castro:Chega de saudade e A onda que se ergueu do mar.:Essa sessão por exemplo esteve para acabar á batatada .João dizia para o Tom-Ele toca tão alto pô.Getz "topou" e enfim...tudo acbou em bem.Por acaso eu estou de acordo com JGilberto.
    O seu texto é irretocável.

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    1. Muito boa referência. Quanto á sessão dizem as cónicas que Getz interrompia-a para ir à casa de banho tomar mais uma dose, o que para os espíritos híper-melindrosos como os de Jobim e Gil há-de ter caído muito mal. Lendas...

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  2. Este post deixou-me um bocadinho desanimado, tinha quase a certeza de ter o Getz/Gilberto (tenho coisas parecidas) mas este não o consegui encontrar.
    Do que tenho vou escolher um que já publiquei noutra plataforma com relativo sucesso.
    O senhor aqui mencionado é um dos 10 mais.

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    1. Mas colocou no Fado Alexandrino o "Focus", elevando a fasquia!

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  3. Perante os comentários de verdadeiros "patrões", sinto-me constrangida ao comentar seja o que for acerca deste Senhor !!! A ignorância é uma coisa tramada!!!
    Consegui respirar de alívio quando a minha memória reavivou... afinal estes artigos são para leigos e para catívá- los... certo??? Objetivo superado!!!
    Parabéns por mais um excelente texto.
    Nota mental: Leigos e cépticos, leiam o texto ao som de Stant Getz!!! Pleno!!!

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  4. Sorry.
    Estou a ter dificuldades com o Mediafire e não sei quando e se voltarei a publicar.

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    1. Mau... Olhe que faz aqui muita falta. Não quero perder as conversas consigo.

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    2. Parece que de momento consegui voltar a colocar.
      Vamos ver no futuro.

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