quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Séculos e séculos de segregação, agora as lutas pela cidadania em Portugal.

 





          Portugueses ciganos, Cinco séculos de resistência, por Ana Cristina Pereira, FFMS/Ensaios da Fundação, 2026, é uma viagem empolgante acerca de uma etnia cuja proveniência continua a ser objeto de discussão; a sua presença está historicamente documentada em Portugal, uma conceituada jornalista vai bater-lhes à porta, ouvir os seus anseios, traça-nos numa narrativa de grande vivacidade a história antiga e recente do anticiganismo, segregações, exclusões, preconceitos arreigados, basta recordar expressões que vêm da noite dos tempos como “ciganices” ou “um olho no burro e o outro no cigano”. Ficaremos, no termo desta categorizada, até com a ideia de que as insinuações de um populismo fervente e ignaro estejam a contribuir para atitudes mais inclusivas no trabalho, na escola, na autarquia, nos locais de residência. Há casos em que o discurso do ódio leva o comportamento democrático a fazer mais para derrubar os muros da desumanização, e com sucesso.

          Por esta leitura estimulante vamos conhecer, através de três gerações, o que tem vindo a mudar na cultura cigana, os ganhos em dignidade, os casamentos por amor, o reconhecimento pelas gerações mais antigas do valor da educação, as barracas que deram lugar a casas, o gosto pela sedentarização sem prejuízo da manutenção dos pilares da entreajuda familiar – é inequívoco que o cigano ama os valores da família.

          Vamos conhecer estudos, depoimentos, inclusive os itinerários desta minoria étnica transnacional, teve a sua placa giratória nos Balcãs, conheceu toda a casta de perseguições, foram gazeados nos campos nazis e o seu historial de marginalização em Portugal entronca o obscurantismo aos preconceitos mais alarves. Começaram a ter direitos de cidade na Constituição de 1986 e outros documentos subsequentes como a Declaração Universal dos Direitos Humanos e a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Como observa uma socióloga, esta abertura para a cidadania e para o reconhecimento da dignidade cigana foi sempre feita com bastantes vagares. E mostra-se como tem vindo a ser alargado o fosso entre ciganos e não ciganos.

          Com a democracia, os ciganos ganharam ativismo e a própria justiça passou a punir o discurso do ódio. E temos uma incursão por esse movimento associativo e as suas características: Os Viquingues do Bairro de São João de Deus; o Governo criou o Alto Comissariado para a Imigração e as Minorias Étnicas, surgiram os rendimentos de inserção com exigências no campo da saúde, na empregabilidade e na formação; veio depois a Associação Cigana de Coimbra, relevou-se o papel da mediação; apareceu um projeto com vários parceiros com renome fruto da Iniciativa Comunitária EQUAL, onde a educação é prioritária. Enfim, há o trabalho nas redes sociais, as associações que surgiram lutam contra a discriminação externa (que dificulta o acesso à educação, ao emprego, à participação na vida pública) e contra a discriminação interna (procurando sensibilizar as velhas gerações que se abriram novas oportunidades para as meninas e para as mulheres).

          Temos uma súmula das políticas públicas, de um novo ativismo contra os ódios e preconceito, desmontam-se mentiras, não é esquecida aa ligação entre alguns ciganos e o tráfico de droga. Por vezes há desalento com a previsão de refluxos, basta recordar que a última Estratégia Nacional de Integração das Comunidades Ciganas acabou no final de 2023. Portugueses ciganos têm ganho projeção na sua participação política, é o caso de Carlos Miguel ligado à Câmara Municipal de Torres Vedras, a despeito da infamante campanha de oposição, dizendo “Querem um cigano na presidência da Câmara? Querem a Câmara cheia de ciganos?”. Hoje há ciganos a trabalhar em várias autarquias e como diz Carlos Miguel, “Nós só vamos conseguir ultrapassar o preconceito se as pessoas nos conhecerem melhor. onde é que as pessoas nos podem conhecer melhor? No dia a dia, na escola, no trabalho”. A reportagem desvela as atribulações para ter acesso ao emprego, há histórias de sucesso de portugueses ciganos que enfrentam no porto de trabalho as ideias feitas, o racismo mais desalmado, e aprendem a dar a volta a quem afina pela exclusão e a discriminação.

          Era inevitável, Ricardo Quaresma, uma das lendas do futebol nacional e internacional, aprendeu desde muito novo a ouvir alarvices nos estádios, do título “Ó cigano, passa a bola!” já teve as suas questiúnculas com o chefe da extrema-direita portuguesa e está pronto para mais. Confessa que fica feliz vendo pessoas da sua etnia a estudar cada vez mais, deixa uma observação: “É muito bonito dizer que o cigano tem que trabalhar. Eu concordo que o cigano tem que trabalhar. E oportunidades para o cigano trabalhar?”

          Há portugueses ciganos que são astros musicais e Ana Cristina Pereira faz deles um relato. Há também portugueses ciganos nas artes do palco e noutras esferas do universo artístico.

          No termo daa sua reportagem, a autora deixa as suas interrogações quanto à falta de meios para a fixação dos ciganos, o arrendamento local era lhes hostil e não só pelo preço da habitação. E deixa um comentário para a reflexão do leitor:

          “Poucas pessoas reconhecem o anticiganismo, como se fosse uma norma assente há pessoas que pensam que os ciganos não trabalham porque não querem trabalhar, são pobres porque são preguiçosos, vivem isolados porque não gostam de interagir com outras culturas.” Os ataques de que são alvos os ciganos não geram condenação moral. Enquanto o anticiganismo não for reconhecido, esta reação será vista como um alimento para maais ódio, mais discriminação, mais desigualdade.

          Nesse processo, importa o modo como contamos histórias uns aos outros – nos meus de comunicação social, nas redes sociais, no contacto direto com familiares, amigos, vizinhos. A inclusão de uma população tão marginalizada exige políticas públicas fortes, mas joga-se também na profundidade das relações interpessoais, na escola, no trabalho. Em suma, envolve a sociedade no seu conjunto”.

          De leitura obrigatória.

         

                                                                Mário Beja Santos




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