O feijão-frade é o parente pobre dos feijões em Portugal. Em regra mais pequeno e com um olho negro, o Vigna unguiculata, vulgo feijão-frade, é atirado para a categoria menor dos feijões para saladas, de consumo frio, muitas vezes tipo entrada. Talvez isso explique por que comemos tão pouco deste feijão: menos de meio quilo por pessoa… por ano. Não entendo: tem de haver pelo menos dez compatriotas a zero para compensar a minha alarvidade!
Nada que se compare com
os consumos gigantescos de alguns países do Sahel, onde o feijão-frade é
alimento de primeira necessidade. Níger, Nigéria, Burkina Faso e Gana estão
entre os seus grandes consumidores, e não é de admirar. Foi na África
subsaariana que começou a ser cultivado, há mais de 5.000 anos.
Não confundir com os
restantes feijões que nos chegaram da América. Neste caso, o caminho fez-se ao
contrário: o feijão-frade já andava por África, pelo Mediterrâneo e pela
Península Ibérica muito antes dos europeus se fazerem ao mar. Fomos depois nós,
portugueses e espanhóis, que o levámos para as Américas.
Perfeito para climas
secos e pouco exigente em água, por lá se desenvolveu, a ponto de ser hoje do
Brasil que importamos boa parte do nosso feijão-frade. Ou no caso,
feijão-fradinho. Do Sahel africano para cá, de cá para a América e de lá outra
vez para cá: é a prova de que, antes dos outros, já nós tínhamos inventado a
globalização.
Está na altura de o
trazer de volta ao prato e prestar homenagem aos dois grandes clássicos da
nossa gastronomia com feijão-frade: com bacalhau e com atum.
O primeiro, servido
quente ou morno, com alho, pede um bom lombo de bacalhau assado na brasa e
desfeito em lascas, em abundante azeite de boa qualidade. O segundo, frio,
faz-se com material da despensa: feijão e atum em lata, azeitonas de frasco e
azeite. Ambos com muita cebola, salsa picada e pimenta.
Eu faço uma terceira
derivação: salada de feijão-frade com camarão. Ao feijão bem escorrido junto
tomate em cubos e sem grainhas, pimento e cebola bem picados e um alho
triturado. Envolvo tudo com uns camarões sem casca e previamente cozidos,
azeite, paprika e um golpe de vinagre. Coentros picados a gosto.
Com estas, mais as migas
com feijão-frade e umas quantas sopas, o certo é que as nossas modestas
quatrocentas gramas por bico chegam para nos tornar no maior importador europeu
de feijão-frade, com cerca de 30% das importações europeias e muito à frente,
por habitante, de espanhóis e italianos. Na Liga Europa ninguém nos bate, já
bem sabemos.
E não é de somenos.
Nutricionalmente, o feijão-frade está muito bem colocado entre as leguminosas:
boa dose de proteína, muita fibra, ferro, pouca gordura e, sobretudo, muito
folato. Não é nenhum “superalimento” e ainda bem, mas traz saúde e, ao que
parece, fortuna.
Pelo menos é nisso que
acreditam os americanos, que mantêm a tradição de comer Hoppin’ John, feito com
black-eyed peas, arroz e porco, no primeiro dia do ano para chamar a
prosperidade.
Mas isso já é outra
coisa, mais para o capítulo das feijoadas. E sobre essas havemos de falar um
dia destes.
José António Nogueira de Brito

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