domingo, 27 de setembro de 2026

O frade, o fradinho e o olho negro.

 




O feijão-frade é o parente pobre dos feijões em Portugal. Em regra mais pequeno e com um olho negro, o Vigna unguiculata, vulgo feijão-frade, é atirado para a categoria menor dos feijões para saladas, de consumo frio, muitas vezes tipo entrada. Talvez isso explique por que comemos tão pouco deste feijão: menos de meio quilo por pessoa… por ano. Não entendo: tem de haver pelo menos dez compatriotas a zero para compensar a minha alarvidade!

Nada que se compare com os consumos gigantescos de alguns países do Sahel, onde o feijão-frade é alimento de primeira necessidade. Níger, Nigéria, Burkina Faso e Gana estão entre os seus grandes consumidores, e não é de admirar. Foi na África subsaariana que começou a ser cultivado, há mais de 5.000 anos.

Não confundir com os restantes feijões que nos chegaram da América. Neste caso, o caminho fez-se ao contrário: o feijão-frade já andava por África, pelo Mediterrâneo e pela Península Ibérica muito antes dos europeus se fazerem ao mar. Fomos depois nós, portugueses e espanhóis, que o levámos para as Américas.

Perfeito para climas secos e pouco exigente em água, por lá se desenvolveu, a ponto de ser hoje do Brasil que importamos boa parte do nosso feijão-frade. Ou no caso, feijão-fradinho. Do Sahel africano para cá, de cá para a América e de lá outra vez para cá: é a prova de que, antes dos outros, já nós tínhamos inventado a globalização.

Está na altura de o trazer de volta ao prato e prestar homenagem aos dois grandes clássicos da nossa gastronomia com feijão-frade: com bacalhau e com atum.

O primeiro, servido quente ou morno, com alho, pede um bom lombo de bacalhau assado na brasa e desfeito em lascas, em abundante azeite de boa qualidade. O segundo, frio, faz-se com material da despensa: feijão e atum em lata, azeitonas de frasco e azeite. Ambos com muita cebola, salsa picada e pimenta.

Eu faço uma terceira derivação: salada de feijão-frade com camarão. Ao feijão bem escorrido junto tomate em cubos e sem grainhas, pimento e cebola bem picados e um alho triturado. Envolvo tudo com uns camarões sem casca e previamente cozidos, azeite, paprika e um golpe de vinagre. Coentros picados a gosto.

Com estas, mais as migas com feijão-frade e umas quantas sopas, o certo é que as nossas modestas quatrocentas gramas por bico chegam para nos tornar no maior importador europeu de feijão-frade, com cerca de 30% das importações europeias e muito à frente, por habitante, de espanhóis e italianos. Na Liga Europa ninguém nos bate, já bem sabemos.

E não é de somenos. Nutricionalmente, o feijão-frade está muito bem colocado entre as leguminosas: boa dose de proteína, muita fibra, ferro, pouca gordura e, sobretudo, muito folato. Não é nenhum “superalimento” e ainda bem, mas traz saúde e, ao que parece, fortuna.

Pelo menos é nisso que acreditam os americanos, que mantêm a tradição de comer Hoppin’ John, feito com black-eyed peas, arroz e porco, no primeiro dia do ano para chamar a prosperidade.

Mas isso já é outra coisa, mais para o capítulo das feijoadas. E sobre essas havemos de falar um dia destes.

 

José António Nogueira de Brito


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