sábado, 20 de maio de 2017

Se non è vero...

 
 




 
         Ao arrumar papéis velhos, encontrei este A4 dactilografado. Não me recordo da sua origem ou proveniência e, pelo tom do escrito, tudo indicia tratar-se de uma brincadeira ou – quem sabe? – de um panfleto destinado a denegrir o 25 de Abril. Na verdade, não é muito plausível que se tenha realizado o encontro citado, havendo ainda muitas passagens do texto que suscitam as maiores dúvidas. Verdadeiro ou falso, aqui fica, para que os leitores apreciem e julguem: é que, mesmo sendo falso ou tendo propósitos contra-revolucionários, é um texto que reflecte um certo «espírito de época» – daí a sua publicação, sem mais considerandos ou divagações.
 
***

 
 
 
Lisboa, 4 de Maio de 1974
 
         As prostitutas do Concelho de Lisboa, reunidas hoje, às 10 horas, em Assembleia extraordinária, numa das ruas da Capital, aprovaram, por unanimidade, a seguinte moção, dirigida à Junta de Salvação Nacional:
         1 – Considerando que exercem ilegalmente a mais antiga profissão do mundo, e que, embora vulgarmente conhecidas por mulheres de vida fácil, têm conhecido, antes pelo contrário, uma existência bem difícil, propõem, ao iniciar a luta pelos seus interesses e anseios:
A)  Que entre imediatamente em acção uma Comissão, constituída por:
LUCRÉCIA PRAZERES DO REGO (DA REBOLEIRA)
MARIA DA CONCEIÇÃO MIL HOMENS (DA COVA DA PIEDADE)
GERTRUDES ROSA (DE ALMADA)
MARIA JOSÉ PEREIRA (DE ALGÉS)
 
 
B)   Nesse propósito, apelam para a constituição de um sindicato, onde possam, livremente e sem quaisquer pressões de carácter puritano, debater todos os problemas inerentes à classe.
 
2 – Combater activamente todo o sistema de exploração que vem sendo praticado (agora com maior influência) por parte dos chulos.
3 – Criar, de acordo com as infraestruturas que posteriormente venham a ser objecto de estudo, o INSTITUTO MARGARIDA GAUTHIER, destinado, entre outros fins de carácter assistencial, à protecção dos menores.
4 – Promover um “trottoir” livre, nas ruas da cidade, com o objectivo de contribuir também para o turismo nacional, e elaborar uma tabela homogénea de preços.
5 – Terminar, desde já, com a escandalosa actividade das colegas conservadoras que continuam, exclusivamente, a actuar nas «Boîtes» de luxo.
6 – Punir severamente todas as associadas que, após a constituição do Sindicato, acedam a praticar, por razões de ordem monetária, quaisquer actos que não sejam os do coito moral.
7 – Aderindo ainda ao Movimento das Forças Armadas, todas se propõem, como ficou determinado na presente reunião, por maioria de votos, efectuar um desconto de 50% a todos os elementos com patente abaixo de alferes, pelo prazo de um ano.
 
VIVA O AMOR LIVRE! VIVA PORTUGAL!
 
 
 

 

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Portugal é Sensacional.

 
 
 


 




NUNO LIMA BASTOS


«O reitor do Instituto Universitário da Maia (ISMAI), Domingos Oliveira Silva, enviou a tese de mestrado de Fernando Madureira à Inspecção-geral da Educação e Ciência (IGEC) com um pedido de averiguação, noticia a Visão. A mesma revista tinha noticiado a conclusão do grau académico por parte do líder da principal claque do FC Porto com uma classificação de 17 valores.
Domingos Oliveira Silva diz à revista que foi “consultar o projecto de mestrado” de Fernando Madureira, que também é conhecido pela alcunha "Macaco", no âmbito do mestrado em Gestão do Desporto, tendo enviado esta quinta-feira “um procedimento inspectivo” à IGEC.
O reitor diz que o pedido tem como objectivo eliminar “quaisquer dúvidas” sobre os procedimentos na avaliação. A tese de Madureira, consultada e publicada pela Visão, gerou algumas dúvidas em relação ao conteúdo e também relativamente à grande quantidade de erros de escrita.»
Este nosso querido Portugal é mesmo um país singular: até os macacos já escrevem teses de mestrado!
 
Mestrado de Fernando Madureira vai ser investigado
Segundo a Visão, o pedido de averiguação foi feito pelo reitor do ISMAI depois de ter consultado tese do líder dos Super Dragões. "Macaco" obteve 17 valores.
PUBLICO.PT

 

Sem título.

 
 

Espanha, 1937


Irão, 1980



quarta-feira, 17 de maio de 2017

Big mouth.

 
 

Cântico Negro.







Depois de Black Like Me, aqui falado, mais outro que fico a dever à generosidade e à cultura enciclopédica do Rui Passos Rocha.





Parchman Farm: Photographs and Field Recordings, 1947-1959. A história conta-se em poucas linhas, que são estas: em 1947, 1948 e 1959, Alan Lomax gravou, fotografou e filmou os presos da Mississippi State Pentitentiary, em Parchman (e em Lambert). Os cantores são todos afro-americanos ou, se quisermos, negros. Como eles diziam, «those white guys just ain’t got the rythm».
Fez-se um livro, com dois CD’s que nos trazem música única, extraordinária, compassada e triste, arrastada como as grilhetas que muitos dos presos usavam. Na recolha de Lomax, há vários tipos de músicas: por exemplo, as tree-cutting song, que os presos entoavam enquanto cortavam árvores à machadada; ou as cotton and cane songs, da apanha do algodão, uma actividade em que os reclusos não precisavam de estar coordenados para fazerem o trabalho braçal. As cotton and cane songs podiam ser cantadas a solo ou em grupo e, ao que dizem, são as mais complexas de todas as work songs quanto à letra, à melodia e à harmonia.  








         Lomax e o seu pai tiveram um acesso privilegiado à penitenciária, pois faziam trabalho de campo para o Federal Folk Song Archive e, mais do que isso, porque eram sulistas. Encontraram guardas prisionais bondosos, outros sádicos e racistas. Segundo Anna Lomax Wood, noutro texto publicado neste livro, as condições prisionais prolongavam o sistema de trabalho escravo abolido há muito – mas prosseguido ali, no Sul profundo.




          No entanto, e como nota esta autora, as coisas iriam mudar nos anos subsequentes às visitas de Lomax a Parchman. A integração racial nas quintas-prisões do Sul e a mecanização da agricultura tornaram as work songs uma memória em riscos de extinção. Nos alvores da década de 1970, tinham desaparecido por completo. Hoje não passam de uma recordação, registada e gravada por Alan Lomax, cujo trabalho conheci graças ao Rui, a quem daqui mando um gratíssimo abraço.
 
António Araújo  



















segunda-feira, 15 de maio de 2017

A Destruição do Corpo Negro.



Linchamento
Texas, 1920



Assim que, da forma atribulada que todos conhecemos, a vitória nos Óscares do filme Moonlight foi anunciada houve logo quem apontasse o facto histórico de pela primeira vez ter ganhado um filme com protagonistas negros que não abordava directamente as questões do racismo e da escravatura, ao contrário do que tinha acontecido com Miss Daisy, Colisão ou 12 Anos Escravo. Esta curiosidade poderia levar-nos a pensar que Moonlight é um filme pós-racial, assente sobre as crostas de feridas antigas mas que já não doem. No entanto, convocados pelo realizador Barry Jenkins a testemunhar a via dolorosa de Little/Chiron/Black, a sua luta interior e exterior para afirmar o domínio do seu corpo, percebemos que embora o filme não encene nenhum conflito inter-racial, nem reavive a memória da escravatura, é uma obra sobre a história do corpo negro na América, uma história longa e cruel, física e espiritual.
Contar a história
Na Guerra Civil Americana (1861-1865) morreram 600 mil soldados. No início da guerra havia escravos. Quando a guerra acabou, homens, mulheres e crianças negros eram livres. Mas a realidade não se muda por decreto, nem de um dia para o outro. No sul esclavagista, a derrota não significou uma instantânea promoção dos negros. Pelo contrário, as forças da resistência à nova realidade mostraram-se com toda a fúria, reclamando o regresso a um mundo idealizado e ordeiro onde os privilégios dos brancos e a condição inferior dos negros eram naturais. A guerra não acabou, transferiu-se para um novo campo de batalha, o do corpo negro.
A história americana pode ser lida e contada de muitas maneiras, mas uma das maneiras de contar a América após a guerra civil é através da narrativa da reconquista do corpo negro porque no centro da maioria das lutas cívicas esteve sempre o domínio sobre o corpo negro. Um corpo que no tempo da escravatura tinha sido completamente objectificado, dominado, controlado, castigado, numa cultura que determinava em que espaços era aceitável a sua presença, o que significava também em que actividades, em que relações, em que posição. Com o fim da escravatura, surgiram outros mecanismos de controlo que visavam no fundo prolongar o estado das coisas. A liberdade do negro só era aceitável se os limites à sua presença no espaço público (que também é um lugar da imaginação) pudessem ser definidos pelos brancos.
A Justiça Popular e os Linchamentos
Quando os brancos se viam incapazes de estabelecer os limites da recém-conquistada liberdade dos negros recorriam à violência, na maior parte das vezes através dessa instituição profundamente americana  do linchamento. Os linchamentos já existiam antes do fim da escravatura e, em várias ocasiões, ocorriam quando circulavam rumores de uma iminente revolta dos escravos que geravam o pânico na população branca. Como conta Philip Dray no magnífico At the Hands of Persons Unknown (às mãos de desconhecidos, pois na maioria das vezes a turba protegia-se de modo a tornar impossível a identificação dos agressores), “o crescimento do movimento abolicionista no norte exacerbou os receios sulistas de que estariam à beira do temido apocalipse” da rebelião negra. Após a guerra e com o fim da escravatura, a conquista de direitos políticos por parte dos negros e a ascensão económica e social de uma parte da população que, até então, estava praticamente remetida às barracas das plantações, reforçaram os temores dos brancos que foram simbolicamente projectados no tabu definitivo, quase inominável, do sexo entre um homem negro e uma mulher branca: “A ansiedade provocada pela ideia do sexo inter-racial era tão grande que deu origem à ideia de que ter sexo com uma mulher branca era o verdadeiro objectivo por trás de todas as aspirações do negro, que a educação, o dinheiro, qualquer tipo de realização era, para o homem negro, um mero degrau de acesso ao quarto e ao nirvana definitivo da intimidade com mulheres brancas.” Para os brancos, o envolvimento voluntário de uma branca com um negro era inconcebível, daí que abundassem as acusações de violação e daí também que, sendo um tema tão sensível e que mexia com as emoções colectivas como nenhum outro, tenha passado a ser a justificação preferencial para os linchamentos. Mesmo quando o crime de que o negro era acusado não tinha que ver com qualquer tipo de abuso sexual arranjava-se maneira de “sexualizar” o crime para estimular o desejo de vingança da turba.
Foi o que aconteceu a Sam Hose, a 23 de Abril de 1899. Hose foi acusado de matar o patrão após uma discussão. Nos dias seguintes, com Hose em fuga às autoridades, surgiram rumores de que, após o homicídio do patrão, o homem teria violado a mulher deste e atacado a filha bebé. Quando foi capturado pelas autoridades, o seu destino já estava traçado. A multidão armada pegou nele e levou-o para perto da casa do antigo patrão. Aí, cortaram-lhe as orelhas, os dedos e os órgãos sexuais, regaram-no com querosene, amarraram-no a uma árvore e queimaram-no vivo. Alguns dos restos de Hose foram vendidos como recordações em lojas locais, uma prática bastante comum nos linchamentos que geravam uma maior comoção pública e aos quais acorriam milhares de pessoas das localidades mais próximas.
O caso de Ell Persons teve um impacto ainda maior na opinião pública não só porque ocorreu 18 anos depois do linchamento de Hose, em 1917, mas pela forma “civilizadíssima” como tudo decorreu. Persons foi acusado de matar uma rapariga branca de 16 anos. Após a sua captura, juntou-se uma multidão de aproximadamente três mil pessoas, entre as quais muitas crianças. Não faltavam os vendedores ambulantes que, nestas ocasiões festivas, aproveitavam para fazer negócio. De manhã, a mãe da rapariga assassinada chegou ao local onde seria feita “justiça”: “Quero agradecer a todos os meus amigos que tanto se esforçaram em meu nome. Que o preto sofra o que a minha menina sofreu, só que dez vez mais!” A turba reagiu: “Vamos queimá-lo!” E a mãe deu o aval definitivo: “Sim, queimem-no no sítio onde ele matou a minha menina.” Ell Persons ainda pediu a palavra, olhou para a multidão e não conseguiu dizer nada. A sua indecisão foi interrompida pelo grito de uma mulher: “Queimem-no!” Despejaram gasolina à volta dele e dois homens apressaram-se a cortar-lhe as orelhas, como era hábito. Outros tentaram levar outras “recordações” mas foram impedidos. Alguns dos espectadores queixaram-se de ter sido usada demasiada gasolina e de, em consequência, o preto ter sido queimado depressa demais. Agoniadas pelo cheiro a carne queimada muitas pessoas vomitaram. A cabeça de Persons foi cortada e colocada num poste perto da ponte e depois levada para a baixa de Memphis. Foram vendidas fotografias da cabeça a que tinham sido cortadas as orelhas, o nariz e o lábio inferior a 25 cêntimos cada.
A memória dos linchamentos é recuperada de forma grotesca e satírica por Paul Beatty no brilhante The Sellout, livro que venceu o Man Booker Prize no ano passado. Em traços gerais, o livro é sobre um homem negro, o narrador, que desafia as convenções ao defender o regresso da escravatura. Um dos amigos do narrador é um velho actor negro, Hominy Jenkins, que no passado tinha trabalhado com os irmãos Marx e com outras figuras da idade de ouro de Hollywood, embora se tivesse limitado a desempenhar os papéis menores que, na época, estavam destinados aos negros. Órfão da antiga glória, um dia Hominy tenta enforcar-se. É o narrador que o encontra com os pés quase a tocar no chão e a cara azulada. Hominy faz-lhe um pedido: “Corta-me o pénis e enfia-mo na boca” (um procedimento habitual dos linchamentos). O narrador liberta-o: “Libertei a rainha do drama do auto-linchamento” e Hominy então reflecte sobre a condição do negro na América: “Foi sempre assim desde que pusemos os pés neste país. Há sempre alguém a ser chicoteado ou mandado parar e revistado, tenha feito alguma coisa errada ou não.” Quando o narrador lhe diz que Hominy já não é um escravo e que ele não é o seu dono, ele responde-lhe: “por vezes temos de aceitar quem somos e agir em conformidade. Eu sou um escravo. Eu é que eu sou. É o papel que nasci para representar. Um escravo que por acaso é actor. Mas ser negro não tem nada que ver com o Método. Lee Strasberg podia ensinar-te a ser uma árvore, mas não te podia ensinar a ser um preto.”
O advogado e ativista James Weldon Johnson, que investigou o linchamento de Persons, em retrospectiva, pensando na forma civilizada e ordeira como tudo tinha decorrido, com a presença de homens, mulheres e crianças, na diferença entre o sofrimento físico da vítima e a degradação moral de toda aquela comunidade, chegou à conclusão de que a “questão racial passa[va] pela salvação do corpo da América negra e da alma da América branca.” Sempre que se pensa o racismo na América passa-se obrigatoriamente pela questão do corpo negro: onde está, como é representado, que movimentos pode fazer, que espaço pode ocupar, o que tem de fazer para evitar ser destruído.
A Destruição do Corpo Negro
Isso explica que o corpo seja a questão central do livro Entre Mim e o Mundo, de Ta-Nehisi Coates, vencedor do National Book Award em 2015, uma longa carta escrita pelo autor ao filho adolescente: “Digo-te agora que a questão de saber como se deve viver dentro de um corpo negro, dentro de um país perdido no Sonho, é a questão da minha vida […] é uma questão profunda, pois a América vê-se como obra de Deus, mas o corpo negro é a prova mais clara de que a América é obra dos homens. […] Na América destruir o corpo negro é uma tradição – é um legado.”
Esse legado de destruição entranhou-se decisivamente na cultura negra. Desde logo, nas relações entre pais e filhos. “[O]s negros amam os filhos com uma espécie de obsessão. Acho que todos nós preferiríamos matar-vos com as nossas mãos a ver-vos mortos pelas ruas que a América construiu”, escreve Coates, ecoando desta forma a solução brutal da protagonista do romance Beloved, de Toni Morrison, que prefere matar a filha a permitir que ela viva e sofra como escrava.
Em Errata, o seu livro de memórias, George Steiner escreve o seguinte: “Cada pai judeu é, num ou noutro momento da sua vida e paternidade, um Abraão para um Isaac naquela caminhada de três dias até ao monte Moriah. […] Quando concebe um filho, um judeu sabe que pode estar a legar àquela criança uma herança de terror, de um destino sádico. […] Ao conceber um filho, um pai judeu, seja na Rússia, na Europa, nas ruas de Hébron ou junto a uma sinagoga de Paris, torna a criança culpada.”
Há um idêntico sentimento de culpa nos pais negros na América, o de trazer um filho ao mundo num lugar em que “carrega[s] um corpo mais frágil do que qualquer outro”, como escreve Coates ao filho. Se, como diz Steiner, a criança judia carrega, aos olhos dos outros, o pecado original por simplesmente existir, na América o negro também parte em desvantagem porque “o preço a pagar por um erro é mais alto para ti do que para os teus conterrâneos, e, para que a América consiga justificar-se, a história da destruição de um corpo negro tem de começar sempre com o erro dessa pessoa, real ou imaginado” (Entre Mim e o Mundo).
Esta consciência da fragilidade do corpo negro dentro de uma história de ataques sistemáticos condicionou a educação e o comportamento de gerações e gerações de negros. Qualquer atitude fora dos padrões de submissão e obediência definidos pelos brancos podia ser entendida como insolência e ameaça, logo, como justificação para a violência. Responder a um insulto, fazer gestos mais bruscos, olhar o outro nos olhos, exigir respeito, eram comportamentos que podiam, de um momento para o outro, abrir as portas do inferno e fazer recair sobre o corpo negro a violência pronta a explodir da população branca.   Por exemplo, os espancamentos com chicote, um dos instrumentos de terror preferidos do Ku Klux Klan, visavam acima de tudo lembrar a nova geração de negros – já nascida em liberdade, menos submissa, mais afirmativa – do antigo estatuto: “o velho negro aquiescente dos tempos da escravatura tinha dado lugar aos seus descendentes mais assertivos e, por medo, os brancos tinham procurado novas maneiras de manter a sua hegemonia.” A consciência do perigo levou os pais negros a “suprimir energicamente aquelas qualidades dos seus filhos – a auto-confiança, a curiosidade, a ambição – que poderiam ser erradamente interpretadas pelos brancos como insolência ou arrogância.”
Claro que sempre houve excepções e negros que, ao longo da história, não tiveram receio de afirmar a sua vontade e liberdade enquanto indivíduos. Um dos mais importantes e carismáticos foi o pugilista Jack Johnson, o primeiro negro a conquistar o título mundial de pesos-pesados. Numa época em que as leis de segregação racial eram o lado suave dos linchamentos, Johnson gabava-se de sair com mulheres brancas. Foi casado três vezes e sempre com mulheres brancas. Após o casamento com Lucille Cameron, em 1912, dois pastores dos estados do Sul apelaram ao linchamento de Johnson, que chegou a ser condenado a uma pena de prisão efectiva acusado de “transportar mulheres de um Estado para o outro com intenções imorais”. Para escapar à prisão, Johnson fugiu com Lucille para a Europa. No entanto, nunca perdeu a sua dignidade de homem livre: “quero declarar que não sou um escravo e que tenho o direito a escolher a minha companheira sem a autorização de qualquer homem. Tenho olhos e tenho um coração e quando não forem eles a dizer-me quem devo ter como companheira quero que me mandem para um asilo de lunáticos”, disse ele em tribunal.
Independentemente de casos excepcionais, como o de Jack Johnson (e ele também um exemplo de como a emancipação dos negros passava, e muito, pela afirmação do corpo), essa vulnerabilidade criou uma cultura de medo que, por sua vez, criou a cultura de resposta ao medo de que fala Ta-Nehisi Coates: uma cultura (e um medo) que estava nos “rapazes extravagantes do meu bairro, nos seus grandes anéis e medalhões, nos seus quispos largos e sobretudos com golas de pêlo, a sua armadura contra o mundo. […] Recordo agora esses rapazes e tudo o que vejo é medo, vejo-os reunindo força contra os fantasmas dos velhos dias de má memória, quando as turbas do Mississípi cercavam os seus avôs e pegavam fogo ao corpo negro para depois lhe cortar os ramos.” Coates conta como viveu com esse medo ao longo da sua adolescência, enredado num problema sem resolução satisfatória: “Se não fosse violento o suficiente, tinha de pagar com o meu corpo. Se fosse demasiado violento, tinha de pagar com o meu corpo.”
A Salvação do Corpo Negro
É este o paradoxo que emerge subtilmente em Moonlight através da história do protagonista desde a infância – em que ele paga com o corpo por não ser violento o suficiente – passando pela adolescência – em que paga com o corpo por ser demasiado violento – até à idade adulta em que usa o corpo como armadura para se proteger desse mundo que fareja a sua vulnerabilidade e  que a qualquer momento o pode atacar. Para Black, reinventar-se enquanto pessoa significar reinventar o próprio corpo, um corpo musculado, forte, sólido. Só o corpo pode libertar o corpo. O amigo, que o reencontra muitos anos depois, diz-lhe: “Agora és um duro” e “esse não és tu” e ele responde-lhe, como quem revela o segredo do disfarce perfeito, “construí-me do zero.”
A história dos negros na América, da cultura popular à cultura das ruas, da violência enquanto estilo de vida à glorificação do corpo no hip-hop (em que os grilhões dos escravos são ostensivamente trocados pelas correntes de ouro), da construção da personalidade na ausência da figura paterna (esse vazio que tudo absorve e que também está em Moonlight), é uma luta pela afirmação do corpo travada em terrenos complexos, onde a segurança pode ser garantida pela invisibilidade ou pela visibilidade, em que os mitos retrógrados na cabeça dos brancos sobre a apetência sexual dos negros pode ser usada contra eles, em que o corpo já não é o campo de batalha mas a arma de arremesso.
Para quê falar em transcendência ou no espírito quando isso quer apenas dizer que ainda não se consegue garantir a segurança do corpo? Jesus Cristo disse “não temais os os que matam o corpo e não podem matar a alma.” Mas e se a alma e o corpo forem um só? “Acreditava, e acredito ainda, que somos os nossos corpos, que a minha alma é a voltagem de que os meus neurónios e nervos são os condutores, e que o meu espírito é a minha carne”, escreve Ta-Nehisi Coates, “acredito que, quando eles destroem o corpo, destroem tudo, e sei que todos nós – cristãos, muçulmanos, ateus – vivemos com medo desta verdade.” Essa verdade é a fonte de todos os medos e esse medo é a essência da experiência negra na América. Na história de Moonlight, na pequena história de Little/Chiron/Black, está concentrada a grande história da destruição e da salvação do corpo negro na América.


Bruno Vieira Amaral
 
 
 
 

domingo, 14 de maio de 2017

O Amor Negro, pelo Dr. Charles Fouqué.

 
 
 


«O Incubato – para possuir uma mulher, o Incubo emprega várias maneiras. A mais simples consiste em incarnar-se no macho, no momento do coito.
Muitos espiritistas lhe dirão que a encarnação temporária de um espírito no corpo de um vivo é coisa frequente».
 
«O sucubato é o coito entre um homem vivo e um fantasma ou demónio feminino.
Citam-se menos casos do que a respeito do incubato.
Os mágicos pretendem que é por intermédio dos súcubos que os íncubos arranjam a semente humana que lhes é necessária para preparar filtros maléficos para suas feiticeiras, ou para engravidar as mulheres de carne, com filtros de suas obras».
 




sábado, 13 de maio de 2017

Simpósio com os Imortais.









 

Sei que foi numa quinta-feira de Maio ou Junho de 1976, mas não sei especificamente a data precisa. Encontrando-me no Rio de Janeiro em ano sabático, vi-me um dia convidado a assistir à sessão de chá das quintas-feiras da Academia Brasileira de Letras, a convite do escritor e académico maranhense Josué Montello, que viria a ser Presidente da Academia entre 1993 e 1995. O convite deve-se ao facto de eu haver travado conhecimento com uma filha de Josué Montello, por ocasião de uma comunicação feita por mim na Universidade Federal Fluminense em Niterói, e de, com ela e o genro do ilustre académico, ter passado um domingo em Teresópolis, na opulenta casa de campo de um ricaço construtor luso-brasileiro, vago parente meu,  por via materna. Embora quase semi-analfabeto, esse “vago parente meu” podia dar-se ao luxo de hospedar na sua vivenda pessoas de alto gabarito, tais como a filha e o genro do “imortal” Josué Montello, sendo o genro advogado e vereador da Prefeitura do Rio de Janeiro, a quem aliás o “vago parente meu” tinha doado uma boa parcela de terreno para eles poderem construir uma casa de campo junto da dele, em compensação de rotineiras e inócuas facilidades burocráticas com que o jovem advogado e vereador o tinha mimoseado.
Quando cruzei os umbrais da casa de Machado de Assis (era assim também chamada pelo facto de o autor de Dom Casmurro ser um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e o seu primeiro Presidente, em regime de perpetuidade), já quase todos os imortais (quarenta, à imitação da prototípica e celebrada Academia Francesa), os membros correspondentes estrangeiros (vinte, segundo os estatutos) e os convidados desse dia aí se encontravam. Introduzido imediatamente na Sala de Chá pelo meu anfitrião, Josué Montello, fui por ele apresentado ao Presidente da Academia dessa época, Austregésilo de Athayde. Seguidamente, uma após outra, enquanto tomava o meu chá e circulava na sala, vim a descobrir uma série de rostos conhecidos, uns pessoalmente – Adriano Moreira, membro estrangeiro da Academia - e outros de fotografia e de televisão: Marcello Caetano, Hermano Saraiva (então exilados no Brasil, como Adriano Moreira), Cyro dos Anjos e João Cabral de Melo Neto, ambos membros da Academia e escritores, naturalmente: romancista o primeiro e poeta o segundo.
Por meio de Adriano Moreira, que conhecera nos Estados Unidos e via com alguma frequência no Rio de Janeiro, onde ele vivia com a família, e de quem me tornara amigo, já sabia que ele andava de candeias às avessas com os outros dois membros correspondentes estrangeiros portugueses: Marcello Caetano e Hermano Saraiva. Pelo meu lado, de bem com todos eles, a todos cumprimentei e com todos troquei algumas impressões, não podendo esquecer a cortesia e a afabilidade com que Marcello Caetano e Hermano Saraiva tiveram a gentileza de me tratar, tendo-me o primeiro dito, para grande ... e agradável surpresa minha, modéstia à parte, que tinha lido “com gosto e proveito” alguns artigos meus e a minha edição do Cancioneiro de Dona Cecília de Portugal, publicados na revista Ocidente, de Lisboa, e tendo-me dito o segundo que estava à espera da publicação da minha tese de doutoramento sobre Fernão Álvares do Oriente, de que ele tinha lido um excerpto e a conclusão, publicados no suplemento literário do Diário Novidades, de Lisboa: que achava interessantíssimas e de grande relevância as referências de Fernão Álvares a Camões. (Apresso-me a proclamar alto e bom som, entre parêntesis, que ardentemente espero que essas leituras de Hermano Saraiva em nada tenham contribuído para ele vir a engendrar aquela coisa fantasista, mal parida e malfadada que dá pelo nome de Vida Ignorada de Camões. E entre parêntesis também, e em nome da justiça equitativa, apresso-me a contrabalançar esta observação com um facto de certa importância: a contribuição de Hermano Saraiva para levar ao conhecimento das grandes massas do público português tesouros ignorados da cultura plurissecular portuguesa, através de programas televisivos bastante apreciados pelo seu carácter popular.)
Nessa tarde de chá na Academia Brasileira de Letras, Cyro dos Anjos repetiu-me oralmente, muito sensibilizado, acentuava ele, o que já me tinha  dito por carta, em referência a um artigo meu sobre o seu romance Abdias, que tinha sido publicado no suplemento literário de um jornal de Moçambique, graças à amabilidade de Montezuma de Carvalho, juiz em Lourenço Marques, que eu conhecera no Verão de 1972, por ocasião da minha longa visita a Angola e a Moçambique. Aproveitei também esse breve encontro com o prestigioso jornalista, com o alto funcionário público, a nível estadual e federal, e com o professor universitário, para lhe dizer do enorme interesse com que os meus alunos e eu líamos e analisávamos nos cursos de literatura brasileira o seu romance mais conhecido: O amanuense Belmiro.
 Com João Cabral de Melo Neto, troquei algumas impressões sobre a sua poesia granítica e, principalmente, sobre o prazer com que os meus alunos e eu líamos o seu nunca por demais celebrado poema dramático: Morte e Vida Severina. Tendo-lhe perguntado quando teríamos novo livro seu, obtive como resposta um lamento inesperado e meio bizarro. É que, por esse tempo, ele tinha praticamente a musa em férias, por se ver forçado a pagar um alto preço pelas honras de ser no Senegal o decano do corpo diplomático, uma vez que esse cargo, que ele acumulava com o de embaixador na Mauritânia, no Mali e na Guiné-Conakry, lhe consumia todo o tempo que, noutras circunsâncias e noutros países, seria de lazer, querendo dizer com isso que se via obrigado a prestar toda a espécie de serviços, de primeira necessidade, sobretudo aos embaixadores caloiros, a começar pelo alojamento e a acabar pela procura de produtos alimentícios e de gasolina para os automóveis.  
Com uma simplicidade exemplar e com a cortesia que distingue os diplomatas brasileiros, justamente orgulhosos por fazerem parte de uma escola de diplomacia, a do Itamaraty ou Casa de Rui Barbosa, que pede meças à do Vaticano e à do Palácio das Necessidades, João Cabral de Melo Neto emocionou-se ao lembrar-lhe as apoteoses acontecidas em teatros de Lisboa, Coimbra e Porto, por ocasião da representação da sua Morte e Vida Severina. É que no final da representação tinha sido ovacionado e levado em ombros por actores e membros da assistência.
Voltando aos três membros correspondentes portugueses, presentes nessa sessão de chá das quintas-feiras da Academia Brasileira de Letras, quero frisar apenas uma faceta peculiar da personalidade de Adriano Moreira que eu já conhecia, mas que fiquei a conhecer melhor, por me ser dada a oportunidade de testemunhá-la em acto: a presença, num espaço relativamente exíguo e fechado, de dois adversários políticos com quem ele estava de relações cortadas, não obstou a que se sentisse e comportasse com o mesmo à vontade com que se sentiria e comportaria se eles não estivessem presentes. Era o transmontano a viver ao vivo o seu ideal de dignidade humana, de autenticidade, de integridade e de estoicismo por que sempre se tem pautado a sua vida pública e privada.  
Ouviu-se um som inefável, muito provavelmente em conformidade com um ponto do ritual mais vetusto e venerando que a própria Academia. Os imortais transpuseram solenemente, subtilmente e pensativamente os umbrais misteriosos do Sancta Sanctorum, para aí perorarem, ponderarem e pontificarem sobre matérias transcendentais e questões de lana caprina, enquanto nós, os simples mortais, regressámos à rotina prosaica e cinzenta dos filisteus.   
 
António Cirurgião