terça-feira, 23 de dezembro de 2014

À procura de Nemo.

 
 

 
 
 
         A cena, épica, decorre em Matosinhos, com figurantes  chineses. À esquerda, a pente-zero, o corpulento técnico de reinserção acompanha a precária de um ex-recluso a quem o vício queimou a vida. Atordoado, o rapaz está uma couve. Galega. Mal se tem nas pernas. Enquanto isso, os seus neurónios mantêm a luta grevista, solidários com o pessoal da TAP. Questionado sobre o que acha daquela lota nortenha, o pulseira electrónica  diz que ali viu cores variadas e «todo o tipo de seres que vivem debaixo de água». Pois ele há as lontras, de facto. E os pinguins do Mondego. Muita vida marinha existe neste Bolhão da Cultura. Antes que a coisa descambe ainda mais, o técnico clama «Fantástico!» e dá por terminado o directo para as Tardes da Júlia. O vídeo deambula agora por tachos com morcelas, enchidos de fumeiro, produtos de Montalegre. Mas a alucinação regressa, atroz. Julgando-se perto de casa, no Fluviário de Mora, o rapaz vê aranhas gigantes a saírem de alguidares de plástico, aquários de águas correntes, até mexilhão do Alasca. Um dia, tudo isto dará um livro. E o livro dará prémio. E do prémio uma viagem. E da viagem mais TV. É desta pantominice toda que se vai fazendo uma coisa a que os antigos chamavam «cultura». Aquacultura portuguesa, sempre à procura de Nemo.



 
 
 
 
 
 

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