domingo, 21 de dezembro de 2014

Dany le Rouge.

 
 
 
(recordando Daniel Cohn-Bendit, Maio 68 e a última barricada erguida
no Quartier Latin de Paris)
                                                                                               
 
“La vraie vie est ailleurs.”
Rimbaud
 
 
Em Abril de 2014, Daniel Cohn-Bendit, o famoso e jovial Dany le rouge”, o rebelde franco-alemão de Maio 68, no final da sua longa carreira de deputado despediu-se do Parlamento Europeu, recordando que, tendo nascido em 1945 em Montauban, filho de alemães exilados, quando era menino, se tivesse dito aos pais que dali a 50 anos teria deixado de haver fronteiras entre a França e a Alemanha, aqueles decerto lhe teriam respondido que a sua criança falava demais e dizia patetices. [1] Concluía Daniel o seu discurso acrescentando que aquela profecia seria, afinal, a sua própria história e também a de toda a Europa. Esta despedida de Cohn-Bendit recordou-me sobretudo que, para a minha geração e para aqueles que tinham vivido os acontecimentos de Maio-68 em França – eu vivera-os na província, na pacata Estrasburgo, onde então preparava, graças a uma bolsa da Fundação Gulbenkian, uma tese de doutoramento em Sociologia –, Dany o Ruivo fora um dos chefes da revolta estudantil, iniciada em Nanterre – Nanterre-la-Folie  – com o Movimento do 22 de Março, que havia de despoletar, no Quartier Latin, com a primeira barricada erguida no dia 10/11 desse mês e, depois, com um milhão de manifestantes desfilando no dia 13, da praça da Bastilha à praça Denfert-Rochereau, prodigioso movimento de protesto amplificado depois no resto da capital e, por fim, em várias cidades francesas, como foi o caso daquela plácida e conservadora Alsácia onde eu então residia, transformando-se numa crise política, sindical e de civilização que abalou todo o hexágono, a ponto de toda a França ter paralisado com as greves de 6 milhões de trabalhadores e a interrupção de todos os transportes devido ao fecho das bombas de gasolina.
A crise estava para ficar, apesar do contra-ataque do general, primeiro com os acordos celebrados com as diversas organizações sindicais, em Grenelle (27-V) [2] e ainda com a súbita e dramatizada ida de Gaulle a Baden-Baden (29-V) para se avistar com o general Massu, comandante das tropas francesas estacionadas na Alemanha Federal, e a triunfal manifestação de apoio à V República (30-V), seguida da eleição duma chambre introuvable (Junho de 68) em que a nova maioria gaulista obtinha 358 lugares num parlamento de 485 deputados. Vitória de Pirro pois, na verdade, ocultava o facto de que o regime autoritário, começado dez anos antes com a crise argelina, saíra tão abalado dessa crise que o próprio chefe de Estado, perante o resultado negativo do seu referendo de 28-IV-1969, abandonaria o poder, retornando a Colombey-les-Deux-Églises, onde faleceria em 1970.
No meio de todo este inesperado vendaval, estava um estudante ruivo cujo rosto trocista diante dos polícias da CRS seria difundido pelas fotos dos jornais e, em breve, pelos cartazes produzidos pela frenética contestação sessenta-e-oitentista, inesperada revolução que usava de uma linguagem onde havia tantas reminiscências e influências de Rimbaud, Artaud e outros dissidentes e revolucionários do século XIX e XX como Marx, Bakunine e Trotsky, passando pelos surrealistas, além de um punhado de pensadores coevos como Herbert Marcuse, autor d’O Homem Unidimensional (1964, traduzido em francês em 1968), Raoul Vaneigem, autor do Traité du Savoir-vivre, ou Guy Debord com La Société du Spectacle, editados ambos em 1967, além de outros autores dos anos 30, subitamente redescobertos, como Wilhelm Reich, com A Revolução sexual (1936), e Paul Nizan, com Les Chiens de Garde (1932). Compreende-se, assim, que um dos panfletos do grupo de Nanterre se intitulasse Pourquoi des sociologues?
Lendo aquele discurso de despedida do político ecologista e federalista que fora antigo estudante de sociologia de Nanterre e fizera tremer as instituições político-sociais da França, agora no termo duma longa carreira como deputado franco-alemão europeu e co-presidente do grupo ecologista, [3] recordei como eu mesmo, estudante de Sociologia na Alsácia, me sentira fascinado há tantos anos pelo Gavroche de 68 em Paris, pois algo do seu incandescente rosto jovial acabara, aliás, por se misturar com a minha vida pessoal, antes de mais porque a minha mulher e eu escolhemos o nome do nosso filho varão – o Daniel, nascido em 1969 em Estrasburgo – a partir do nome próprio desse irrequieto anarquista. [4] E ainda porque o seu caso nos levou, estudantes da universidade alsaciana, a levantar-nos quando Cohn-Bendit foi interdito de regressar a França (21-V) por ter pronunciado, em Amesterdão, palavras ofensivas do brio francês: dissera que se devia rasgar a bandeira francesa e substituí-la pelo estandarte vermelho…  A interdição levara estudantes de todas as universidades francesas a manifestarem-se ao grito de “Somos todos judeus alemães!”, estribilho a que, uma vez mais, alguns cartazes deram expressão visual, com a ligeira alteração para “Somos todos judeus e alemães” ou “Somos todos indesejáveis” – com o irrequieto ruivo a rir-se na cara dum CRS. Uma gaffe de Georges Marchais, o futuro secretário-geral do PCF, ao classificar Cohn-Bendit como “um anarquista alemão” (L’Humanité, 3-V), levaria ao paroxismo este slogan. A verdade é que, a 28 de Maio, Dany reaparecia clandestina e inesperadamente na Sorbonne (28-V) ocupada pelos estudantes, aparição que incendiou ainda mais os ânimos. Acrescente-se que o Partido Comunista francês nunca estimara o movimento gauchista nem o seu líder Cohn-Bendit ou os seus inspiradores ideológicos, como Marcuse ou Vaneigem. Compreende-se, assim, que o PCF, aferrado ao estalinismo genético que lhe ficara desde o pré-guerra, tivesse criticado com azedume Maio 68 desde os seus começos, considerando-o um movimento contra-revolucionário, sendo hostil a Cohn-Bendit, tido este como um anarca que, ainda por cima, era alemão. Como sintetiza Michel Onfray no volume 8º da sua Contre-Histoire de la Philosophie, intitulado Les Consciences Réfractaires: “Maio 68 envelheceu dum só golpe esse Partido abandonado pela História. Mal os primeiros brilhos da primavera de Maio incendiaram o céu de Paris, o PCF deixou de viver – e os seus intelectuais orgânicos com ele. Doravante será preciso contar com uma nova geração.” [5]
 
 
 
 
 
Foi então, no meio desta celeuma, que nós, os estudantes da capital alsaciana, solidários desde o primeiro dia com os colegas enragés de Paris, decidimos apoiar o nosso colega Dany, atravessando juntos,  a correr, a ponte Estrasburgo-Kehl sobre o Reno, para protestarmos contra  a medida policial aos gritos de “Somos todos judeus alemães!” E durante essa corrida, feita por muitas centenas de estudantes, a ponte oscilava e dançava como se fosse de borracha, o que, na altura, me deixou inquieto. Chegados a Kehl, soltámos mais uns gritos de apoio a Daniel e tornámos, em passo normal, de regresso a Estrasburgo. Os CRS, sombrios e imóveis, de bastão na mão, assistiam a todos estes desmandos fronteiriços sem deterem ninguém. Em 22-V, os estrasburgueses – que o diário alsaciano dizia ser “une population où la tradition est fortemente enraciné” – sofreram um desgosto ao descobrirem indignados que, na noite anterior, o monumento de mármore branco aos Mortos das Duas Guerras tinha sido pintado de vermelho ou, como dizia o mesmo acaciano jornal, fora “maculado por vândalos”… [6] E, a UFAC (Union Française des Associations de Combattants et de Victimes de Guerre) do Bas-Rhin convocava para o dia 28-V, às 18h30, uma manifestação diante do monumento profanado a tinta vermelha, para desaprovar esse “acto odioso”, solicitando a toda a população  para participar nessa “cerimónia de recolhimento”.[7]
 
 
 
 
 
 
 
         Em 11 de Junho, aproveitei uma boleia de automóvel e fui a Paris na esperança de que ainda por lá houvesse quem fosse capaz de levantar uma derradeira barricada – e, por extraordinário acaso, na noite que, entrando eu no Bairro Latino, me dirigia a pé para o meu hotel no Quartier Latin, vi um bando de jovens atarefados numa rua junto do Boulevard Saint-Michel, já não me lembro exactamente qual, a erguer uma barricada, com uma rapidez que muito me impressionou. Primeiro, cortavam o asfalto com enormes tesouras de alfaiate, dobrando, em seguida, o asfalto como quem enrola um tapete pesado e, em seguida, começavam a levantar com barras de ferro os cubos de granito branco que lhe serviam de base e – nobilíssima visão! – aparecia por baixo, no final da operação que me lembrava as velhas gravuras das barricadas de 1830 ou de 1848, uma fina camada de areia amarela, o que deu origem à poética metáfora (realista) de que, “sous les pavés, il y a la plage!”: ela lá estava, debaixo das pedras brancas e do alcatrão escuro, a praia escondida, porque há uma praia oculta em cada rua duma grande cidade viva, revolucionária!
A verdade é que, estando eu, com uma pequena mala na mão, a assistir tranquilamente a um começo de barricada, ocorreu-me, a dada altura, que a polícia, se me detivesse ali, não tardaria, em seguida, a expulsar-me de França como um estudante subversivo que viera sem razão nenhuma da Alsácia a Paris, alegando que preparava em Estrasburgo um doutoramento na universidade local, mas na verdade para dar uma ajuda aos enragés saudosos de Maio 68. De modo que me levantei e fui até ao hotel, onde me instalei no meu quarto, feliz por ter presenciado o histórico espectáculo de uma barricada em Paris durante a Revolução de 68. Na manhã seguinte, pelo noticiário da TV, ouviria o relato do que fora essa noite de agonia final dos alegres distúrbios de Maio-Junho de 1968 que acabariam por deitar abaixo De Gaulle e restaurar a direita do general pelas mãos do seu pompidoliano sucessor, espécie de Ubu educado na banca Rotschild e não nos maquis do Vercors: esta transição marcava, no fundo,  o fim histórico do gaulismo heróico, nascido em 1940 como um acto de suprema rebeldia patriótica, recusando o governo de demissão e colaboração de Pétain com o ocupante hitleriano, regressado, por fim, ao poder com a crise argelina de 1958 e a instauração da V República, e por fim, passados dez anos de regime autoritário sob aparências democráticas – aquilo a que Mitterand chamara o sistema do “golpe de Estado permanente” –, degenerara numa insuportável modorra que Pierre Viansson-Ponté resumiria num título profético do seu artigo em Le Monde: “Quand la France s’ennuie…” (15-III-68). A revolução singular de Maio 68 seria, dest’arte, a resposta explosiva e frenética a este profundo enfado que durara uma década desde que o antigo autor do apelo do 18 de Junho de 1940, iniciada no exílio inglês a redenção da França, a transformaria, desde 1958, no gaulismo do tédio conservador.



 
Hoje, passado um ror de anos sobre essa cada vez mais longínqua e incompreensível revolução de 68 em França, recordo sobretudo a cena que eu mesmo vivi e presenciei de estudantes a levantarem uma barricada no Quartier Latin onde tudo começara no mês de Maio, a ponto de o nome de Gay-Lussac recordar doravante a toponímia duma revolta estudantil que abalou os fundamentos existenciais e culturais dum sociedade e dum regime, não o nome dum químico francês que enunciou a lei da dilatação do gás. A verdade, em suma, é que esse longínquo e perdido ano de 1968, meses que Yaweh guarda no seu álbum de Horas Selectas sub specie temporis e jóias esquecidas, se vai cobrindo do verdete de tudo o que se foi tornando temps perdu, ou Passado que os romancistas e os historiadores porfiam em recuperar… De qualquer modo, para mim, é o que recordo dessa a “revolução” francesa de Maio 68 e os alegres motins estudantis e ambiciosas greves gerais que então paralisaram a França toda – quando em Estrasburgo acompanhei os meus colegas a ocuparem sem nenhum desacato as nossas faculdades e a instalarem-se no meio de venerável praça Kléber, colocando grades na entrada das ruas que dela partiam, declamando slogans como “é proibido proibir”, “tomem os vossos desejos por realidades”, ou “a desordem é ele!” [8] (i.e., De Gaulle), aguardando o ataque dos CRS, que nunca pensaram em fazê-lo e, por fim, a atravessarmos em passo de corrida a longa ponte sobre o Reno entre a França e a Alemanha, esse bando de enragés, indesejáves, contestatários gauchistas e, sobretudo, inimigos das velhas conchas vazias de partidos como o anémico espantalho estalinista do PCP (foi com Maio 68 que o comunismo entrou em falência irrevogável na consciência colectiva daqueles ano), bradando, com uma inesperada fibra europeia e cosmopolita, que éramos todos judeus alemães.…
 
 
 
 
 
Na manhã seguinte a cada grande feito revolucionário – por exemplo, pintar de vermelho o monumento de pedra branca aos mortos das Duas Guerras, na Praça da República –, comprávamos Le Monde para saber como ia a Revolução em França e, na verdade, tudo se resumia exclusivamente ao psicodrama encenado em Paris e aos rituais distúrbios estudantis e desmandos policiais dos agentes da CRS, com as barricadas erguidas pelos primeiros e logo cheias de fumo das granadas lacrimogéneas dos segundos, enquanto De Gaulle parecia ter-se esfumado de vez, até que, por fim, saindo do seu completo silêncio e dando um salto à Alemanha para conferenciar com o chefe das forças militares estacionadas ali, repôs tudo miraculosamente, marcou novas eleições que lhe deram a tal chambre introuvable, retomou o poder e a França voltou à sua vida normal, os graffiti foram apagados das paredes, as barricadas desfeitas, os pavés aninharam-se de novo sobre as suas praias amarelas, o alcatrão cicatrizou e os estudantes regressaram às suas ocupações. E, cruel ironia da História, De Gaulle caiu no ano seguinte.
Um derradeiro detalhe desses anos heróicos gostaria de recordar ainda: o Café Minotaure, junto ao cais do Maire Dietrich. Fora ali, na casa do famoso presidente da câmara de Estrasburgo que um jovem oficial dum regimento de marselheses, então em serviço na Alsácia, em 1792, tocara ao piano e cantara pela primeira vez aquele inspirado e patriótico trecho musical que viria a ser mais tarde o hino francês. Ali, todos os dias da semana, de regresso das manhãs passadas a reunir material para a minha tese de doutoramento, na sala 4 da imponente Biblioteca Universitária, reservada aos thésards, parava uns minutos antes de ir almoçar à cantina universitária, mesmo ao lado, na avenida da Forêt Noire.
 


 
Era no estreito e sempre apinhado Café Minotaure que se reunia o reduto mais activo dos gauchistas estrasburgueses, todos eles judeus e trotskistas – as duas expressões eram quase sinónimas –, ali planeando algumas das acções que o Comité Vietnam National depois faria. Foi esse convívio com alguns colegas que eu conhecia da Faculdade de Letras, não muito distante daquela esquina junto a um dos canais do rio Ill, que tive oportunidade de me associar a diversas manifestações que a JCR vinha realizando desde 1967, contra a intervenção norte-americana na Indochina, tentando eu explicar àqueles jovens empenhados em combater a intervenção americana nos arrozais vietnamitas que o meu país mantinha três guerras em África, decerto menos conhecidas que as do intrépido Vietcong, mas de algum modo feitas por povos que queriam também sacudir o jugo colonial que os oprimia. Embora a peça de Peter Weiss, O Canto do Papão lusitano, [9] estreada em 1967 em Berlim, Estocolmo e logo representada também noutras cidades europeias como Genebra, denunciando o colonialismo português, tivesse tornado conhecido aquele Vietname africano que a pequenez do nosso país reduzira a uma tragédia quase clandestina, os gauchistas alsacianos nada sabiam desses conflitos em que a derradeira nação colonial europeia enfrentava movimentos independentistas cujos dirigentes até o papa Paulo VI receberia no Vaticano. Em suma, estas minhas prédicas de agitprop eram escutadas sempre com certo cepticismo no Café Minotaure, já que a geografia não era o forte dos trotskistas franceses. De modo que, apesar de os acompanhar, ao lado de minha mulher, em diversas acções de rua pela paz no martirizado Vietname – que até 1954 a França tinha tiranizado com colonizadora –, nunca logrei que aqueles estudantes, futuros militantes com rubro ardor em Maio 68, incluíssem as guerras de libertação de Angola, Guiné Bissau ou Moçambique entre os movimentos a que davam a sua ilimitada generosidade de revolucionários en herbe. Não consegui, por exemplo, que os gauchistas do Minotaure se decidissem a concentrar-se com bandeirolas e gritos de protesto, diante do consulado luso na capital da Alsácia, apesar de algumas das manifestações deles se fizessem em torno do imponente edifício do consulado dos Estados Unidos da América, a poucas centenas de metros do nosso pequenino local consular.
 
 
 
 
 
De qualquer modo, passada a révolution introuvable – como lhe chamou Raymond Aron [10] –, chegado o Verão de 1970, concluídas as minhas incessantes idas diárias até à Biblioteca Universitária, encafuado na sala 4 dos thésards, a minha tese de doutoramento estava pronta, sendo impressa a stencil, entregue e finalmente defendida com sucesso diante dum júri da Universidade de Estrasburgo, o que me libertava de vez daquela desterro numa cidade que, no fundo, nunca consegui amar. Lumières et Société Essai sur la Sociologie des Lumières en France, 1751-1771, assim se chamava o produto de três anos naquele glacial stalag alsaciano, com a grilheta da tese presa aos pés… Entretanto, em 1969, o homem chegara à Lua, eu era mais uma vez pai, agora com o nascimento de Daniel – homenagem a Cohn-Bendit – e o destino, num momento de rara dádiva, me permitia ingressar, pouco depois, como professor na Universidade da Provença, o que nos livrava a todos, à minha mulher e aos nossos filhos, do clima hostil da Alsácia e nos prolongaria por quatro anos a nossa expatriação francesa, aguardando o D. Sebastião que a guerra colonial nos mandaria para acabar com o pesadelo do regime opressivo que vigorava há quase meio século na nossa pátria.
 
Monte Estoril, 15-XII-2014
 
 
 
Bibliografia essencial:
 
Sobre Maio 68:
Christine Faure, Mai 68 Jour et Nuit, Paris, Gallimard,1998, ilustr.
Raymond Aron, Le Révolution introuvable, Paris, Fayard, 1968.
 –Sylvain Zegel, Les Idées de Mai, Paris, Gllimnard, 1968.
 
Sobre De Gaulle e a crise de Maio-Junho de 68:
– Jean Touchard, Le Gaullismse. 1940-1969, Paris, Éditions du Seuil, 1978 (o nome de D. Cohn-Bendit não é mencionado).
– Alain Peyrefitte, C´Était De Gaulle, vol.IIII,  Paris, Le Grand Livre du Mois, 2000 (extenso e detalhado estudo sobre De Gaulle, com uma análise atenta da crise de Maio 68).
– Paul-Marie de La Gorce, De Gaulle, Paris, Perrin, 2000 (capítulo extenso sobre 68, intitulado “Perigo de morte em Maio”, pp. 1213-1271).
– Serge Bernstein, Histoire du Gaullisme, Paris, Perrin, 2005 (escassas páginas dedicadas à crise de 68).
– Claire Andrieu, Philippe Braud e Guillaume Piketty (dir de), Dictionnaire De Gaulle, Paris, Laffont, 2006 (entradas sobre D. Cohn-Bendit, Maio 68, Massu, etc.).
– Eric Roussel, De Gaulle. II. 1946-1970, Paris, Perrin, 2007 (detalhada história política do período Maio-Junho 68).
 
Obras de Cohn-Bendit:
Jacques Sauvageot, Daniel Cohn-Bendit, Alain Geismar, Jean-Pierre Duteil, La Revolte étudiante. Les Animateurs parlent, Paris, Éditions du Seuil, 1968.
D. Cohn-Bendit, Nous avons tant aimée la Révolution, Paris, Éditions du Seuil, 1988.
– D. Cohn-Bendit, Une Envie de Politique, entrevistas com Lucas Delattre e Guy Herzlich, Paris, Le Monde, 1998.
D.Cohn-Bendit,  Forget 68, Paris, Éditions de l’Aube, 2008.
 






[1] Veja-se El País, 20-IV-2014, suplemento “Domingo”, La UE es un enano maniatado por los gobiernos”, p.5, com foto de D. Cohn-Bendit.


[2] Pompidou forçou o patronato a fazer fortes concessões às exigências das diversas formações sindicais apoiantes da greve geral em curso (GGT, FO, CFDT) e que acabariam por pôr em perigo a economia francesa, assim como a moeda nacional, mas que permitiam que os operários voltassem depressa ao trabalho e se restabelecesse a calma social: o salário mínimo passava de 2,20 para 3 francos, os salários reais foram aumentados 7% em 1/VI e de 3% suplementares em 1/X, assim como os direitos sindicais nas empresas seriam alargados. Todavia, os acordos de Grenelle foram repudiados pelas bases operárias que, por instigação da minoria sindical “gauchista”, votaram por clara maioria a continuação da greve.


[3] Daniel Cohn-Bendit, nascido em Montauban, em 4-IV-1945, expulso de França como cidadão alemão (em 1959 optara por essa nacionalidade por preferir fazer os seus estudos secundários na Alemanha), filiar-se-ia depois dos acontecimentos de Maio de 68 no partido alemão Die Grünen, sendo mais tarde, nas eleições europeias de 2009, deputado no parlamento de Estrasburgo (1994 a 2014, defendendo um ecologismo de raiz libertária). O seu pai, Erich Chohn-Bendit, devido ao triunfo do nazismo, partira em 1933 com a sua mulher Herta para França, onde convivera com outros expatriados alemães que ali se encontrava exilados, como Walter Benjamin. Heinrich Blücher e Hannah Arendt. Em França o casal dirigiu a “Colonie Juliette”, destinada aos filhos de deportados judeus, voltando para Berlim com a  sua mulher em 1959. Quanto a Daniel, terminados os seus estudos secundários na Alemanha Federal, inscreveu-se, em 1966, como aluno de Sociologia em Nanterre, tendo sido detido pela primeira vez pela polícia francesa por causa da solidariedade dada a um grupo de colegas que tinha ocupado pavilhões da cidade universitária em Paris ali realizando manifestações contra a guerra americana no Vietname, tendo o reitor Grappin solicitado a sua expulsão do território, o que não chegou a acontecer. Em Março de 1968 fundara o grupo anarquista Movimento de 22 de Março. Expulso de Nanterre, inscreveu-se então na Sorbonne, já que tinha residência em Paris. Foi de novo preso por causa duma queixa dum colega que se dizia ter sido vítima de violência sua e ainda por ter editado em panfleto explicando como se fabricavam cocktails Molotov, mas acabaria por ser solto. A 6-V, em altercação com um polícia da CRS, é fotografado a rir-se na cara deste, o que depressa se tornaria num poster célebre e faria dele uma figura mediática identificada doravante com a crescente agitação universitária, a qual em breve levantaria as erecção das primeiras barricadas no bairro Latino de Paris. A 21-V era objecto duma medida de interdição de residência no território francês por ter feito afirmações, na Holanda, acerca da necessidade de rasgar a bandeira francesa, substituindo-a pelo pendão vermelho, embora voltasse clandestinamente a França e aparecesse na Sorbonne, onde foi vitoriado, após o que abandonou de novo do país. Em 12-VI, os grupos anarquistas ligados ao movimento estudantil do mês anterior foram todos dissolvidos. Cohn-Bendit publicou vários textos de defesa dos seus ideais anarquistas e federalistas europeus: O Gauchismo, Remédio para a doença senil do comunismo (1968), Forget 68 (2008), La Révolution étudiante, Nous Avons tant aimée la Révolution,(1986) Que Faire? (2008), Le grand Bazar (1975), L’ Humour de Dany (2014), etc. Em 1978 Cohn-Bendit viu levantada a sua interdição de residir em território francês. Vivendo doravante na Alemanha, foi adjunto do presidente da câmara SDP de Francoforte, filiando-se posteriormente no partido alemão Os Verdes, tendo colaborado a dada altura com os liberais de Joschka Fisher.


[4] O movimento estudantil de 68 em França, iniciado por um grupo de estudantes de Nanterre, tinha um cariz anarquista e terceiro-mundista no grupo de Cohn-Bendit, ao lado de dois movimento de apoio à guerra de libertação no Vietname, contra os Estados Unidos, o grupo maoísta Comités Vietnam de Base e o Comité Vietnam National, patrocinado este pela JCR (Jeunesse Communiste Révolutionnaire, fundada em 1967 pelos trotskistas). Em 7-V-68, Fréderic Gaussen e Guy Herzlich no jornal Le Monde, numa série de artigos intitulada “Entre l’apathie e la violence”, historiando a acção do “Movimento 22 de Março”,  falavam de Dany le Rouge como um diabo que sai da sua caixa, “cabeleira ruiva solta, elástico e jovial, Cohn Bendit destaca-se da massa”, sem precisar de microfone para ser ouvido   no anfiteatro Che Guevara, no meio daqueles “anars” e “chineses”. E sublinham que a guerra do Vietname estava na origem do Movimento 22 de Março assim chamado porque fora nesse dia que os estudantes tinham invadido os locais da administração da universidade de Nanterre para obterem o direito de ter reuniões no interior da Faculdade, manifestando-se contra a prisão de estudantes do Comité Vietnam National, em “luta contra o imperialismo”, Quanto ao PCF e aos sindicatos existentes, estes estudantes consideravam que eles estavam integrados no sistema capitalista.


[5] Michel Onfray, Les Consciences réfractaires, Grasset et  Fasquelle, 2012. Um dos filósofos estudados neste volume é Paul Nizan, que abandonou o PCF desde o pacto germano-soviético de 1939: vide op.cit., pp.116-188 (com especial relevo dado a Chiens de Garde, de 1932: pp. 156-9 e 436).


[6] Dernières Nouvelles d’Alsace, Estrasburgo, 23-V-68, com foto. A 8-V, Le Monde noticiava numa pequena local que os estudantes de Estrasburgo tinham feito uma manifestação, diante do palácio universitário, contra a prisão de colegas de Paris, se tinham dirigido para o centro da cidade “gritando frases hostis contra a polícia assim como em relação ao diário regional Les Dernières Nouvelles d’Alsace”, embora não conseguissem chegar aos escritórios do jornal porque uma barragem policial lhes fechara a rua que a eles conduzia. A verdade é que, apesar de conservador, o jornal fizera reportagens de teor simpático em relação às greves estudantis da cidade, como, p. ex., no artigo “Strasbourg: professeurs et étudiants ont manifesté dans le calme et la dignité” (13-V, com foto a 2 colunas). No dia seguinte, 14-V, o jornal publica duas páginas inteiras, com fotos a 4 colunas, sobre a “impressionante manifestação em Estrasburgo, na qual sindicatos, docentes e estudantes testemunharam a sua solidariedade” nas da manifestação”, depois de terem proclamado a autonomia universitária, falando ainda do movimento grevista dos operários em Colmar e Mulhouse, observando que este foi, em geral, pouco seguido, exceptuando no ensino. A ocupação da Sorbonne é também relatada com destaque, a 15-V, sendo descrita como “um fórum permanente e apaixonado”, com as estátuas de Pasteur e Victor Hugo com bandeiras vermelhas nos braços, havendo ainda “bonitas estudantes de mini-saia sentadas nas janelas do primeiro andar, deixando pender as suas pernas no vazio”.


[7] “Appel à la Population”, anúncio publicado  no Dernières Nouvelles d’Alsace, a 26-V-68.


[8] “La chienlit c’est lui” – chienlit, de “chier” (defecar: v.g., “celui qui chie au lit”), palavra do século XVI, significa “seca”, barafunda, desordem (social), mascarada e, por extensão, designa uma personagem de carnaval ou, no feminino, uma farsa descontrolada, donde o sentido de barafunda, confusão, desordem. De Gaulle popularizou esta expressão ao caracterizar as desordens de Maio 68 como um “chienlit”. Veja-se Alain Rey, Le Robert / Dictionanire historique de la Langue française, Paris, Robert, vol. I, 2000, p.736.


[9] Veja-se o nosso texto “Peter Weiss e papão lusitano”, no vol.XIII (“O Estado Novo II”), da nossa História de Portugal dos Tempos pré-históricos aos nossos dias, Amadora, Ediclube, pp.357-363. Um dos aspectos essenciais desta peça era a denúncia feita por P. Weiss contra as nações europeias, como a Alemanha Federal, que auxiliavam os Estado português com dinheiro e armas nas nossas três guerras coloniais.


[10] Sobre esta reflexão histórico-sociológica a propósito do Maio de  68, feita pelo grande mestre Raymond Aron (1903-1985), veja-se Mémoires, Paris, Julliard, 1983, pp. 474-497, em parte dedicado ao seu livro publicado em 1968, La Révolution introuvable.

 
João Medina





2 comentários:

  1. Uma nota interessante sobre a frase "Sous les pavés, la plage !":

    http://fr.wikipedia.org/wiki/Sous_les_pav%C3%A9s,_la_plage_!

    ResponderEliminar
  2. .Foram fatos extraordinarios.Seria aliás interessante estabelecer relação com movimentos estudantis em Portugal.Infelizmente a maioria dos que os viveram estão hoje não do lado do sonho mas do sono...

    ResponderEliminar