sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Éramos assim castiços em 1984.

 
 
 
 
         Faz trinta anos que Carlos Lopes venceu a maratona dos Jogos Olímpicos. Tinha cinco anos, mas a minha memória poliu uma Polaroid de traços precisos: estávamos todos na garagem do Tio Custódio; rodeados pelo cheiro das pipas de vinho, vimos ali a maratona com entusiasmo pátrio. Estávamos todos juntos, dezenas de vizinhos no mesmo espaço. Já toda a gente tinha TV, mas ainda havia o hábito de ver as coisas em conjunto - reflexo da época em que se via a “Gabriela” na casa do vizinho. O meu velho, por acaso, tinha acabado de comprar a primeira TV a cores para ver o Europeu do Chalana. O bigode do Chalana e as pernas quenianas do Carlos Lopes: eis dois símbolos daquele Portugal ainda pobre e castiço, áspero e duro, uma espécie de Quénia de branquelas que corriam de terra em terra porque a Famel-Zundapp já não aguentava. Sim, Carlos Lopes, Rosa Mota, Aurora Cunha, irmãos Castros e Mamede eram os heróis de uma resistência feita não no ginásio mas na pobreza.
No domingo passado, Sara Moreira espantou o mundo ao alcançar – na estreia – o bronze da maratona de Nova Iorque. A notícia espantou-me porque as Rosas Mota já não nascem nas árvores. Ainda bem. O país evoluiu. Já não somos o Quénia latino. Hoje a malta faz um jogging europeu, fino, sofisticado, uma corridinha gourmet. Em 84 corríamos a sério. Havia uma cultura de atletismo. O meu Concelho (Loures) organizava todos os anos as corridas entre bairros. Claro que participei quando chegou a minha vez (88 ou 89). O Rui, atleta no Belenenses, formou a equipa e corremos durante um mês entre Vale Figueira e Santa Iria. Ainda hoje associo a Colectividade de Pirescoxe (onde vota o Jerónimo de Sousa) à expressão “dor de burro”. Era ali, quase no final, que começava a doer. Porque é que fazíamos isto? Porque éramos criaturas de campo aberto. Nem tínhamos campos de futebol ou ringues de futsal. Isso foram modernices cavaquistas e guterristas. Tínhamos apenas as pernas, as bicicletas e a mania de correr, escavar, de ir para os caniços junto ao Tejo para os primeiros amassos amorosos depois de passarmos por baixo da A1 através de um aqueduto esconso e húmido.
Ninguém pode imaginar a alegria que senti no dia da corrida oficial. Tinha uns calções da Hummel (Benfica) e um dorsal oficial (“Henrique Raposo, n.º1224 dos Jogos de Loures”, ou coisa assim). Quando o pelotão passou pelo meu bairro, dei tudo e fiquei isolado na frente. Durante aqueles sessenta segundos fui o maior, fui o maior para o meu velho que estava a torcer por mim como se aquilo fosse Los Angeles em 84. A Polaroid não engana: ele está a ranger os dentes, de punho erguido e a correr ao meu lado, como aqueles loucos que correm ao lado dos ciclistas no topo dos Alpes, “vai filho, vai”. Claro que desisti um quilómetro depois. Um bollycao não é o mesmo que o doping do Armstrong. Entrei no carro vassoura e bebi um pacotinho de leite. O sonho de ser “federado” ficou ali junto ao sítio onde o Jerónimo ainda joga à malha, mas ninguém me tira aquele minuto de glória em que o meu velho pensou que tinha um Carlos Lopes em casa. Éramos assim em 84. Ainda somos assim em Roriz (Santo Tirso), terra de Sara Moreira.
 
Henrique Raposo
(publicado no Expresso, de 8/11/2014)
 
 

1 comentário:

  1. Este gajo não faz puta de ideia do que é viver em Roriz, nem onde isso fica. Chega-se mais depressa de Roriz ou de Negrelos à FEUP do que de Loures ao Técnico, pá.

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