Tinha origem no povo miúdo, foi
guarda-mor da Torre do Tombo; terá sido antes tabelião, intitulava-se escrivão
dos livros e vassalo do rei. Em 1431, estando ainda vivo D. João I, foi
encarregue de escrever as crónicas da I Dinastia. Virá a ser autor de um
documento extraordinário que é a Crónica de D. João I. É estudado nos ensinos
secundário e superior, a ele se devem expressões que continuam a ter um forte
sentido na descrição da atmosfera daquele tempo em que ele fala da sétima idade
do mundo, do bom povo e da arraia miúda, entre tantas luminosas expressões. É o
cronista ímpar das transformações sociais que irão ocorrer com o primeiro rei
da Dinastia de Avis, aquele que instituiu o senhorialismo régio, dirá que
filhos homens de baixa condição foram nesse tempo feitos cavaleiros, trarão
novas linhagens e apelidos. É sobre esse momento de glória, a empolgante
narrativa histórica de Fernão Lopes que Valentino Viegas lhe presta uma bela
homenagem num livro incomum: Fernão Lopes, A Primeira e a Última Revolução
Portuguesa, Obnósis Editora, 2026.
Noutros tempos, e para que os
discentes entendessem o homem e a sua época, elaboravam-se cadernos que
ajudavam a enquadrar o discurso narrativo de Fernão Lopes, então punha-se
ênfase da crise encetada ainda no reinado de D. Fernando, passava-se em revista
as transformações literárias por que naquele século XV despontava uma nova
cultura, caso dos livros de linhagens, crónicas e relações históricas,
procurava-se interrogar a cultura de Fernão Lopes, o seu vigor de cronista, a
procura da verdade e da imparcialidade, como ele foi um percursos da história
moderna, um repórter, humanista a que não faltavam recursos estilísticos e
figuras de estilo. A bibliografia sobre Fernão Lopes, nacional e internacional,
é hoje enorme. Mas o que distingue este livro de Valentino Viegas é o seu
talento didático-pedagógico. Como vamos procurar apurar.
Ele vai pontuar, passo por passo, os
eventos decisivos da revolução de 1383-1385: aas causas remotas e próximas, o
ponto de viragem que representou o Tratado de Salvaterra de Magos, que instalou
profunda inquietação em todas as classes sociais. É uma incursão narrativa que
não dá descanso ao leitor, um autêntico thriller, percecionamos a agitação do
povo, a organização da morte do Conde Andeiro, o pajem aos gritos pelas ruas de
Lisboa: “Matem o Mestre! Matam o Mestre nos paços da rainha! Acorrei ao Mestre que
o matam!”
E temos a euforia popular e até a sua
cegueira, o Bispo D. Martinho é lançado logo da torre da Sé; entrou em cena as
figuras decisivas, a nobreza divide-se entre os que estão a favor da rainha e
os que apoiam o Mestre. É nesta atmosfera de agitação e rebelião que D. João I
de Castela, o grande beneficiário do Tratado de Salvaterra de Magos, toma a
decisão de entrar em Portugal, quer tomar posse do que tem direito. Em dezembro
de 1383, o Mestre de Avis é aclamado, atua como um verdadeiro regente, faz doações;
D. Leonor foge, vexada e muito irada. O autor lança achas para a fogueira, quer
que o leitor conheça um herói praticamente desconhecido: “Se Portugal é hoje um
país independente bem pode agradecer ao tanoeiro Afonso Anes Penedo, a sua ação
foi decisiva e determinante.” E explica porquê. D. João, Mestre de Avis, decide
permanecer em Portugal, reúnem-se representantes citadinos lisboetas. Há quem
proponha o casamento do Mestre com a rainha D. Leonor, escolhe-se mesmo uma
delegação a enviar a Alenquer, onde reside D. Leonor, a nobreza e burguesia têm
medo de represálias, a rainha aceita a solução de compromisso. A atmosfera em
Lisboa é escaldante, o Mestre convoca o povo, reunião no Mosteiro de S.
Domingos. É neste clima dramático que o tanoeiro lança uma ameaça, com uma mão
na espada: “eu em esta cousa nom tenho mais avemtuirado que esta garganta; e
quem isto nom quiser outorgar, logo há mester que o pague pella sua, amte que
daqui saya.” E conclui o autor que foi assim, sob forte coação e ameaça de morte,
que a eleição de D. João, Mestre de Avis, como Regedor e Defensor dos Reinos de
Portugal e do Algarve, foi ratificada pela elite citadina neste plenário
camarário.
Mas o fervor narrativo não arrefece,
vai-se da rebelião à revolução, as águas são separadas, segue-se a operação da
conquista e a reconquista do poder num país onde há quem apoie duas causas;
dá-se a conquista do Castelo de Lisboa, a clerezia, aos poucos, põe-se do lado
do Mestre. Este, inicialmente receoso e hesitante, vai ter excelentes
conselheiros políticos, jurídicos e militares, como é o caso de Álvaro Pais, o
doutor João das Regras e Nuno Álvares Pereira; procura-se auxílio da
Inglaterra, os cofres da coroa estão na penúria por causa das guerras de D.
Fernando, D. João manda cunhar moeda, como nos processos eleitorais de hoje
percorre zonas do país para arregimentar apoios à revolução, tudo isto o leitor
tem à sua disposição numa escrita fulgurante.
Começa a invasão, dão-se refregas e
batalhas, Nuno Álvares Pereira é o fronteiro de Entre-Tejo-e-Odiana. Lisboa é
cercada, mas resiste, irá beneficiar da peste que assola o acampamento
castelhano, mais escaramuças, mas a revolução está firme, D. João, eleito
regedor, manda tomar posse dos bens dos partidários do rei de Castela, atua
como um rei, os apoios vão-se reforçando, continua a fazer doações e assim
chegamos às cortes de Coimbra, foram decisivas para confirmar a nova dinastia,
temos rei português, chama-se D. João I, emergem as novas instituições,
nomeiam-se conselheiros, procuradores, o Conselho Real. Mas, não haja ilusões,
os portugueses continuavam divididos, nem todos aceitavam esta eleição. O novo
rei traçou objetivos, havia que impedir a fusão da coroa portuguesa com a
castelhana, os reticentes vão cedendo. E temos nova invasão castelhana e a
Batalha de Aljubarrota, Valentino Viegas não perde o seu discurso acalorado,
parece que temos Aljubarrota ao vivo, um exército maior é destroçado, o rei português,
de direito pelas cortes de Coimbra passa também a ser rei pela força das armas
em Aljubarrota. É desta forma empolgante que o autor passa para uma comparação
ousada entre a Revolução de 1383-85 e a Revolução do 25 de abril de 1974,
ousado nas analogias, obviamente ressalvando todas as distâncias, é um termo
comparativo que, sabe-se lá, ganha o lastro para fazer caminho.
E há uma outra surpresa para o leitor,
o autor deve ter peneirado pelos arquivos do país toda a documentação que tem a
ver com Fernão Lopes, é uma riqueza informativa para quem se queira abalançar a
conhecer mais sobre este formidável cronista que abriu as portas à
historiografia portuguesa.
Leitura que se recomenda a todos, sem qualquer hesitação.
Mário Beja Santos

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