quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Orgulhosamente ceboleiro!

 





Sou o que se chama um grande ceboleiro. Não porque a “cebola crua com sal e broa” me tenha moldado o carácter, como ao famoso escritor, mas porque, simplesmente, adoro cebola.

Há quem se queixe de que é indigesta. Culpa dos frutanos, uns hidratos de carbono que nem todos digerem facilmente e que podem provocar aquela gasearia de que ninguém gosta de falar. Mas dizem que são esses mesmos frutanos que funcionam como prebióticos, alimentando a microbiota intestinal, seja lá o que isso for.

Outros queixam-se do hálito, provocado pelos compostos de enxofre da cebola, que insistem em permanecer na boca muito depois da refeição. Para uns, resolve-se lavando bem os dentes. Para outros, resolve-se fumando um cigarro. Não sei se passa o cheiro da cebola, mas certamente fica outro.

E há ainda os que, depois de a cozinhar, não suportam o cheiro que lhes fica nas mãos. Eu esfrego-as na lâmina da faca, debaixo de um fio de água fria. Há quem prefira detergente da loiça. Ou luvas.

Só não há mesmo solução para quem não gosta do sabor. Vá-se lá entender porquê.

Mas se o problema é a acidez, a bravura ou a doçura, talvez o erro esteja na cebola escolhida. Cultivada no Médio Oriente há mais de cinco mil anos, o que não faltam são variedades. Cada uma com o seu feitio. E cada uma com o seu destino.

A amarela é a rainha. A mais popular, usada em todo o mundo para refogados, sopas e estufados. Por cá é, sem discussão, a base de quase toda a cozinha nacional: o estrugido. Negá-lo equivale a cantar o hino nacional de outro país. Como certos selecionadores de futebol.

Depois vem a branca. Mais crocante, mais viva e até mais picante. Faz maravilhas na cozinha mexicana e aparece com frequência na espanhola.

A roxa é a minha preferida para comer crua. Saladas, pickles, sanduíches, hambúrgueres… tudo melhora com umas fatias finíssimas de cebola roxa. É naturalmente mais doce e, se ainda assim a achar demasiado intensa, basta passá-la por água corrente durante alguns segundos. Perde parte da bravura, sem perder a personalidade.

E depois há as chalotas. Parentes próximas, mas mais delicadas, mais elegantes e mais subtis. Não por acaso, os franceses fizeram delas quase o ingrediente nacional.

Existe ainda o cebolo, espécie de cebola comprida, de caule branco a terminar em verde. A verde vai para finalizar quase todos os pratos orientais. E a branca faz maravilhas num arroz branco, mais perfumado, muito comum na Colombia.

Com exceção de algumas cozinhas budistas vegetarianas, a cebola cozinhada é provavelmente o único ingrediente que qualquer cozinheiro do planeta diria ser indispensável. Refogada lentamente, desenvolve açúcares e leva doçura à base de quase todos os grandes molhos da cozinha francesa. E de muitos caris indianos. O que seria do mundo sem a sopa de cebola francesa? Ou as cebolas recheadas italianas e espanholas? Ou os onion bhaji indianos?

Mas crua não é menos dispensável. A salada algarvia não sobreviria sem ela. Em quantidades generosas. Nem um bagel com pastrami ou um choripán argentino.

Caramelizada, produz centenas de compostos aromáticos e transforma-se quase numa compota, talvez o mais extraordinário exemplo da reação de Maillard aplicada a um vegetal.

Mas é talvez na cozinha peruana que a cebola roxa mais brilha. É indispensável no cebiche, no lomo saltado, na causa limeña e até nos sánguches peruanos.

Onde está, então, o senão da cebola? Faz chorar. Ao ser cortada, liberta um gás sulfurado que, em contacto com as lágrimas, irrita os olhos.

Talvez.

Eu cá choro é quando se me acabam as cebolas.

 

                    José António Nogueira de Brito





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