sábado, 8 de abril de 2017

Memórias Perdidas - 17




 
 
         Suculentíssimas memórias perdidas, estas de Raúl Morais. O autor, é certo, por vezes força a nota ruralista, retratando porventura a traços demasiado carregados, grossos ou grosseiros, o viver na sua terra de Izeda, e a boçalidade circundante. Muita expressão d’antanho, muito regionalismo, muita prosa ao estilo telúrico aquiliniano ou torguiano, mas um portentoso testemunho autobiográfico. Outra coisa não seria de esperar de quem, nos idos de 1977, publicara o livro de poesia Auto do Custo da Penúria da Vida do Povo, um ano depois de ter participado na antologia lírica J. C. Falhou um Penalty. Na crónica, Sermões às Fragas, do mais recente 2000, e a monografia erudita Izeda – Pedaços da sua História, de 1996.
         O livro é dedicado aos seus pais, apresentando-se o autor, com louvável humildade, como um «obscuro garatujador de Izeda». Seu pai era ferreiro de profissão, na senda de familiar tradição de «ferreiros, mui valentes, amigos da pinga, com propensão para a poesia repentista uns, e para a filosofia nua e crua outros». Órfão ainda criança, o pai de Raúl aprendeu o ofício em Macedo de Cavaleiros. Por seu turno, a mãe, Delmira de Jesus (segundo os registos, mas Belmira na voz do povo), era natural de Carocedo. «Aos vinte anos, um rapaz de Parada armou-lhe um filho», Norberto, meio-irmão de Raúl. Ainda jovem, já mãe, Delmira/Belmira veio para Izeda, para criada do Dr. Valente e depois do Padre António. Antes estivera em Bragança, como ama de um menino de filha rica, chamado Raúl. Daí ter dado este nome ao filho do homem com quem depois se casou, corria o ano de 1943: Zé Ferreiro, de Izeda. Casado o casal, foi este viver para a casa de um homem chamado João Baptista Rodrigues, de alcunha o Maça, sendo aí que Zé Ferreiro instalou a sua fornalha-oficina.
         Raúl conheceu apenas um dos seus tios paternos, João Pedro, que, apesar de pouco dado a missas e padres, veio em 1967 de terras de França. Motivo: pagar uma promessa à Senhora do Aviso. Recuemos no tempo para lembrar que, quando Raúl nasceu, uma mulher desconhecida entrou na casa paterna, deitando-lhe mau-olhado. Nunca mais se ouviu falar daquela mulher malfazeja, mas Raúl, desde então, virou bicho – testemunho dado, muitos anos depois, por seu vizinho e amigo, Sr. Sousa Pinto, distinto mestre da Banda de Música da Colónia Correccional de Izeda. Os pais de Raúl, como é natural, ficaram aterrados com os desmandos do seu menino, e acabaram por ir consultar o Padre João de Baqueixe, dado «os padres de Izeda não se darem a tais práticas». O Padre João passou um escrito e logo os berreiros do petiz Raúl pararam naquele preciso instante, preparando-se no acto o baptismo da criança, que teve como padrinho o Sr. Alferes Caseiro que, entre múltiplas actividades, foi correspondente do jornal O Século.
         A mais antiga recordação de infância de Raúl é uma briga na taberna da tia Elisa Pinga – e crê-se não ser preciso dizer mais nada. Tudo não passou de uma refrega das fortes entre o meio-irmão de Raúl, Norberto, e o Zé Pereira, o «Zirra». Mas, chamada a mãe de Norberto, logo ali se concluiu não passar tudo de uma brincadeira de rapazes. E assim se passou a infância de Raúl, idade feliz. Seu pai era «um bom-serás», calmo, tranquilo, que só uma vez lhe pregou duas cinturadas por não querer beber o caldo. Um homem regrado, Zé Ferreiro: até ao meio-dia, só bebia aguardante; depois disso, voltava-se para o vinho. No Verão de 1954, Zé Ferreiro caiu a um poço, por acidente ou azar. Buscou internamento, cuidado hospitalar, indo ao ponto de, para o efeito, escrever ao doutor Salazar. Surtiu efeito o expediente, pois enviada a missiva e era Zé Ferreiro internado no Sanatório das Penhas da Saúde, Serra da Estrela. Libertado do sanatório, cometeu Zé Ferreiro um deslize fatal. Sabendo que o Benfica – o Benfica de Colunas, Águas e Costa Pereira – se deslocava à Covilhã para defrontar o clube local, fez-se Zé Ferreiro à estrada. Contemplou os seus ídolos, mas morreu do esforço.
         Sendo a vida madrasta, os amigos de Zé Ferreiro foram rareando com o avançar da doença e subsequente passamento. Até o barbeiro da terra, o Francisco Xaráco, logo se esquivou a fazer-lhe a barba e a cortar-lhe o cabelo. Raúl ia anotando num caderno os nomes dos (poucos) amigos que nunca o abandonaram. Foram eles o Ti Francisco Quaresma, o Amadeu Estanislau, o Fermentãos, o Sabino Rato, o Sr. Francisco Veiga. Para que conste.
         Aos poucos, Raúl ia crescendo, em corpo e sabedoria. Pouca informação chegava à Izeda da época. Televisão, nada. Rádios? Os da Casa do Povo, do Quartel da Guarda Republicana, do Sousa Pinto e do Deodoro Touças (do Botequim). A este último teve Raúl de dizer que era adepto do Porto para que pudesse ouvir os relatos. Diferente e mais ecuménica atitude era a do Sr. Sousa Pinto, que a 13 de Maio colocava o rádio na varanda para que as pessoas escutassem a transmissão das celebrações litúrgicas de Fátima. Chegava a vir gente das aldeias vizinhas. Alguns julgavam que quem falava estava dentro do aparelho de rádio, por certo acomodado numa posição algo desconfortável. Outro pretexto de convívio, bem mais profano, eram os dias de feira, altura em que vários tendeiros do Campo de Víboras pernoitavam em casa dos pais de Raúl; eram eles a Tia Branca, o «Coimbrês» (assim chamado por ser da zona de Coimbra, mais precisamente de Figueiró dos Vinhos), o Manuel Nato, o António Cinzel, etc. Para brincadeiras infanto-juvenis, diz Raúl com graça, tinham vários estádios olímpicos ao seu dispor: o largo sobranceiro à Escola, o caminho ao lado do Cemitério, o Largo do Toural, a eira de Vilarelhos e a do tio Antero, o Salgueiro, o Cruzeiro, a Santa Catarina, os Pelames, o Adro e o campo da bola da Colónia. O cabo dos trabalhos era quando escolhiam para recinto desportivo o adro da igreja. O Ti João Sacristão não perdoava a canalha, dando-lhe «umas boas lapadas, autênticos ferrungões». Depois de os sovar, corria-os à pedrada, quando já iam em fuga pelo quintal do Sr. Fernandes. Andou Raúl na escola, pois claro. No entanto, chegado à terceira classe, como foi o único da turma a conseguir resolver um problema complexo (de aritmética?), o Prof. Oliveira carregou forte e feio nos colegas de Raúl, que o ameaçaram à séria se acaso tivesse a veleidade de voltar os pés na escola. Destacaram-se na acção punitiva o Júlio Anes e o Fernando Teles. Mas Raúl, sabe-se lá por que bulas, conseguiu concluir a instrução primária, cujo diploma reproduz neste seu Álbum de Saudades.
         Feita a instrução primária – e com grande pena do próprio –, foi Raúl empregado numa latoaria, como aprendiz de João Herculano Santos, «Petisco». Antes disso, ainda tentou ser sapateiro, com mestre Fernando Ribeiro, pois sua mãe considerava os ofícios de ferreiro e carpinteiro demasiado puxados para a débil constituição física de seu filhinho. E o resto se passou entre a aprendizagem da latoaria, as apanhas furtivas de cerejas no mês de Maio, os jogos de damas com o vizinho Gualter Ramiro Venâncio Correia, a sueca batida, os bilhares do Ti João Cidres e do Ti Manuel Félix e sobretudo, por cima de tudo, os matraquilhos. Lembra-se Raúl de, numa noite, estar a jogar os matrecos das 22 horas às 8 da manhã do dia seguinte, numa maratona em que foi acompanhado pelo Nazero, pelo irmão deste, o Galo, e pelo Luís Laurindo. À época, já Raúl era um dos rapazes mais corpulentos da sua criação, força que brotava do corpo mas também do espírito. Iniciou as primeiras quadras, no encalço da tradição familiar («herdei esta vocação de meus avós, todos analfabetos»). Deveu o despertar desta veia lírica a um antigo professor, Armando Couto, que lhe deu a conhecer os versos de Cesário Verde. Nasceu um poeta. A par disso, um leitor ávido, que aos onze anos herdara de seu irmão – que foi para Angola em 1958 – um velho volume descapado de O Fidalgos da Casa Mourisca; além de um fato de corpo inteiro, com que fez exame de quarta classe na Escola da Estação de Bragança. Ah, e um tabuleiro de damas, para as horas de ócio. Muitas delas passadas na companhia do vinho ou doutras bebidas mais carregadas, responsáveis por «monumentais bebedeiras» − «protagonizei brutalidades contra mim mesmo que deixavam as do Flávio Bumba envergonhadas». Que brutalidades perpetrou Flávio Bumba é algo que o autor, com decoro, deixa na penumbra. Mas certo e sabido, porque ele o confessa, é que um dia apanhou uma bebedeira que durou quinze dias, por alturas de uma passagem de ano mais celebrada. Não admira, pois, que estivesse apto para assumir o cargo de ajudante de Duarte Ferreiro, que era ferreiro. E também não admira que um dia, numa arranca de batatas na horta de Golpilheiras, na companhia de sua irmã, do tio António Catarino e do Soquinha, haja ajoujado tanto o burro de carga que este caiu, inerte e triste.
         Chegava o tempo da ida às sortes. Por estas memórias se tem uma pálida ideia da importância do serviço militar obrigatório. «Quando fui para a tropa só tinha andado uma vez de comboio» (de Rossas para Bragança, na companhia do seu tio João Pedro). A tropa fez um homem de quem até aí era, nas suas próprias palavras, «acanhado por natureza». Teve atritos (e amizades) logo à entrada, quando receberam os mancebos do Norte:
         «- Cá estão os gajos da terra do “prejunto”.
         - Queres “prejunto”, queres, sacana?»
        
         A partir daí, houve de tudo: um castigo que obrigou Raúl e o seu pelotão a ficarem de pé, em sentido, até às duas da manhã; um bilhete para o Braga e o Benfica. A história é deliciosa: o capelão prometeu sortear entradas para o jogo entre os mancebos que fosse à missa… Raúl teve a ventura de, graças a isso, ir assistir a uma disputa com Eusébio, Simões e Coluna. Também confessa ter tido sorte com o seu comandante de pelotão, o aspirante Laranja. O mesmo se não dirá, quando já estava em Tancos, com o capitão para-quedista Perestrelo («um homem desumano»), compensado em bondade pelo capitão Pelicano («um homem humano»). Em Tancos, Raúl Morais entregou-se de alma e coração ao halterofilismo, indo ao ponto de furtar uns halteres da base aérea, levando-os para Izeda. Mais grave foi o caso de um atentado com explosivos colocados no hangar por um activista do PCP, o que, além de prejuízos de milhares de contos, levou a PIDE a investigar o caso; nada tendo a ver com o assunto, Raúl acaba por ser interpelado, sem danos de maior. Pôde, então, entregar-se ao convívio com os seus camaradas d’armas, entre os quais se destacava o portentoso Corrêa, menino que fumava nada mais nada menos do que oito maços de cigarro/dia, além de estoirar motorizadas graças à choruda mesada que seu pai lhe dava.
         No dia 1 de Julho de 1971, Raúl Morais faz a trouxa, entrega-a na base e reingressa na vida civil. Pouco depois, despede-se de sua mãe, desfeita em lágrimas, e vai para França, a salto. Em Paris, vai pernoitar a casa do cunhado, em Neuilly Plaisance. Começa a trabalhar numa «fabriqueta de farrapos velhos», onde o seu chefe, um espanhol curtido por anos de emigração, o tratava mal. Daí passa para uma fábrica de móveis. Propriedade de um velho italiano. «Parecia a Organização das Nações Unidas», espanta-se o moço de Izeda ao ver que ali trabalhavam portugueses, franceses, espanhóis, italianos, jugoslavos, árabes, africanos. Na secção das cadeiras trabalhavam várias mulheres portuguesas e «o chefe era um preto vaidoso e prepotente», que as tratava mal. Raúl meteu-se ao barulho, pondo-o na ordem devida. Nestas memórias, curiosamente, todos os chefes ou capatazes das fábricas de França são retratados como desumanos e abusadores, desprezando Raúl, acima de tudo, um encarregado de obras de origem argelina que maltratava os seus operários.
         O 25 de Abril apanha-o em França. O nosso memorialista só regressa de Paris em Julho de 1974, mas já lá vamos. Antes disso, começara a sua carreira literária, indo ao ponto de escrever ao Ministro da Educação, na altura Veiga Simão, solicitando apoio oficial para publicação de um livro de poemas. Corre tudo, no seu afã publicador. Escreve à Gulbenkian, a jornais clandestinos da oposição, todos lhe fecham as portas, Acabará por escrever dois artigos no jornal Fronteira, publicado em Bruxelas, que só mais tarde soube pertencer à LUAR. Uma fotografia de 1975, no entanto, mostra-o em plena actividade cultural-revolucionária, em Macedo do Mato, com Francisco Fanhais e Zeca Afonso, entre outros.
         Em 1975, Raúl Morais filia-se no Partido Socialista, sendo coordenador da secção local, que contava com 100 inscritos. O presidente da junta, Domingos Manuel Rodrigues, homem do antigo regime desencantado com a revolução, deixara de mandar proceder à limpeza do largo da feira. Logo Raúl e alguns camaradas se juntam para proceder à limpeza – ou, melhor dizendo, para quem o fizesse, por vinte escudos. E o povo começou a dizer: «O Raúl é que era a pessoa indicada para presidente da Junta». Meu dito, meu feito. Realizadas as eleições na Escola, é escolhida a comissão administrativa, com Raúl Morais à presidência, José Fernando Cameirão como secretário e Amílcar Augusto Gonçalves como tesoureiro. Les jeux sont faits.
         A partir daí, foram três mandatos como presidente da Junta de Freguesia e uma vasta obra literária, em verso. Como nos finais felizes, um casamento. Celebrado a 1 de Janeiro de 1977, na Capela de Santo Apolinário. Chovia a cântaros, o noivo ficou todo enlameado, mas contente com a sua noiva, Ilda de Jesus Brás, oriunda de famílias ainda mais pobres do que a de Raúl. Do enlace nasceu e cresceu uma filha, Marília, e assim se conta, a pinceladas muito largas, os trabalhos e os dias de Raúl Morais, álbum de saudades.
 
António  Araújo  
      
 
  
 
                  
 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Memórias Perdidas - 16


 






Foi, de facto, uma vida tricontinental, esta de António Martins Rachinhas.
Nascido no concelho de Águeda (mais precisamente, em Aguieira, freguesia de Valongo do Vouga) em 13 de Fevereiro de 1937, António Rachinhas, nestas suas memórias, e porventura com a ajuda de um grande genealogista, reconstituiu a sua árvore de costados até 1530. Não se julgue, porém, que é seu intuito reivindicar pergaminhos nobiliárquicos ou reclamar títulos de fidalguia. Depois de apresentar os seus antepassados remotos, António fala-nos da sua parentela próxima, como seu avô, «um humilde lavrador», que sempre se recusou em vender um pinhal chamado «Os Carvalhos do Rachinhas». Se o fizesse, dizia, era o mesmo do que vender o nome da família. Seu pai, Manuel Ferreira Rachinhas, toda a vida foi carteiro; diariamente, fizesse chuva ou sol, o Sr. Rachinhas percorria de bicicleta 50 quilómetros, nas freguesias de Aguada de Cima e de Belazaima do Chão; um pormenor enternecedor: para entrar nos quadros dos CTT, teve Manuel de fazer exame da 4ª classe, pois só havia na infância dura concluído a 3ª classe – o filho António ajudou-o na matéria em que tinha mais dificuldades, as contas da Aritmética. Em contrapartida, era exímio em apontar os significados das palavras; sempre que ia ao barbeiro, este, também interessado em etimologias e significados, perguntava sempre a Manuel o que queria dizer isto ou aquilo. Evidenciou-se também como caçador de mão cheia, sendo as suas proezas venatórias enaltecidas no jornal Soberania do Povo e conquistando o merecido título de «Átila dos coelhos». Manuel criava raposas em casa, para o ajudar na caça dos láparos – ou, quando crescidas, oferecia-as aos amigos.
Foi neste ambiente que nasceu António, vendo a luz na «barraca da eira», uma casa onde se guardavam os cereais precisamente… junto à eira. A sua infância foi marcada pelo falecimento de seu avô e por um acidente doméstico, quando o lume doméstico chegou a um dos suspensórios dos seus calções, deixando-o com uma queimadura funda, no braço esquerdo, que a sua madrinha, «D. Celeste», logo tratou com uns emplastros feitos de folhas de jarro bravo aquecidas ao fogo e embebidas em azeite. Curou-se o petiz, que depois marchou para a Arrancada, onde teve uma mestra marcante, a D, Beatriz de Jesus de Araújo Moura. De seguida, a «Universidade de Águeda», nome por que ficou conhecida a Escola Industrial e Comercial, onde António concluiu o curso comercial, corria o ano de 1952. Observa, acertadamente: «é uma pena que se tenha acabado, de certa maneira, com os cursos técnico-profissionais intermédios e penso que o País muito se veio a ressentir desse facto».
Concluído o curso, e passada a tormenta da 2ª Guerra, que adensou as privações de famílias como as de António Rachinhas, empregou-se por pouco tempo, graças a uma «cunha» de seu pai junto a um companheiro de caça, na firma de ferragens Silva & Irmão, Sucrs., Lda. No ano seguinte – 1953, portanto – vemo-lo partir para Angola, embarcando na Rocha Conde de Óbidos. Como nunca tinha vindo a Lisboa, foi acompanhá-lo ao navio «Moçambique» o seu tio e padrinho, Joaquim Ferreira Rachinhas. Mas, antes do embarque, foram ambos assistir a uma partida de futebol, uma refrega entre o Sporting e o Torino a contar para a Taça Latina. Para a ida a África, recebera António (ou, melhor, o seu pai) uma «carta de chamada», vinda de António Martins Nogueira, cunhado do pai do jovem António que se encontrava há já bastantes anos em Angola, onde era proprietário de uma empresa de construção civil. Foi na casa do tio-empreiteiro que António ficou, mas dela não parece ter guardado uma boa recordação. Ainda trabalhou uns tempos na firma do tio, ao escritório, onde pontificavam como guarda-livros o Sr. Fernando Pereira Constâncio, de Silvalde, Espinho, e como empregado o Sr. Hélio de Arede, natural de Talhadas, Sever do Vouga. Para o exercício das suas funções deslocava-se António com frequência aos diversos «postos administrativos» existentes nos variados musseques de Luanda, como o musseque Rangel, onde vivia a maioria dos operários, o musseque Burity ou o musseque Sambizanga. Regressava ao escritório por volta das cinco, seis da tarde e jantava invariavelmente bacalhau cozido com batatas e hortaliça-. «Foi assim durante os onze anos que ali estive, mas felizmente não enjoei o prato e ainda hoje gosto muito».
Graças a um empenho do tio junto de um enfermeiro (de seu apelido Boavida), foi António dispensado do serviço militar. Continuou por África, vindo a Portugal para casar, na Igreja de São Pedro de Valongo do Vouga, aos dias quatro do mês de Outubro de 1964. A noiva, claro está, era natural da mesma freguesia, tendo por nome Luciana. Ainda hoje não se arrepende António – de modo algum! – da sua opção matrimonial («Não será a mulher perfeita, mas andará muito perto disso»). Mal casou, voltou a Angola, na companhia da mulher, de quem teve duas filhas, a Maria Celeste e a Paula Alexandra. Ambas nascidas em Luanda. António voltará a Portugal mais duas vezes, em 1969 e em 1973, e saudará o 25 de Abril, mas não o modo como se desenrolou o processo de descolonização. À cautela, a família veio para a metrópole, mas em Abril de 1975, Luciana Rachinhas volta a Angola, juntando-se ao marido (as filhas ficaram em Aguieira com os avós paternos). Acabou o casal por ter de regressar a Portugal, com grandes dificuldades. António conseguira enviar duas mobílias por intermédio dum conterrâneo que era funcionário da Confabril, uma empresa associada à CUF e, portanto, proprietária de barcos de carga. Mas foi o cabo dos trabalhos localizar os seus haveres nos contentores acumulados à beira-Tejo.
A vida, como aconteceu a tantos, foi recomeçada no Brasil. Belo Horizonte, o último vértice do triângulo tricontinental; aí esteve António Rachinhas e família de 1976 a 1977, ano em que regressou a Portugal, desta feita em definitivo. A última parte das memórias de António Rachinhas são dedicadas a Valongo do Vouga, por onde tudo começou. Fala com especial carinho da Escola EB 2/3 que aí foi edificada e, nas últimas páginas do livro, exibe sem falsas modéstias os diplomas dos cursos que fez na vida. Ingressou na política local, onde foi deputado municipal e aí, ao que reza o Soberania do Povo, proferiu uma frase que o irmana com um malogrado mas muito famoso Presidente norte-americano. Disse António: «Não se espere que Valongo faça tudo aos valonguenses. Cada valonguense deverá fazer algumas coisa por Valongo!!».
 Saborosíssimas memórias, marcas uma vida feita. A certeza de que António Martins Rachinhas pode dizer, como poucos: «Ich bin ein valonguer».
 
António Araújo
 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

O simbolismo de Blimunda, segundo José Saramago.

 
 
 


 
 
         Em fins de Abril de 1988, celebrou-se na Universidade de São Paulo, na cidade de São Paulo e em Campinas, um magno congresso internacional de Filologia, Linguística e Literatura, às dimensões do imenso país que é o Brasil, e entre os participantes contava-se também o omnipresente José Saramago. Ainda não tinha recebido o Prémio Nobel de Literatura, mas já era famoso internacionalmente, a ponto de poder afirmar-se, sem receio de errar, que, apesar das vastas centenas de participantes, vindos de todos os quadrantes do globo, podia chamar-se a esse congresso o congresso de José Saramago, tal foi a visibilidade que os meios de comunicação social do Brasil, desde a imprensa à rádio e à televisão, deram ao homem e à obra.
         No dia em que o Cônsul Geral de Portugal em São Paulo deu uma recepção em honra dos congressistas, vi-me eu, a determinado momento, por mera casualidade, a conversar com Pilar del Río, a jovem companheira de José Saramago. À distância dos anos, não me lembro, como é natural, dos tópicos constantes dessa conversa, mas lembro-me, como se fosse hoje, que lhe contei o que me tinha acontecido no dia em que eu estava a reler o Memorial do Convento, no contexto de um seminário sobre o romance português contemporâneo que ia dar durante a tarde desse dia.
Era por volta das onze da manhã do dia 22 de Março de 1988 e estava eu sentado numa poltrona, de lápis na mão, como é meu hábito, para ir tomando notas e ir sublinhando palavras, linhas ou parágrafos que me parecessem relevantes, a reler o dito romance, quando, sem saber como, enfiei a ponta do lápis no olho direito, mesmo estando de óculos postos (uso óculos desde os dezoito anos). Embora tenha experimentado uma pequena dor, não dei qualquer importância ao caso. De maneira que continuei serenamente com a leitura até à hora do almoço. Terminado o qual, entrei no carro e dirigi-me à minha universidade para às três da tarde dar início ao seminário. Como o número de alunos rondava pela meia dúzia, dava o seminário no meu escritório.
Se bem que notasse que algo de anormal se passava com o meu olho direito, por a dor ir aumentando paulatinamente e as lágrimas me irem brotando dele sem cessar, fazia de conta, como também é meu costume, que não era nada de cuidados, pelo que continuava a comentar o Memorial do Convento, como se nada fosse. Porém, decorridos uns quarenta e cinco minutos, uma das minhas alunas, com mais espírito de observação do que eu, chamou-me a atenção para esse meu olho. A minha resposta foi dizer que não se preocupasse, que não era nada de importante que merecesse cuidados especiais. Mas, volvidos alguns minutos, essa mesma aluna pediu-me que, por favor, interrompesse o seminário e fosse ver-me ao espelho, na casa de banho oposta ao meu escritório. Com certa relutância, acedi ao conselho dela e notei uma coisa que me inspirou uma certa preocupação: o olho direito estava a lacrimejar incessantemente e banhado em sangue. De maneira que, a insistência dessa aluna e de todos os seus colegas, interrompi o seminário, meti-me no carro e dirigi-me à sala de urgências do hospital da vila em que então morava – e ainda moro: Manchester Memorial Hospital, a quinze milhas de distância, aproximadamente, da universidade. Lembro-me que quando me encontrava a umas três ou quatro milhas do hospital as dores eram tão excruciantes e a visão tão deficiente (os olhos têm o condão da simpatia mútua), que dei comigo a perguntar-me se conseguiria chegar ao hospital. Com o auxílio do meu bom São Cristóvão, lá cheguei, sendo imediatamente atendido por uma enfermeira. Visto logo a seguir pelo médico de serviço, recordo-me de ter levado dele um valente raspanete por não me haver dirigido imediatamente ao hospital, logo que introduzira a ponta do lápis no olho. É que a córnea estava perfurada. A única coisa que ele podia fazer por mim naquele momento era dar-me uma forte dose de antibióticos, analgésicos potentíssimos e pôr-me um penso no olho direito, tapar-mo à pirata, e recomendar-me que na manhã seguinte fosse consultar sem falta o Dr. Nix, um oftalmologista excelente de Manchester, dizendo-lhe que ia da parte dele. E eu assim fiz. E o bom do Dr. Nix começou a tratar do meu olho direito, receitando gotas apropriadas, aplicadas de hora a hora, e um unguento, aplicado todas as noites, ao deitar-me, na esperança de que a córnea perfurada viesse a refazer-se, sem que fosse necessário proceder a uma operação, evitando dessa forma um risco muito sério. E quando se esperava que a córnea viesse a refazer-se no espaço de uns seis meses, aconteceu que levou mais de dois anos. E por quê? Porque, quando a córnea já parecia quase refeita, lá era eu despertado com um toque de telefone, obrigando-me assim a abrir o olho direito repentinamente, num acto reflexo, em vez de abri-lo suavemente, esfregando e abrindo-o a pouco e pouco, como o Dr. Nix me recomendava.
Ah! Recordo-me agora da razão que me levou a contar este facto, mais ou menos nos termos em que vai aqui narrado, a Pilar del Río. Foi o eu ter pedido licença para aplicar umas gotas no olho direito, no decorrer da nossa conversa.
         Durante esta nossa conversa, iniciada a três, continuada a dois e retomada a três, esteve José Saramago a ser entrevistado para uma estação de rádio e para uma estação de televisão. Terminadas as entrevistas, juntou-se a nós. E a primeira coisa que Pilar lhe disse foi que o Professor Cirurgião tinha uma história interessante para lhe contar. Que ele tinha que ouvi-la. De maneira que, a instâncias de ambos, repeti a José Saramago o que tinha acabado de contar à companheira dele. E foi eu concluir a narração da história de má memória e José Saramago a proferir estas palavras mais ou menos textuais:
         - Que coisa tão estranha e tão incrível! Parece impossível. É que Blimunda até é símbolo de luz.
         Claro que eu não lho disse então, mas certamente que o pensei. E por que o pensei, entrego-o hoje aqui ao ventre faminto da computadora, depois de, através dos anos, ter contado esta história autêntica a vários colegas e amigos. E que pensei eu afinal? Que a saída de José Saramago me fez lembrar, mutatis mutandis, o célebre gesto daquela velhinha engelhada e curvada pelos anos e interiormente movida pelo zelo religioso, ao levar piedosamente uma abada de achas à fogueira que estava a reduzir a cinzas o famoso herege e mártir Jan Hus. Segundo a lenda, o gesto da zelosa velhinha arrancou dos lábios moribundos de Jan Hus esta famosa exclamação: - O sancta simplicitas!    
 
António Cirurgião
 
 
 
 
 
 

domingo, 2 de abril de 2017

Memórias Perdidas - 15

 
 
 

 

Geralmente, nesta rubrica Memórias Perdidas fala-se de gente desconhecida, anónimos que quiseram legar à posteridade – e sob a forma de livro! – as marcas da sua existência efémera. Não é o caso destas Digressões Autobiográficas. O autor, Fernando Aguiar-Branco, foi uma figura pública sobejamente conhecida, nos meios forenses e não só. Foi um homem do Norte – o que, só por si, define um carácter, pelo menos para quem se assume como tal., na inteireza do seu modo de ver o mundo. Aguiar-Branco, aliás, parece ter interiorizado essa premissa,  assimilando uma noção íntima, pessoal e intransmissível, de honra. Talvez alguns a considerem antiquada, passadista. Mas ela atravessa de fio a pavio estas memórias da sua vida, a um ponto tal que a podemos considerar o eixo à roda do qual tudo o resto gira, tudo anda e se move, em ritmo compassado. Como se disse, esta noção de pundonor poderá parecer antiquada; mas, em várias ocasiões, Fernando Aguiar-Branco confessa sentir orgulho – honra, diríamos nós – em ser antiquado, até no que ao vestuário tange. Um dia, após o 25 de Abril, cruzou-se no Chiado com o general Câmara Pina, «e ambos íamos vestidos à moda antiga». O general de chapéu, o causídico com fato de três peças. Em quase todas as fotografias o vemos assim, quase dando a impressão, porventura acertada, que até aos domingos o Dr. Aguiar-Branco apertava o nó da gravata distinta.
Quanto ao mais, que mais interessa, o percurso de vida de um advogado, de alguém que sempre sonhou cursar Direito, seguindo a tradição familiar que anos volvidos transmitirá aos seus filhos. Os  pais, diz, «dominavam briosamente o português», não admirando por isso que estas Digressões Autobiográficas estejam muitíssimo bem escritas, num estilo refinado e elegante, que acusa, aqui e acolá, a formação jurídica do autor, o qual não desdenha utilizar de quando em vez um ou outro termo próprio do jargão das comarcas e das peças judiciais.
Porventura com excesso de humildade (ou desarmante e invulgar honestidade), confidencia ter sido um sofrível aluno da instrução primária – ou pior do que isso. Mesmo no liceu ou na Faculdade (de Coimbra, pois claro), Fernando Aguiar-Branco não se terá distinguido como um estudante de excepção, segundo o relato do próprio. Conquistou direito a acomodar-se na República dos Kágados e o seu nome chegou a ser ventilado para presidente da Associação Académica. Não tem pejo em confessar que, aquando da eleição para a presidência dessa ilustre agremiação, foi o único a votar contra o nome de Francisco Salgado Zenha. E de braço no ar, à vista de todos. Como, de resto, não tem problemas em proclamar-se admirador de Salazar, entusiasta da Mocidade Portuguesa (onde obteve alta graduação), crítico da mudança de nome da Ponte Salazar para Ponte 25 de Abril – sustentava que a Revolução dos Cravos nada fizera pela ponte, razão evidente para que esta, ao menos, fosse rebaptizada tão-só como «Ponte Sobre o Tejo». Também critica o facto de as estátuas ou referências a Salazar e a outras figuras do Estado Novo praticamente terem desaparecido da paisagem portuguesa, rural mas sobretudo urbana.
Desengane-se, porém, quem julgar que estamos perante um saudosista do antigo regime. Fernando Aguiar-Branco mostra-se um conservador-liberal, que defendia a ordem de outrora mas não deixou, na altura certa, no tempo que exigia coragem, de reclamar contra certos atropelos à liberdade. Foi deputado à Assembleia Nacional, mas entraria em conflito com Marcello Caetano – e, uma vez mais, por uma questão que, segundo ele, não era tanto política quanto de cortesia epistolar.
Estamos perante o retrato de um membro da burguesia nortenha, mesclada com aquilo que restava e resta da fidalguia de província, com casas solarengas e quintas verdejantes. Nasceu em Coimbra, na freguesia de Almedina, por um acaso académico: seus pais cursavam as Faculdades de Direito e de Letras. O pai de Fernando, ao contrário do filho, não tinha vocação de jurista, razão pela qual abandonou a prática do Direito, dedicando-se ao ensino – do português e do latim –, tendo produzido dois dicionários que, durante anos, foram obras de referência para gerações inteiras. Também sua mãe – personalidade fortíssima, pelo que percebemos – foi publicando manuais escolares, no domínio das línguas (português, francês, inglês). É aliás a referência materna que, aparentemente, prepondera na trajectória de Fernando Aguiar-Branco e, antes dele, de seus pais: «não havendo família do lado paterno, a vivência de meus Pais e filhos veio a desenrolar-se, a partir de 1925, nas terras de onde era oriunda a família de minha Mãe: na região do Minho (Vila Nova de Famalicão e Guimarães) e, de passagem, em Montalegre».  
Após passar pelo liceu Alexandre Herculano e pelo Colégio Almeida Garrett (onde foi marcado profundamente pelas lições de Filosofia do Padre Avelino Soares), Fernando segue para a Lusa Atenas. A sua estada em Coimbra foi passada na República dos Kágados, como se disse, e Fernando não foi, a crer nas suas palavras, um estudante brilhante. Mas, do mesmo passo, não se entregou à boémia. Cumpriu o curso, entre colegas que, segundo ele, eram maioritariamente «filhos de proprietários agrícolas, de funcionários públicos e da média burguesia». E acrescenta: «destes extractos sociais provinham os estudantes de Coimbra, na busca de uma licenciatura que lhes emprestaria prestígio social e também melhorias patrimoniais». Na época, uma das funções mais almejadas era a magistratura judicial, que, apesar do sacrifício da eterna errância de comarca em comarca, compensava os juízes com «o respeito, a todos os títulos merecido, que lhes tributavam as populações e os poderes públicos». O mundo de ontem.
A dada altura do curso, pensou Fernando empregar-se numa empresa pública, prática que, segundo ele, era muito seguida na época por colegas seus do curso liceal, oriundos de «boas famílias». Empregavam-se na Gazcila ou na Sacor com o pomposo nome de «inspectores» e tinham vida feliz, com elevada remuneração e pouco trabalho a fazer. A tentação era grande, mas a mãe cortou-a cerce. Para as despesas do curso, em lugar de se empregar, passou o jovem Fernando a contar com uma mesada do seu tio-avô Félix, sacerdote e conservador do Registo Predial em Santo Tirso. Por intermédio do doutor Abel Andrade, lente da Faculdade de Direito, enviava o tio Félix para Coimbra a mesada de Fernando; fazia-o por vale postal, «pois não era homem de cheques». Mais: «habituara-se, como era próprio de seu tempo, a pagar tudo em moeda corrente. Confiava pouco nos bancos. Receava que falissem». O mundo de hoje.  
Tendo apoiado os nacionalistas na Guerra Civil de Espanha, Fernando alinhou com os Aliados durante a 2ª Guerra, que viveu intensamente em Coimbra. Nessa altura – mais precisamente, em 1943 – foi sondado para «aderir ao comunismo», convite que declinou de imediato, e com veemência. A aversão ao comunismo, como se depreende destas memórias, prolongar-se-ia pelos anos fora, porventura até à morte. Era um homem da «direita moderada e conservadora, que respeita e defende os direitos e garantias fundamentais dos homens e dos povos e que repele os regimes totalitários».
Terminado o curso, regresso ao Porto. «A cidade do Porto, na década de quarenta, era ainda um burgo pequeno e com mentalidade e hábitos de vida bastante rurais. Todos se conheciam e sabia-se, com facilidade, por ser patente, quem era abastado, intelectual, político, profissional de relevo ou influente por qualquer outro motivo. A cidade vivia na dependência de meia dúzia de famílias, com poderes de influência». Terá mudado assim tanto, a Invicta?
Uma fotografia mostra-o a percorrer as ruas da cidade, impecavelmente hirto, de chapéu na cabeça e pasta na mão. Já um senhor, com apenas 25 anos de idade. Era então funcionário da Câmara Municipal do Porto, onde, segundo ele, «a rotina e a responsabilidade reinavam». O horário era contínuo: entrava-se às 11 da manhã e saía-se às 5 da tarde, sem intervalo para almoço. Mas, chegando a uma da tarde, claro está, cada um sacava da sua marmita e lá ia matando a fome, em horário de expediente; o odor e a higiene das salas de trabalho, naturalmente, ressentiam-se desta prática, para horror do jovem e ordeiro Fernando. Logo que pôde, partiu dali. Sabendo da existência de uma vaga no Instituto Nacional do Trabalho e Previdência, concorreu ao lugar, beneficiando do apoio pessoal do Dr. Veiga de Macedo que lhe prometeu ir interceder junto de Oliveira Salazar. Se o fez ou não, não sabemos – mas o autor tem o cuidado de nos informar que, havendo candidatos mais classificados academicamente e que contavam com o apoio de cinco governadores civis, foi ele quem acabou por ser nomeado, corria o ano de 1948. A seguir, a vida do foro e, em resultado dela, a presidência da Fundação António de Almeida.
Católico, nunca se aproximou do CADC de Coimbra, que considerava demasiado conservador para seu gosto. Não admira, pois, a ligação que depressa estabeleceu com D. António Ferreira Gomes, mal este assumiu os destinos da diocese do Porto (e, mais tarde, com D. Manuel Martins). Estávamos em 1952, anos antes da famosa carta ao Presidente do Conselho. Aguiar-Branco mostra-se aqui um liberal, no sentido portuense da palavra, e essa marca é visível quando integrou os órgãos directivos da Ordem dos Advogados na cidade do Porto, promovendo conferências e palestras de nomes como Francisco Sá Carneiro, Francisco Salgado Zenha, Figueiredo Dias, Eduardo Correia, José Beleza, Rui Alarcão ou Mota Pinto. Previa-se uma conferência de outro advogado, Jorge Sampaio. Estava agendada para o dia 25 de Abril de 1974...
A revolução apanha Fernando Aguiar-Branco em Lisboa, onde se encontrava hospedado no Hotel Avenida Palace. Logo que pode, ruma ao Porto, confortado por saber que o golpe não implicava «domínio comunista» do país. «A partir da revolução, a minha acção política terminou», diz Aguiar-Branco; ainda assim, integrará as comissões de candidatura de Mário Soares e, depois, de Jorge Sampaio. A sua vida concentrava-se agora na Fundação António de Almeida. As últimas reflexões do seu livro são dedicadas a questões filosóficas sobre Deus, a vida, a morte. E assim terminam estas digressões autobiográficas, retrato de uma existência passada, como um dia será a de quem acabou de ler estas linhas.
 
 
António Araújo

 

 

 

 

 

sábado, 1 de abril de 2017

A Vida é Sensacional.








Meu querido Netinho:
 
Este menino vai visitar-te com o seu cãozito e levar-te muitos parabéns pelos teus 7 aninhos.
Deus te dê muitos anos de vida, saúde e dinheiro no cofre e que a tua Vó-Vó amiga ainda veja mais alguns para te dar prendas e muitos beijinhos.
 
         A Vó-Vó amiga,
Margarida  

Portugal é Sensacional.

 
 





Vida Económica, 14/06/1991