terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Duelo colonial.







Desenho de Stuart










Em 29 de Abril de 1932, o ministro da Guerra autorizava o tenente Henrique Galvão a ausentar-se para as colónias portuguesas, possessões inglesas da África do Sul e Congo Belga, na qualidade de director de Feiras de Amostras Coloniais que se iam realizar em Luanda e Lourenço Marques.
O objectivo fundamental das Feiras de Amostras, de cuja organização e direcção fora incumbido Galvão, era esclarecer os mercados de Angola e Moçambique quanto às possibilidades oferecidas pela indústria portuguesa para satisfazer as suas necessidades. Para tal, inscreveram‑se na metrópole mais de duzentos expositores e foram expedidos para as colónias mais de 3 500 mostruários dos mais diversos produtos.
(...) Para Galvão, só através de realizações económicas  seria possível alcançar os objectivos de ordem moral e espiritual que permitiriam a construção do Império, ou seja, combatendo um Terreiro do Paço que conservava “letargicamente a sua função de estação central de recepção e expedição de funcionários”; no entanto, nem por isso se esquecia de levar uma embaixada cultural: convidara a escritora Virgínia Vitorino e o professor Agostinho Campos e concedera facilidades de viagem ao actor José Alves da Cunha e à sua companhia de teatro.
Entretanto, o ministro das Colónias entregara a Galvão uma carta escrita pelo escritor Afonso Lopes Vieira, em que este se oferecia, enquanto conferencista, para o acompanhar na sua viagem a África, e acrescentava que lhe bastaria obter viagens e hospedagem pagas, uma vez que faria gratuitamente todo o trabalho. Estando Virgínia Vitorino impossibilitada de ir, Galvão aceitou esta oferta.
Porém, antes ainda de partir, Lopes Vieira soube que Agostinho Campos viajaria com a mulher e receberia um subsídio de viagem de duzentos escudos diários, pelo que escreveu a Galvão invocando que, desde o começo, pretendera igualar‑se à situação de Agostinho Campos, considerando, assim, que lhe cabia a metade do que aquele recebia. Galvão, informado desta exigência no próprio dia do embarque, respondeu que as condições de ambos eram diferentes pois limitara‑se a concordar e a aprovar as condições que cada um propusera. Mas, ainda que em cima da hora de embarque, aceitaria conversar com Afonso Lopes Vieira. O escritor foi de imediato ao navio falar com Galvão, que o recebeu friamente e lhe fixou o reclamado subsídio diário de cem escudos.
Em Angola, a estadia de Afonso Lopes Vieira revelou-se particularmente embaraçosa para Galvão, já que o escritor, no seu entender,  rapidamente se envolveu nas tricas políticas de Luanda. A primeira conferência, realizada num teatro local, sob o tema “ Fé e o Império”, teve a presença do ministro das Colónias, já regressado de uma viagem ao interior, e de numerosa comitiva. Galvão considerou-a um completo fiasco.
Em 30 de Junho, Afonso Lopes Vieira acompanhou o ministro das Colónias ao Liceu Central de Salvador Correia de Sá para participar na concorrida cerimónia de entrega de um exemplar de uma edição de Os Lusíadas, por si organizada e luxuosamente encadernada, que o reitor do liceu descreveu como “obra de arte, rara e sublime” dela se desprendendo  “o facho luminoso da nossa História que ilumina o Futuro, para onde é preciso que todos os portugueses caminhem de ânimo afeito à Vitória”.
A segunda conferência, “Camões, o Poeta de Além-Mar”, realizou‑se no Teatro Nacional de Luanda, a seguir a uma representação teatral da Companhia Alves da Cunha e contando com a presença do público que aí se deslocara por causa da peça. Infelizmente, repetiu‑se a “marcha fúnebre”, e um médico de Luanda adormeceu tão pesadamente que caiu da cadeira. Galvão considerou que “se a conferência durasse mais um quarto de hora, acabava sem um único ouvinte”, e decidiu não levar Lopes Vieira, com quem decididamente não simpatizava desde o início da viagem, a Lourenço Marques.
(...) Aproximava‑se, entretanto, a partida do ministro e sua comitiva para Lourenço Marques, onde a Feira teria início em 15 de Agosto; Afonso Lopes Vieira, que estava a gostar da sua patriótica missão  em África, procurou saber junto de Galvão o que estava determinado quanto à sua ida. Galvão informou-o de que enviaria um telegrama ao governador-geral de Moçambique, embora já tivesse decidido que a Direcção das Feiras não iria gastar dinheiro inutilmente com tal deslocação. Dias depois, Galvão que tinha um profundo desprezo pelos modos de Afonso Lopes Vieira e considerava as suas intervenções insuportáveis , com satisfação, comunicou ao escritor que, da parte de Moçambique, não havia dinheiro para pagar a sua viagem àquela colónia.
Indignado, Afonso Lopes Vieira queixou‑se ao ministro, a quem entregou o outro exemplar de Os Lusíadas, para que o levasse para Lourenço Marques; e devolveu a Galvão a quantia que já recebera a título de subsídio, enquanto o ameaçava com a tomada de posições que entendesse convenientes.
(...) Regressado a Lisboa, Afonso Lopes Vieira editou um pequeno opúsculo intitulado “Relatório e Contas da Minha Viagem a Angola”, o qual abria assim: “Começo a escrever estas linhas com a tristeza do autor que vê perdida a obra que ideara, com a mágoa do artista a quem arruinaram a criação espiritual e, sobretudo, com a mais grave desolação do homem honrado, a quem a traição revolta e a selvajaria moral inspira terror. Escrevo, porém, tão calmo de nervos que sinto que hei‑de ser correcto e inexorável.”
Relatava, então, o que considerava serem as traições de Galvão, e aproveitava para publicar a parte do acórdão do Conselho Superior das Colónias, respeitante ao recurso apresentado por Galvão quanto à sua demissão de governador da Huíla, na qual se mencionavam os factos desonrosos para Galvão que Filomeno da Câmara invocara como justificação da demissão, mas dos quais não apresentara qualquer prova, como o próprio acórdão referia, o que Afonso Lopes Vieira omitia.
(...)
Quanto à exigência do subsídio de viagem, explicava Afonso Lopes Vieira, pretendera ele as mesmas condições que  Agostinho Campos, o seu companheiro de literatura e viagem, para não parecer impor a um colega e companheiro a sua superioridade material: “Reclamando desde logo uma equiparação com o meu camarada, queria eu evitar que a minha situação pudesse afigurar‑se como a de quem estadeava de patriota gratuito ao lado de um patriota subsidiado, fazendo‑me passar por príncipe à ilharga de um pelintra! Semelhante situação não poderia convir a nenhum homem dotado de alguma sensibilidade moral.”
Posto isto, prometia voltar a África “como amigo do gentio e convidado de sobas”, já que tinha conseguido autorização para que regressasse à Guiné o soba Cherne, chefe dos criados no Palácio do Governo de Luanda, “um preto de magnífica estatura e maneiras de mordomo do Ritz antes da guerra”, cuja “farda branca de botões amarelos e listrada de verde adquiria no seu porte o estilo de uma túnica de Rei Mago, que tivesse vindo, guiado por uma estrela funesta, até ao melancólico destino de nos acomodar as cadeiras e encher os copos”. Exilado em Luanda por motivos políticos, pedira a Lopes Vieira “de mãos postas, humilhando para mim a sua estatura de bronze digno de pedestal” que lhe obtivesse a liberdade. Lopes Vieira diligenciara junto das senhoras do Palácio, e o soba Cherne fora indultado e convidara‑o, em seguida, para que visitasse a Guiné. Era assim que regressaria a África “com independência de viajante e garantias de honra”.
Galvão publicou, em resposta, um pequeno opúsculo com o título “O poeta Lopes Vieira em África e o seu Relatório”, em que se penitenciava pelo erro de ter levado o escritor às Feiras de Amostras e publicava o acórdão do Conselho Superior Judiciário, assim demonstrando que a parte publicada pelo escritor era a que fora considerada caluniosa pelo próprio Conselho. A polémica teve algum impacto público e o pintor Stuart veio a ilustrar, ironicamente, o episódio com um desenho que ofereceu a Galvão, em que Lopes Vieira aparece como um burro com Os Lusíadas à albarda.
(in Henrique Galvão – Um Herói Português, Francisco Teixeira da Mota, Oficina do Livro, 2011)




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