terça-feira, 12 de julho de 2016

Lisboa, 1944.





Marya Mannes (1904-1990)
 

 
 
Nascida numa família de músicos de Nova Iorque, Marya Mannes (1904−1990) foi uma prolífica escritora e articulista. Tendo sido editora da Vogue, destacou-se na The Reporter e na The New Yorker pelos seus numerosos textos, em que retratava a vida social da América num estilo ácido e corrosivo, revelando um agudo sentido de observação. Autora de diversos livros, esteve em Lisboa em 1944, onde escreveu um artigo publicado na The New Yorker em Julho desse ano. O quotidiano do corpo diplomático acreditado em Lisboa é descrito com uma ironia finíssima, desarmante. Casada três vezes, Marya Mannes morreu em São Francisco, na Califórnia, em 13 de Setembro de 1990.
 
 
Lisboa, década de 1940

 
 
         Carta de Lisboa
         14 de Julho de 1944 (por cabo)
 
         Quem viajar no comboio da manhã desde o Estoril (o subúrbio da moda, junto à costa) até Lisboa irá encontrar-se invariavelmente na companhia de diplomatas. Há mesmo quem se distraia tentando identificar os homens de Estado que diariamente fazem aquele percurso. É um jogo difícil. As pistas são poucas e enganadoras. Desde logo, todos os diplomatas entregam-se em público à leitura de jornais portugueses e mostram ser razoavelmente fluentes em três ou quatro línguas. Mesmo os rostos não ajudam muito. Um homem gordo com um grande cachaço e uma calva rosada, de colarinho alto, pode não ser um produto da Wilhelmstrasse mas o adido de imprensa da embaixada da Holanda. Uma loira magra e pálida, com um maxilar escandinavo, não é norueguesa, mas sim uma funcionária do consulado da Alemanha. Só um especialista será capaz de distinguir os cidadãos da Europa central. De facto, nem se tem a certeza se uma pele lívida e o cabelo penteado para trás numa testa recuada são traços característicos da Europa central. Pode tratar-se de um francês ou de um grego.
 
         Este passatempo torna-se menos difícil quando os diplomatas saem do comboio e entram nos automóveis que os aguardam na estação. Todas as viaturas do corpo diplomático têm matrículas assinaladas com CD, segundo uma ordem preestabelecida. Os números 10 da matrícula CD pertencem a embaixadores e ministros. Quando se vê alguém a entrar num Renault com a matrícula 10-02, é provável tratar-se de Nicolás Franco y Bahamonde, o embaixador de Espanha. O ministro alemão, barão Hoyningen-Huene, tem um Mercedes-Benz, matrícula 10-06, e a matrícula CD 10-14 pertence ao Cadillac do nosso embaixador, Norweb. Os próprios carros ajudam a identificar a nacionalidade dos seus donos. Muitos diplomatas alemães dos postos subalternos têm Citröens que trouxeram de França. Os japoneses parecem gostar de Buicks. Os Fiats, naturalmente, são mais apreciados pelos italianos. 
 
         A privacidade de um diplomata, como é óbvio, não dura muito. Desde logo, porque uma das suas funções é circular tanto quanto possível. Por outro lado, os diplomatas estão constantemente a encontrar-se uns com os outros em jantares e em festas. Uma vez que existem cerca de cem funcionários na missão americana, diversas centenas na inglesa e muitas outras centenas nas demais embaixadas, um diplomata nunca tem necessidade de jantar sozinho. Os diplomatas, como é hábito, pouco se relacionam com os cidadãos vulgares dos países onde estão acreditados. O círculo diplomático é frequentado pelas famílias portuguesas importantes que têm laços internacionais, como os Pinto Basto ou os banqueiros Espírito Santo (traduzido para inglês, o nome do seu banco é Bank of Holy Ghost and Commerce), ou pelos aristocratas mais gregários. No entanto, e salvo algumas excepções – na maioria, jovens diplomatas recém-colocados, que julgam que devem perceber os indígenas –, o Corpo vive fechado sobre si próprio. Falam a mesma linguagem em vários idiomas. A maioria sentir-se-ia muito desconfortável se acaso tivesse de mudar de linguagem.
 
         Muitos dos diplomatas de topo vivem em quintas fora de Lisboa, o que causa algum incómodo no Ministério dos Negócios Estrangeiros, que preferia que residissem dentro dos limites da cidade. Uma quinta é uma espécie de propriedade rural, geralmente antiga. Um bom exemplo é o Castelo, em Manique, actualmente habitada pelo primeiro e pelo segundo secretários da embaixada dos Estados Unidos, os senhores Dickerson and Rose, e as suas mulheres. O edifício central é um imenso castelo, feito de pedra acinzentada, com magníficos azulejos pintados de azul em várias divisões, jardins mouriscos, e uma piscina onde outrora foi a cisterna da quinta. A construção mais notável desta quinta é a sua capela, que alberga os restos mortais de Santa Ágata. «Restos mortais» é dizer pouco; a senhora, completamente visível através de um vidro, está muito bem conservada, encontrando-se reclinada numa caixa ornamentada. O seu rosto permanece intacto e é muito belo, as mãos estão cobertas por luvas douradas, tem um vestido de fina malha e flores de prata no cabelo empoeirado. Os actuais moradores da quinta tratam-na com um misto de respeito e de indiferença amigável. Já os visitantes, caso estejam pouco habituados à presença tangível de santos, podem sentir alguma perturbação ao vê-la.
 
         Uma vez que a mão-de-obra é das coisas mais baratas de Portugal, as anfitriãs têm ao seu serviço quantas empregadas e cozinheiros e quantos mordomos quiserem. Por apenas dez dólares por mês é possível contratar uma empregada com experiência. Apenas os salários dos cozinheiros são um pouco mais elevados do que os restantes. Nos jantares diplomáticos, a comida é geralmente excelente, sobretudo quando se refreia a paixão nacional pelo barroco e um peixe fresco não é torturado a ponto de se tornar uma réplica de Crystal Palace. Todos os jantares são antecedidos de aperitivos, acompanhados por três qualidades de vinho e rematados com licores. Em Lisboa, todos comem em excesso e pagam por isso, tendo de alargar uns furos no cinto para alojar o «estômago lisboeta»; um trabalho esgotante, enfim.   
 
          Uma variante simpática a esta rotina de jantares são os piqueniques oferecidos pelo ministro da Suíça, Henri Martin, um cavalheiro requintado e de alguma idade, que sabe combinar boas maneiras e um interesse cortês pelas senhoras. Os convites para esses piqueniques, que têm lugar aos domingos, são escritos sob a forma de poemas, em francês, cheios de alusões mitológicas; é suposto que sejam respondidos da mesma forma. São muitos os que consideram que o evento vale a pena tal esforço. O Senhor Martin é um anfitrião soberbo. Os convidados reúnem-se em sua casa ao meio-dia para os cocktails. Uma hora depois, são levados numa frota automóvel até à praia da Adraga. Enquanto os que que querem vão tomar banho ao mar, é posta uma mesa ao comprido. Os lugares são marcados, pois há limites para a informalidade diplomática. É servido champanhe, acompanhando uma refeição estupenda. Depois de almoço, muitos dos convidados adormecem. Quando acordam, entorpecidos, são trazidos para casa a tempo de se vestirem para jantar, que em Lisboa é servido geralmente às nove da noite.
 
         Os diplomatas britânicos e americanos, que trabalham amigavelmente em conjunto, protegendo-se entre si, são muito hospitaleiros. Henry Hopkinson, o Ministro britânico (em breve, irá para Itália), e a sua mulher, de nacionalidade americana, são os representantes típicos do grupo mais informal, relaxado e jovem do corpo diplomático. Por seu turno, o embaixador espanhol, Franco, raramente recebe e, quando é convidado para ir a algum lado, aparece geralmente com uma hora de atraso, isto quando aparece. Mas, se aparece, o irmão do Caudilho é jovial e falador. Nos eventos sociais, que em regra incluem pessoas de cinco nacionalidades diferentes, fala-se francês, o que dá um toque de urbanidade a um encontro social, mas nada mais. Os diplomatas guardam os seus segredos para os respectivos ministérios. As conversas à mesa centram-se em trivialidades e mexericos. Lisboa está feita para as intrigas e para a má-língua, uma vez que o clima, quer física, quer mentalmente, não é propício ao trabalho. Daí ser particularmente admirável o facto de alguns diplomatas ainda se dedicarem a trabalhar. O pessoal da nossa embaixada é deveras industrioso; mantém o horário de trabalho das nove às seis (com duas horas de almoço), facto que suscita reprovação geral. A maioria dos diplomatas não trabalha antes das onze da manhã, entre a uma e as quatro e depois das seis da tarde. Os ingleses, ligeiramente menos rigorosos do que os americanos, começam às dez. 
 
         Os alemães e os espanhóis têm as embaixadas mais belas da cidade, sedeadas em antigos palácios. Os ingleses surgem logo a seguir: o seu principal edifício é um palácio cor de mostarda espraiado na horizontal, com uma história antiga. Os funcionários dos Estados Unidos estão dispersos por meia-dúzia de edifícios, nenhum deles com valor histórico. O adido naval, o departamento de imprensa, a chancelaria e o consulado encontram-se em edifícios separados. O embaixador anda à procura de uma casa suficientemente ampla para alojar todos os seus funcionários.
 
         Uma vez que em tempo de guerra os funcionários não são encorajados a mandar as famílias para casa, as embaixadas e os consulados estão cheios de jovens homens e mulheres sem colocação oficial. Esta gente, que normalmente ocupa os lugares subalternos ou não ocupa sequer qualquer posto, não se encontra, assim, tão vinculada ao protocolo, pelo que se entrega a diversões mais informais do que os seus colegas mais velhos. Aos fins-de-semana, nadam ou fazem piqueniques numa das seis ou oito maravilhosas praias que existem em redor de Lisboa ou vão às touradas e às feiras populares. De noite, deslocam-se ao Galgo’s ou ao Nina’s, os únicos bares onde uma rapariga «decente» pode ir, ou ao Wonder Bar, no Casino Estoril. O Galgo’s é frequentado tanto pelo pessoal do Eixo como pelos Aliados, sendo propriedade de uma dupla chamada, assaz metaforicamente, Sr. Wolff e Sra. Fox. O ambiente é português, com música à viola e uma pequena pista de dança. O Nina’s, com uma decoração típica da Rússia imperial, é frequentado sobretudo pelos ingleses e pelos americanos, a que se juntam alguns espanhóis e portugueses mais cosmopolitas. O Wonder Bar, um pequeno e vulgar clube nocturno, destaca-se apenas pelo seu pianista, um espanhol suado e de meia-idade que canta músicas do seu país como se estivesse a lutar pela própria vida.  
 
         Durante a saison lisboeta, que começa por volta da Páscoa e termina em Junho, o melhor lugar para observarmos o corpo diplomático em todo o seu esplendor e diversidade são os concertos realizados no Teatro de Ópera de São Carlos, um dos edifícios mais encantadores desse género que existem na Europa. Os diplomatas, acompanhados das mulheres e das filhas, exibem-se em fileiras de camarotes que parecem boxes de cavalos. Durante a actuação, que pouco lhes interessa, a plateia entra em frenesim. Cinquenta pares de binóculos, de um lado, observam outros cinquenta, do outro lado. Para conseguir sobreviver a este escrutínio, a mulher de um diplomata tem de dispor de um vasto guarda-roupa. Além disso, há a obrigação de vestir de modo formal em plena luz do dia. Note-se que em Portugal o sol só se põe por volta das nove da noite.
 
         Agora, os diplomatas alemães foram praticamente expulsos da vida social lisboeta. Os japoneses nunca a frequentaram. Os franceses afectos a Vichy perderam o pouco prestígio que detinham e encontram-se na posição dilacerante de não desejarem sequer ser vistos com os seus aliados. O Ministro da Alemanha, Hoyningen-Huene, é um aristocrata da velha guarda, respeitado até pelos diplomatas de países inimigos, que não acreditam que alguma vez tenha sido um nazi entusiasta. Ele e a sua mulher, a filha do industrial Borsigs, retiraram-se da vida pública, provavelmente porque preferem acompanhar em privado a tragédia que se abate sobre o seu país. Os únicos diplomatas alemães que agora aparecem em público pertencem aos escalões mais baixos, e tudo indicia que o fazem mais por bravata do que por prazer. Um japonês raramente aparece em público desacompanhado de outro japonês.
 
 
         De Gaulle e o Governo Provisório de França estão representados por uma pequena missão chefiada por Armand Duchayla, um experiente diplomata de cinquenta e poucos anos. Duchayla é um homem seco, obstinado, sério e apaixonado pelo culto do corpo. É um solteirão que não fuma nem bebe, um excelente boxeur e cavaleiro. Ao contrário dos seus colegas, absorvidos pela política, é capaz de fazer duplos mortais ao saltar para a água. Entre os italianos, há alguns reaccionários violentos, que não se conformam com o rumo dos acontecimentos. Um deles é Terragni, o antigo adido militar. A legação, no entanto, é dirigida pelo encarregado de negócios, pró-Aliados, o marquês Lanza d’Ajeta. D’Ajeta foi chefe de gabinete de Ciano, em Roma. Antes do armistício de Itália, ele e a sua bela mulher não eram convidados para local algum, mas agora aparecem em tudo o que é recepção dada pelos Aliados. Os romenos estão algo embaraçados pela posição que ocupam e procuram saltar para o carro certo, o qual, infelizmente, tarda em chegar. Os húngaros estão divididos – de um lado, o pessoal da legação, controlada pelo Eixo; do outro, o grupo dos Húngaros Livres.
 
 
         A situação é quase tão confusa para os diplomatas como para os que a observam de fora. Para um diplomata, é relativamente fácil evitar os principais representantes dos governos inimigos, o que já não acontece se se tratar de colegas em postos menos elevados, com quem se avista devido a contactos feitos antes da guerra. Um inglês, por exemplo, tem de ter cuidado antes de acenar a um colega romeno que conheceu em Bucareste, e um americano outrora colocado em Budapeste não pode sequer sorrir a um húngaro com quem se encontrava todos os dias.
 
         Esta charada diplomática que se desenrola numa capital neutral é vista frequentemente como uma trivialidade imperdoável, atendendo ao facto de a maior parte do mundo se encontrar em guerra. Em muitos aspectos, trata-se de uma vida tão distante da realidade como da ilusão. Um diplomata de carreira não tem raízes, e conhece o povo do seu país quase tão mal como o dos países onde está acreditado. O século do homem do povo decerto não nascerá em Lisboa. Mas, por outro lado, é possível que uma liga de nações veja aqui a luz do dia. Em diversas embaixadas, há homens cuja principal preocupação não se limita aos vinhos e às conversas, homens que pensam em termos mais amplos e que querem agir também em termos mais amplos. Mas muitos deles nunca terão hipóteses de o fazer. As velhas marcas do cinismo e do anti-semitismo, associadas ao medo da Rússia, resquícios da propaganda nazi, ainda são, tragicamente, muito fortes.
 
Marya Mannes 
 
        Tradução de António e Maria Leonor Araújo
 

5 comentários:

  1. Mais uma vez, obrigada! Aodorei a referência à Santa, que me aterrorizava quando eu ia a festas naquela Casa em Manique!
    MAria Teresa Mónica

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    1. Obrigado, Marta e Teresa, pelas palavras tão simpáticas. Vou tentar colocar mais textos destes no Malomil.

      Cordialmente,

      António

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  2. Obrigada por terem traduzido e publicado este texto tão delicioso. Isabel Amaral

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  3. Obrigada por terem traduzido e publicado este texto tão delicioso. Isabel Amaral

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