domingo, 10 de julho de 2016

Não Criei Musgo, de John Gibbons.

 
 

 
 
         Ao contrário de Yann Martel, John Gibbons não escreveu um sucesso mundial adaptado ao cinema, cujo enredo tem por personagens um menino e um tigre que, após um naufrágio, percorrem os oceanos a bordo de um salva-vidas. Não admira, pois, o alarido mediático suscitado pelo último livro de Martel, As Altas Montanhas de Portugal, dedicado a Trás-os-Montes. Menos compreensível, no entanto, é o esquecimento a que a obra de Gibbons continua a ser votada.
         Por ocasião do 250º aniversário da vila de Carrazeda de Ansiães, a edilidade promoveu em 1984 a edição de Não Criei Musgo. O livro já foi alvo de uma excelente dissertação académica (O Portugal de Salazar Visto de uma Varanda Transmontana, de Ana Isabel Nú Calado, 2005) e de um interessante artigo na Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, da autoria da geógrafa Fátima Loureiro de Matos, mas, estranhamente, continua a não despertar a atenção dos nossos editores.
         A ideologia do autor não ajuda, é certo. E, em 1939, a obra foi galardoada com o Prémio Camões pelo Secretariado de Propaganda Nacional, o que só piora as coisas. Gibbons, que traduziu para inglês as entrevistas de António Ferro a Salazar, não só não esconde a sua admiração pelo ditador como lhe tece rasgados elogios, à semelhança dos vários escritores estrangeiros que visitaram Portugal nos anos trinta – com excepção de Ralph Fox, militante comunista e biógrafo de Lenine cujo livro Portugal Now foi publicado entre nós pela Tinta-da-china, em 2006.
John Stephen Reynolds Gibbons nasceu no Sul de Londres em 1882, filho de um advogado oriundo de uma família de pequenos proprietários rurais do Lincolnshire. Passou a infância e a juventude em York, sonhando com viagens a países longínquos. Aos dezassete anos, abraçou a fé católica, tornando-se praticante, e, quatro anos depois, casou com Mabel Woodhead, de quem teve duas filhas. Por essa altura, torna-se investigador na biblioteca do Museu Britânico, fazendo pesquisas para outros a troco de magros honorários. Alistado como voluntário, partirá para a Flandres em 1914, de onde regressa em 1918 com uma doença nervosa de guerra – a shell shock – e o esboço do seu primeiro livro. Em 1922, será abalado pela morte da mulher e pelo adensar da frustração de, aos 45 anos de idade, não ter ainda concretizado o velho sonho de deambular pelo mundo. Tendo casado de novo, uma filha deste matrimónio adoece gravemente e, a instâncias da mulher, Gibbons tenta levá-la em peregrinação a Lourdes. Para o efeito, procura o apoio da revista semanal católica Universe, que o contrata para escrever uma série de reportagens sobre a sua ida a França, pouco depois reunidas no livro Tramping to Lourdes. É aí, numa fase da vida em que as esperanças de ser um escritor-viajante se desvaneciam, que a sua sorte começa a mudar. O Daily Express contrata-o para escrever um conjunto de artigos sobre a Irlanda e o êxito alcançado levá-lo-á a Itália, sobre a qual escreve Afoot in Itlay, onde manifesta a sua admiração pela obra de regeneração nacional levada a cabo por Mussolini. O Duce leria o livro e, através dos canais diplomáticos, fez saber a Gibbons que o autorizava a dedicar-lhe uma eventual segunda edição da obra, o que veio a acontecer. Por essa altura, Gibbons dá à estampa London to Sarajevo e, no ano seguinte, em 1931, Afoot in Portugal, a primeira obra que dedica ao nosso país. Seguir-se-lhe-ia, em 1936, Playtime in Portugal. An Unconventional Guide to the Algarves, fruto de uma viagem realizada em 1934 a convite das Comissões de Iniciativa de Turismo daquela região. Dois anos depois, em finais de 1938, regressa a Portugal, desta feita ao Alto Douro. Antes dessa jornada, estivera em vários lugares – Norte de África, Estados Unidos, Palestina, Irlanda, Finlândia, países bálticos –, sendo um prolífico escritor de viagens já bastante conhecido e popular, que a par disso publica obras em jeito de almanaque de curiosidades (Fun and Philosophy. Curious Corners of Unwritten History, saído em 1932 e vergastado pela crítica) e títulos de cariz religioso ou hagiográfico. Se a sua admiração por Mussolini foi patente em escritos anteriores, Gibbons não deixará de apelar a que os jovens do seu país se alistassem em defesa de Inglaterra. «I am English, and I am sufficiently old-fashioned always to think of England as the Finest Country in the World», escreveu em Roll on, Next War!, livro de 1935, redigido, portanto, na iminência de um novo conflito bélico.
Quando, em 1938, chega a Portugal pela terceira vez na sua vida, Gibbons teria já, muito provavelmente, abandonado o seu deslumbramento pelo fascismo italiano. Talvez por isso, veja em Salazar o modelo ideal de um governante católico e conservador, avesso ao culto das multidões tumultuosas e dos belicismos sangrentos. A sua experiência na Grande Guerra marcara-o profundamente (como se detecta, aliás, nas páginas de Roll on, Next War! em que adverte os mancebos ingleses para os horrores da frente de batalha). A povoação de Coleja, em Trás-os-Montes, revela-se o refúgio ideal naqueles dias tempestuosos. Fora lá parar porque um amigo de nacionalidade portuguesa, que vivia em Londres há vários anos, pôs à sua disposição a casa que tinha naquela aldeia transmontana e prontificou-se a escrever a um habitante de Coleja para que recebesse condignamente o viajante inglês. Esta circunstância fortuita acaba por ser decisiva para a importância e o valor de Não Criei Musgo: ao contrário dos escritores-viajantes que percorriam en passant os pontos turísticos mais conhecidos – o Bussaco, a Batalha, Lisboa e Porto – ou estanciavam em hotéis termais, John Gibbons irá permanecer quatro meses seguidos numa aldeiazinha de Trás-os-Montes, como se realizasse trabalho de campo semelhante ao de um antropólogo ou de um etnógrafo. Mesmo os que queiram questionar a qualidade do livro – que, obviamente, não tem quaisquer pretensões científicas – terão de reconhecer a sua absoluta singularidade dentro do género «estrangeiros em Portugal». 
Viajando em terceira classe, como sempre fazia, e equipado sumariamente com uma bagagem reduzida, um guarda-chuva e uma máquina de escrever, John Gibbons instala-se na povoação – e começa a observá-la. O retrato que traça do quotidiano de Coleja e terras limítrofes dá-nos uma ilustração do dia-a-dia dos habitantes, que de certo modo se comportavam como indígenas exóticos: analfabetos, presos ao amanho da terra, amantes do seu copito, passavam os serões a jogar às cartas, sem qualquer espécie de interesses intelectuais. Quando começa a receber, com semanas de atraso, exemplares do Daily Telegraph, nenhum habitante de Coleja mostra particular apetência em saber o que se passava no estrangeiro. De uma forma quase militante, ignoravam o que sucedia longe dali, da aldeia onde viviam, aprisionados a um destino agreste.   
Não Criei Musgo, assim se chama o livro, é uma tradução difícil do título original – I Gathered no Moss –, o qual, por sua vez, pode revestir-se de um duplo significado. Como observa Ana Isabel Calado na tese que atrás citámos, pode remeter para a expressão inglesa «a rolling stone gathers no moss», que designa uma pessoa que muda constantemente de profissão ou local de trabalho, nada fazendo de consequente e perene e nunca chegando a alcançar sucesso ou a amealhar fortuna. Nesse sentido, seria um auto-retrato do autor, em permanente errância pelo mundo fora. Existe, todavia, um outro significado possível para o título do livro, algo críptico. Não Criei Musgo poderá querer dizer que, tendo-se instalado em Coleja e aí criado amizades e raízes, Gibbons teve, com alguma mágoa (ou portuguesa saudade), de abandonar abruptamente a aldeia transmontana. I Gathered no Moss seria o último livro da sua vasta bibliografia, tendo o autor falecido em 1949.   
Em várias passagens, a obra de Salazar é enaltecida e a visão que Gibbons nos dá de Trás-os-Montes da década de 1930 é algo edulcorada e complacente para com a pobreza e até a miséria reinantes, contrastando com as cores sombrias que a literatura neo-realista utilizará para retratá-las. O inglês, todavia, não escamoteia a existência de pobres nem as dificuldades das suas existências. Mas, como disse noutro livro sobre o nosso país, «Portugal is emphatically a cheap country.» Para um escritor de parcos recursos, esse era um motivo decisivo para gostar desta terra e louvar a sapiência dos seus governantes. A dado passo de Afoot in Portugal, chega mesmo a sustentar que, se por cá existia uma ditadura, em Inglaterra também a havia, com a única diferença de o autoritarismo português ser mais eficiente do que o seu congénere britânico…     
  O livro não é, nem pretende sê-lo, um levantamento sociológico rigoroso ou uma descrição etnográfica da realidade daquelas terras remotas, dos seus povos e costumes. Ainda assim, a finura do olhar de Gibbon e o humor com que observa o que vai sucedendo em Coleja fornecem-nos um retrato em miniatura, com laivos pueris mas não ofensivos, do que era a vida numa aldeia transmontana durante o salazarismo. Deliberadamente, para não ofender os seus anfitriões de Coleja, John Gibbons admite ter omitido um ou outro pormenor mais impróprio, mas o autor tem suficiente talento de escrita e experiência de viajante para não resvalar na sobranceria típica de alguns estrangeiros que passaram por Portugal.
A leitura de I gathered no moss é, indubitavelmente, muito mais interessante e suculenta do que livros ainda hoje saudados, como Portugal. La vie sociale actuelle, que Paul Descamps publicou em 1935, um relatório descritivo, de insuportável aridez, carregado de factos e números sobre a realidade portuguesa da década de 1930. Não se compreende, pois, o motivo pelo qual a obra de Gibbons não tenha merecido mais destaque, seja durante o consulado de Salazar, seja no Portugal dos nossos dias. Após a sua publicação em Londres, John Gibbons viria a Lisboa, onde foi recebido com entusiasmo, sendo ovacionado no Teatro da Trindade em cerimónia a que se dignou comparecer o próprio Presidente do Conselho. Deram-lhe o Prémio Camões mas, sem que se perceba porquê, não traduziram o seu livro para a língua do Poeta. Só em 1984, como se disse, a obra seria vertida para português, numa meritória iniciativa da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães. Ao que sei, Não Criei Musgo encontra-se à espera que um editor esclarecido lhe dê a divulgação que merece. Enquanto isso, Yann Martel inunda os escaparates das livrarias com um best-seller que certamente terá as suas qualidades mas que dificilmente poderão ombrear com os méritos de I Gathered no Moss. De facto, nada justifica o olvido de um livro que, pelos vistos, não criou musgo. É pena.   



 

   
 
 
 
 
 
John Gibbons, Não Criei Musgo.
Retrato de uma aldeia transmontana, 1939.

 
António Araújo     
 
 
 
 
 

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