segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Lembrando Mário Soares.


 
 
 
 
 
         Faleceu no dia 7 de Janeiro de 2017, com 92 anos, Mário Soares, no Hospital da Cruz Vermelha de Lisboa.
           Foram três os meus encontros pessoais com Mário Soares.
         O primeiro aconteceu no dia 17 de Outubro de 1974 e encontra-se narrado numa das entradas do meu Diário, nos termos que se seguem:
         “No contexto da dita visita [a do Presidente da República, General Costa Gomes, às Nações Unidos e aos Estados Unidos], não posso esquecer o encontro com Mário Soares, ao tempo Ministro dos Negócios Estrangeiros, na residência do Embaixador de Portugal às Nações Unidas, Professor Veiga Simão, no célebre Dakota Building da 72.th Street de Nova Iorque. Como, por essa altura, uma das questões mais debatidas entre os membros das comunidades portuguesas da diáspora era o papel que lhes caberia desempenhar no futuro político de Portugal, alguns de nós aproveitámos a ocasião para perguntar a Mário Soares, na sua capacidade de Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, se não achava bem que os emigrantes tivessem também direito a voto para a eleição dos deputados à Assembleia Constituinte e, futuramente, à Assembleia da República, e também para a eleição do Presidente da República. Que sim: que em princípio concordava com isso, mas que a questão era muito complexa e que havia muitas coisas a considerar. Respeitosamente solicitado a explicar-se, o ilustre Ministro dos Negócios Estrangeiros voltou-nos malcriadamente as costas e pôs-se a brincar, no meio da sala apinhada de convidados, com a filha mais nova de Veiga Simão, a  Cristiana, atirando-a ao ar repetidamente, para gáudio da menina e para decepção dos emigrantes portugueses, apaixonados pela velha Pátria e sedentos de esclarecimentos por parte dos putativamente representantes da coisa pública portuguesa, neste caso o Ministro dos Negócios Estrangeiros do novo Portugal”
         O meu segundo encontro pessoal com Mário Soares teve lugar por ocasião da inauguração em Constância do Jardim-Horto de Camões, ocorrida no dia 21 de Abril de 1990. Na qualidade de membro da Associação para a Reconstrução da Casa - Memória de Camões, ou Casa dos Arcos, em Constância, estive presente na cerimónia oficial dessa inauguração, a convite da fundadora dessa Associação, Dona Manuela de Azevedo, jornalista do Diário de Notícias (de Lisboa), escritora e camonista.
         (Esclareço, entre parêntesis, que foi essa sua faceta de camonista de Manuela de Azevedo que esteve na origem do convite para eu me tornar membro dessa associação. É que ela tinha lido os meus estudos sobre o contemporâneo de Camões e possivelmente seu conhecido e amigo pessoal, Fernão Álvares do Oriente, contidos no que foi a minha tese de doutoramento: Fernão Álvares do Oriente – O Homem e a Obra. Paris: Fundação Calouste Gulbenkian, 1976; e na terceira edição da sua novela pastoril: Fernão Álvares do Oriente, Lusitânia Transformada. Introdução e actualização de texto de António Cirurgião. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1985. Um dos temas constantes da tese e da introdução à terceira edição é a hipótese de Camões ser uma das principais personagens da novela pastoril de Fernão Álvares e, como tal, ter sido desterrado pelo rei para a vila de Constância, lá onde os rios Nabão e Zêzere desaguam no Tejo.)
         Tendo passado praticamente o dia inteiro em companhia dos outros membros da Associação e de um vasto número de convidados ilustres, não pude deixar de ficar relativamente impressionado pelo à vontade com que o Presidente da República confraternizou com todos os presentes e pela sua razoável cultura humanística.
         Nesse contexto, não me posso esquecer de dois episódios ocorridos durante o banquete servido numa espécie de barracão muito rústico, em enormes mesas de granito, a fazer lembrar os grandes jantares nas fartas casas senhoriais da Idade Média.
          Vamos aos episódios. Populista, extrovertido e “bon vivant”, logo me dei conta de que Mário Soares conhecia de cara e de nome praticamente todos os membros da Associação e os convidados. E, sendo assim, em determinado momento levantou-se da mesa e fez questão de cumprimentar individualmente e informalmente cada um dos comensais. Quando se aproximou de mim, voltou-se para a senhora que estava sentada à minha direita, uma jornalista do New York Times, que acompanhava Mário Soares em todas as viagens oficiais, e perguntou-lhe quem eu era. Apresentado pela senhora jornalista, que eu conhecera nesse dia, por mero acaso, Mário Soares, com a destreza dos políticos natos, apressou-se a felicitar-me pela “nobre” profissão que escolhera e a exortar-me a que continuasse a promover a língua e a cultura portuguesas nos Estados Unidos, e, especificamente, a levantar cada vez mais alto o nome glorioso de Camões.
         O outro episódio só não vim a utilizá-lo um pouco mais tarde como jornalista “free lance”, que eu era, por dele haver tomado conhecimento nas circunstâncias que passo a expor. Quando a principal fundadora da Associação, Dona Manuela de Azevedo, aproveitou do seu brinde para pedir ao Presidente da República apoio financeiro para levar a bom termo a reconstrução da Casa-Memória de Camões em Constância, Mário Soares, batendo levemente no ombro de Carlos Melancia, governador de Macau, sentado a seu lado, respondeu prazenteiramente, mais ou menos nestes termos, à digna senhora: - Dinheiro? Precisa de dinheiro? Ó minha senhora, peça-o aqui ao meu amigo Melancia, que ele é Governador de Macau e é muito rico. É que, como muitos deverão saber, a questão de presumível enriquecimento fraudulento em Macau, por parte de certas figuras públicas e governantes portugueses, viria a ser objecto de um livro altamente polémico de Rui Mateus, Contos Proibidos, publicado em 1996, e de quentes debates públicos em Portugal, de que o chamado “Fax de Macau” pode servir de metáfora e paradigma.
        Para concluir o breve relato do meu segundo encontro pessoal com Mário Soares, acrescentarei apenas que a maneira como o Presidente de Portugal viveu essa efeméride em honra do Príncipe dos Poetas Portugueses em Constância me impeliu a escrever-lhe uma breve carta no dia seguinte, a felicitá-lo pelo seu manifesto interesse pela cultura portuguesa com C maiúsculo.  
         À guisa de apêndice, apraz-me registar nesta entrada do meu Diário uma nota pertinente, sem nome de autor nem data, descoberta na “internet”:
         O Jardim-Horto [em Constância], desenhado pelo arq.º Gonçalo Ribeiro Teles, foi inaugurado pelo presidente da República, dr. Mário Soares, em 1990. Reúne toda a flora referida por Camões na sua obra, num total de 52 espécies. No seu interior o visitante pode apreciar ainda o Jardim de Macau, o Planetário de Ptolomeu no Auditório ao ar livre e um painel de azulejos que apresenta as partes do mundo que Camões percorreu, de Lisboa a Macau, passando por África e pela Índia. A enorme esfera armilar, a maior de Portugal, assinala os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses, que o épico imortalizou em Os Lusíadas, e o caráter universalista da nossa cultura.
É, sem dúvida, um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.
        
         O meu terceiro encontro pessoal com Mário Soares aconteceu por ocasião das  comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, celebradas no dia 10 de Junho de 1990, em Braga. Tendo sido nesse ano galardoado com a Grã Cruz da Ordem do Infante Dom Henrique o meu amigo Dr. Adriano Seabra Veiga, cônsul honorário de Portugal no Estado de Connecticut, e vendo-se impossibilitado de se deslocar a Portugal, pediu-me a mim que o representasse oficialmente nessa cerimónia, em que, entre outras altas individualidades, estavam presentes, como é da praxe, o Presidente da República, Dr. Mário Soares, e o Chanceler das Antigas Ordens Militares Portuguesas, Marechal António de Spínola.
         Terminadas as cerimónias e a entrega das condecorações, todos os participantes tomaram parte num piquenique organizado ao ar livre, junto ao Santuário do Bom Jesus de Braga, à sombra de frondosas árvores.
         Tal como sucedera por ocasião do primeiro encontro, na residência oficial do Representante de Portugal às Nações Unidas, em Nova Iorque, também em Braga, durante o piquenique, aproveitei a ocasião para tentar trocar impressões com o Presidente da República sobre questões relacionadas com a política do governo português junto dos  portugueses da diáspora. E tal como sucedera em 1974, em que Mário Soares se furtou ao diálogo, também em 1990, mutatis mutandis,  sucedeu a mesma coisa, provavelmente por achar que os portugueses da diáspora não eram dignos das atenções de quem como ele, além de Presidente da República, ex-Primeiro Ministro e ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros, era l’ami de Monsieur Mitterrand, de Willy Brandt, de Olof Palme e de outros estadistas célebres.
         Em compensação, e em gritante contraste com o comportamento do seu ilustríssimo marido, a Primeira Dama, a D.ra Maria de Jesus Barroso, ao saber que eu era professor de Português numa universidade americana, entrou em conversa comigo, com a maior simplicidade, começando por me perguntar se eu por acaso conhecia um professor de Português da Universidade da Califórnia em Los Angeles, chamado Eduardo Mayone Dias, o qual – dizia-me ela com entusiasmo – tinha sido colega dela na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. E, no decorrer da conversa, sendo vago conhecedor da carreira de declamadora e de actriz de Maria Barroso, numa fase longínqua da sua vida, aproveitei para lhe lembrar alguns dos seus grandes êxitos no palco, dando especial relevo à encenação, em estreia absoluta, no Teatro Nacional, da peça de teatro de José Régio: Benilde ou a Virgem Mãe, drama em três actos, em que ela, D.ra Maria Barroso, desempenhou com brilhantismo o papel da protagonista, facto que José Régio fez questão de registar, com orgulho, nas Páginas do Diário Íntimo (Lisboa: IN-CM, 2004, p. 230).
         No termo dessa conversa com Maria Barroso pude concluir que ela era dotada de uma grande curiosidade intelectual, vivia apaixonadamente as coisas da cultura e tinha saudades dos seus tempos áureos de declamadora e de actriz.
                                                                                                       
António Cirurgião
 
 
 
 

5 comentários:

  1. Penetrante descrição de Soares , através do "retrato" da Dra.
    Maria Barroso...

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  2. Penetrante descrição de Soares , através do "retrato" da Dra.
    Maria Barroso...

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  3. Consta que soares não gostou do retrato de pomar.
    Mas não teve coragem de lho dizer.

    Mostra um gesticulante vendedor de banha da cobra.
    Um burlador palpitante, habituando ao mando e à cumplicidade sobre quem se achava com superioridade moral e credor de favores, prebendas e lugares.

    Pairava sobre a grei, qual um "alfa" sobre esfaimada matilha.

    Um sátrapa.

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  4. Vou-me repetir mas é uma delícia ler estas suas memórias!

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  5. Sr.(S.ra) Camisa,

    Muito obrigado pelas suas amáveis e generosas palavras.
    Cordiais saudações
    do
    Cirurgião

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