quinta-feira, 30 de março de 2017

Bodas de prata de um menu muito especial.

 
 

 
Começo por propor que recuemos até ao dia 26 de Fevereiro de 2017 e que entremos nos terrenos labirínticos da História Contrafactual, ou Alternativa, ou Especulativa, ou Virtual, ou outro nome qualquer da sua preferência que represente um afastamento da verdade dos factos. Imagine-se agora no Dolby Theatre, em Hollywood, e faça de conta que La La Land acaba de vencer os 14 óscares para que estava nomeado. Não vencer sem ter vencido, como aconteceu com o prémio de Melhor Filme, mas vencer claramente vencendo, como costumava acontecer nas edições anteriores. Eis o que, penso eu, aconteceria de imediato: uma comunicação social em êxtase relatava o novo recorde absoluto e a ultrapassagem efectuada a Ben-Hur (1959), Titanic (1997) e O Senhor dos Anéis (2003), detentores de 11 estatuetas cada. E eis o que, na minha opinião, passaria despercebido: pela primeira vez na história um filme com argumento original levava para casa o “quinteto mágico”, mais conhecido na sua terra como “The Big Five”. E assim se desprezaria, inacreditavelmente, o mais extraordinário feito da noite.
Regressemos ao dia de hoje para analisar com mais cuidado o desdém nacional e internacional a que este pentagrama da excelência é votado. Uma qualquer pesquisa no Google através das suas designações, em português ou em inglês, devolve-nos os cinco animais mais difíceis de caçar em África, vários quintetos futebolísticos mundiais, importantes agremiações de fagotes, trompas, clarinetes, oboés e flautas, e até uma paleta de sombras de olhos! Películas cinematográficas, o nome snob para filmes, é que nem vê-las. No entanto, até hoje, apenas três fitas conquistaram este conjunto formado pelas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actriz, Melhor Actor e Melhor Argumento (original ou adaptado).
(alerta: com a utilização da palavra “fita” esgotei os sinónimos que conheço, pelo que, a partir de agora, será sempre “filme” até ao fim.)
E desses três protagonistas – Uma Noite Aconteceu (1934); Voando sobre um Ninho de Cucos (1975); O Silêncio dos Inocentes (1991) –, nenhum se baseou num guião original: o primeiro foi adaptado de um conto de 1933 e os outros dois de novels dos anos 60 e 80 (se uso “novel” em vez do nosso “romance”, é por não conseguir dissociar o romance do romântico, aplicando-o a todo e qualquer género narrativo em prosa, incluindo o que se ocupa de enfermeiras sádicas e de lobotomias (no caso dos Cucos), ou de esfoladores de mulheres e canibais (no caso dos Inocentes).     
Nascido em 1977, não tive oportunidade de assistir numa sala de cinema ao confronto entre Louise Fletcher e Jack Nicholson, e muito menos à obra de Frank Capra, ainda na era do preto e branco. Mas lembro-me muito bem do efeito que o filme de Jonathan Demme teve no meu impressionável cérebro de adolescente. Fui vê-lo duas vezes mediante pagamento de bilhete, aluguei-o no videoclube, gravei-o em VHS quando passou na televisão e, com a cassete já visivelmente cansada de tanta reprodução, comprei o DVD para continuar a orgia de visualizações. Sempre achei piada a repetir os filmes de que gosto mas é possível que neste caso tenha exagerado. Decorei diálogos, gastei o botão de pause para analisar fotogramas, e ainda hoje respondo “ready when you are, Sergeant Pembry” à minha mulher quando ela me pergunta se estou pronto para sair de casa. Como nunca mostrei vontade de lhe comer o fígado com favas e Chianti, ela perdoa-me estes abusos de linguagem. Acredito que apenas John Hinckley Jr., o homem que tentou assassinar o Presidente Reagan para chamar a atenção de Jodie Foster, por quem tinha desenvolvido uma obsessão doentia, tenha passado mais tempo a olhar para um ecrã preenchido com a imagem da actriz (o episódio está envolto em lendas, mas é mais ou menos seguro que Hinckley se sentou dezenas de vezes nas salas de cinema por onde passava Taxi Driver, filme que valeu a Foster, então com 13 anos, a primeira nomeação para os prémios da Academia).
Numa época em que Hollywood aposta no poder parolo-sedutor de Christian Grey e das suas 50 sombras para preencher anualmente o imaginário do Dia dos Namorados, causa algum espanto que os produtores de O Silêncio dos Inocentes tenham escolhido precisamente o dia 14 de Fevereiro de 1991 para apresentarem Buffalo Bill e Hannibal the Cannibal à sociedade. Conseguimos facilmente imaginar os excelentes trocadilhos sobre quem vai comer quem segredados à saída do cinema por casais de pombinhos apaixonados, mas a verdade é que, apesar de toda a tensão erótica que existe entre a jovem estagiária do FBI Clarice Starling e o muito experiente psiquiatra Dr. Lecter, este não é certamente o típico filme dos programas de São Valentim.
 
 
A ideia original era que fosse lançado no Outono de 1990, mas a distribuidora Orion, apostada em promover Danças com Lobos para os óscares desse ano, empurrou o thriller de Demme para o ano seguinte. Assim, o estrondoso sucesso que este obteve na 64th Annual Academy Awards foi, a todos os títulos, surpreendente. Em primeiro lugar, a cerimónia ocorreu no dia 30 de Março de 1992 (comemora hoje o 25º aniversário, o que significa que já não vou para novo), quando já tinham passado mais de 13 meses desde a estreia do filme. Se analisarmos a data de lançamento dos galardoados com a estatueta de melhor filme, salta à vista a preponderância das chegadas ao grande ecrã durante a segunda metade do ano, para não dizer durante o último trimestre. Entre 2000 e 2014, por exemplo, de acordo com um estudo que não foi feito por mim, mas sobre o qual lanço a minha bênção e as minhas mãos de larápio, apenas 2% de todos os nomeados para essa categoria tiveram a sua estreia nos meses de Janeiro, Fevereiro e Março. Estamos a falar, para quem perceba pouco de matemática, de 2 filmes num universo de 100. Por outro lado, convém recordar que O Silêncio dos Inocentes foi, até hoje, o filme mais assustador a ganhar esse óscar. Este facto, totalmente pessoal e não sujeito a contraditório, é de realçar. Claro que também assusta que filmes como Uma Mente Brilhante ou O Discurso do Rei tenham ganho essa distinção, mas o susto que me interessa analisar agora é o que está relacionado com o medo e com o suspense. Admito que O Exorcista, um dos nomeados da colheita de 1973, a ter ganho a 46ª edição dos prémios, poderia baralhar as minhas certezas. Como não ganhou, o assunto está resolvido.
(se o caríssimo leitor reparou que o número da cerimónia hollywoodesca d´O Silêncio dos Inocentes é o espelho do número da cerimónia hollywoodesca d´O Exorcista, sugiro que se vá tratar com urgência.)
É bom não esquecer que o filme nos presenteou não com um, mas sim com dois excelentes (no sentido de horríveis) vilões. E foi até injusto, dado o seu desempenho, que Ted Levine não tivesse sido sequer nomeado para o óscar de melhor actor secundário pelo seu brilhante (no sentido de asqueroso) Buffalo Bill. Um homem que, entre outras coisas, prendeu os seus próprios genitais no meio das pernas enquanto executava uma dança extravagante para uma câmara de filmar, merecia esse reconhecimento.
 


 
 
Este psicopata, fruto de um cozinhado de vários serial killers reais e temperado com uma androginia à la David Bowie, é, na realidade, o verdadeiro monstro que debutou na sétima arte nos braços de Jonathan Demme. Hannibal Lecter, pelo contrário, já tinha “dançado” com o realizador Michael Mann em Manhunter (1986), embora, nessa altura, respondesse pelo nome de Lecktor. O actor escocês Brian Cox, então com 40 anos, foi por isso o primeiro a dar vida ao nosso canibal preferido, 5 anos antes do também cidadão britânico (natural do País de Gales) Anthony Hopkins. Como Manhunter foi um fracasso de bilheteira (os seus méritos só começaram a ser reconhecidos muito tempo depois da estreia), Demme e Hopkins puderam trabalhar o personagem como se fosse completamente novo.
 
 
 
 
O impacto que o filme de 1991 provocou, além de ter tido reflexo nos sempre polémicos óscares, também alterou o paradigma do suspense (“alteração do paradigma” é conversa de Prós e Contras, mas não deu para resistir), desencadeando uma nova onda viral de fascínio pelos cérebros dos serial killers. Não tendo nascido a tempo de assistir numa sala escura aos filmes de Alfred Hitchcock, sinto-me grato por ter conseguido ver O Silêncio dos Inocentes (ou o Seven de David Fincher, um outro exemplar de suspense de alta qualidade) no grande ecrã. Os magníficos close-ups, que agigantam a face de Lecter até ao ponto em que a sua testa e queixo já não cabem na tela, não assustam o suficiente numa televisão caseira. Jack Crawford, o responsável pela Unidade de Ciências do Comportamento do FBI (“unidade de ciências do mau comportamento” seria um nome mais honesto para o departamento em causa), avisa a sua protegida Clarice Starling do perigo que Hannibal Lecter representa. “Acredite em mim, você não quer ter o Hannibal Lecter dentro da sua cabeça”, é a frase que lhe dirige ao fim de cinco minutos de conversa, mas o realizador Jonathan Demme e o director de fotografia Tak Fujimoto asseguram, durante o resto do filme, que ele nunca mais sai da nossa.
 
 
 
Uma daquelas histórias que correm na internet conta que, quando perguntaram a Paul Thomas Anderson (o responsável, entre outros, por Magnolia e There Will Be Blood) quais eram os três realizadores que o tinham influenciado mais, ele terá dito “Jonathan Demme, Jonathan Demme, and Jonathan Demme”. A resposta estava naturalmente relacionada com os close-upsO Silêncio dos Inocentes.
O filme mostra-nos ao que vem desde os créditos de abertura. Enquanto desfilam pelo ecrã os nomes dos actores, produtores, argumentista, etc., acompanhamos uma jovem Jodie Foster a correr num bosque de forma desaustinada. Sabendo o espectador que se trata de um filme que envolve psicopatas, é inevitável que pensemos que a actriz está a fugir de um. Só quando ela passa por cima de um grande obstáculo em vez de o contornar é que a ansiedade acalma e percebemos que se trata simplesmente de uma pista de treino. Durante o resto do filme – e muito graças à música de Howard Shore e aos múltiplos ruídos que a equipa de som desenvolve – a plateia é muitas vezes mergulhada na aflição e grande parte do tempo é passado com o coração nas mãos.
O enredo conta-se em poucas linhas. Há um serial killer a monte (usando a terminologia da nossa GNR), que ocupa o seu tempo a raptar, assassinar e esfolar gordinhas; há um outro serial killer, famoso pelos seus hábitos alimentares, que se encontra devidamente enjaulado; e há uma agente estagiária do FBI, de aparente fragilidade, que vai tentar usar a inteligência deste último para capturar o primeiro. O resto são mind games de fazer inveja a José Mourinho, uma fuga de fazer inveja a Fátima Felgueiras e alguns anagramas de fazer inveja a Rogério Casanova.
A figura de Lecter é-nos servida em formato de duche escocês, submetendo-nos a contrastes sucessivos. Antes de o vermos pela primeira vez, esperamos o pior. É descrito como um monstro, revelam-se alguns pormenores macabros do seu comportamento e somos levados até à sua cela de Baltimore, nas profundezas da terra, através de incontáveis escadarias, alertas, portas blindadas, gradeamentos e polícias. Já na ala subterrânea de altíssima segurança, avançamos perante os olhares de outros presos de ar assustador, num sinistro crescendo de expectativa. Quando estamos já devidamente aterrorizados, esperando ver o próprio diabo encarcerado no final do corredor, eis que nos surge um homem gentil, sorridente, penteado e bem barbeado, a quem até o reles uniforme prisional assenta como se tivesse sido feito por um alfaiate de Savile Row. Mais tarde, já na magnífica prisão improvisada de Memphis, teremos o choque inverso. Foram-nos mostrados os seus requintados desenhos, o seu olfacto prodigioso, o seu gosto pela poesia, pela filosofia, pela haute cuisine e pelas Variações Goldberg de Bach, e estamos tão apaixonados pelos seus modos e maneirismos que já esquecemos as recomendações e avisos de Frederick Chilton, o director do hospital-prisão de Baltimore.
 
 
 
 
Olhamos para ele nesse momento como quem olha para um urso no jardim zoológico: sabemos da sua natureza, mas temos vontade de entrar na jaula para lhe fazer festinhas. E é nesta altura de vulnerabilidade do espectador que levamos com toda a sua selvajaria e requintes de malvadez, através de um ataque monstruoso a dois polícias, que inclui ventres abertos e faces arrancadas a golpes de canivete. É um momento poderosíssimo do filme, visualmente inspirado em trabalhos do pintor Francis Bacon, e que serve um duplo propósito de choque: Lecter sabe que o horror do cenário vai desorientar psicologicamente os polícias, aumentando assim as probabilidades de uma fuga bem-sucedida, e Jonathan Demme sabe que aquela cena vai acabar com todas as ilusões que fomos alimentando relativamente à humanidade do psiquiatra.
 
 
 
Há uma quantidade impressionante de páginas da internet dedicadas à forma como Anthony Hopkins deu corpo e voz à personagem, o que leva a que, tantos anos passados, mitos e verdades se misturem alegremente. Diz-se que estudou os répteis e a forma consciente e voluntária como, contrariamente aos humanos, piscam os olhos; que se inspirou na voz, na inteligência e na omnisciência do HAL 9000 da obra de Stanley Kubrick; que surpreendeu algumas vezes Jodie Foster e o realizador com frases que não estavam no guião; que tentou imitar os movimentos de um gato na cena final; que assistiu a julgamentos de homicidas reais para ouvir os seus depoimentos, como forma de inspiração. Folclore à parte, a verdade é que Hannibal the Cannibal é tão marcante que quase ninguém tem consciência do reduzidíssimo espaço temporal que ocupa no filme. Muitos actores secundários estiveram mais tempo no ecrã do que este vencedor do óscar de melhor actor principal, que não chega a utilizar 20 minutos das 2 horas de duração d´O Silêncio dos Inocentes! Os homens não se medem aos palmos e as interpretações não se medem ao cronómetro. Claro que, se quisermos desvalorizar este aspecto, podemos olhar para a coisa pelo prisma da área, como quem avalia imobiliário ou o preço dos cerâmicos de casa de banho. É que Lecter, através dos já referidos close-ups, ocupa mais metros quadrados de tela do que a maioria dos actores que o precederam na história do cinema.       
Todas as representações são de realçar, do desagradável Chilton ao circunspecto Sgt. Tate, passando pelo cordial Barney e pelo arrasado Mr. Bimmel. Até a cadelinha Precious desempenhou um papel que lhe valeu um clube de fãs, já para não falar do produtor Edward Saxon que, num impressionante cameo, “emprestou” a própria cabeça para colocar dentro de um frasco de vidro.


 

 
Apesar das críticas a que foi sujeito por causa das questões de género (a comunidade LGBT não perdoou a sexualidade confusa de Buffalo Bill, levando a que Jonathan Demme, carregado de peso na consciência, a presenteasse com Filadélfia em 1993), a verdade é que o filme é profundamente feminista no sentido mais nobre da palavra: a pequena Clarice Starling, não obstante o ar frágil, revela-se uma heroína verdadeiramente corajosa num ambiente policial marcadamente masculino; Catherine Martin não se resigna ao papel de vítima e dá luta ao tenebroso raptor; a Senadora Ruth Martin, mãe de Catherine, é retratada como uma mulher inteligente e sem medo de exercer a sua autoridade.


 

Mas não vale a pena atirar areia para os olhos de ninguém. É muito claro nesta altura do texto que os meus “heróis” são dois homens: Hannibal Lecter e Ted Tally, o modesto argumentista que teve a sinceridade e dignidade de dizer que o seu maior mérito tinha sido pegar num bom livro de Thomas Harris e não o ter estragado. Como disse Frank Capra, num registo semelhante ao utilizado por Paul Thomas Anderson, as três coisas mais importantes de um filme são o argumento, o argumento e o argumento. É da conjugação da pena de Tally e do talento de Hopkins que surgem as inesquecíveis frases de Lecter, sendo que a mais famosa – “A census taker once tried to test me… I ate his liver with some fava beans and a nice Chianti" – não é, definitivamente, a minha preferida. Além da que já referi anteriormente, e que uso para comunicar à minha mulher que já estou pronto para sair de casa, gosto particularmente da que utiliza para justificar a mentira sobre o verdadeiro nome de Buffalo Bill. Lecter informa a Senadora e as autoridades que o raptor de Catherine se chama Louis Friend, e Starling percebe que se trata de um nome falso, um mero anagrama para iron sulfide (em português, pirite de ferro), o famoso mineral dourado conhecido como ouro-dos-tolos. Nessa altura, apanhado a gozar com os seus carcereiros, Hannibal solta um delicioso "Oh, Clarice, your problem is you need to get more fun out of life", uma pérola de cinismo que nos revela o seu único verdadeiro medo: o tédio.  
No seu ensaio David Lynch keeps his head, David Foster Wallace, a propósito dos diferentes tipos de filmes, atribui ao dito cinema comercial o objectivo de entreter e ao cinema de arte (na Europa talvez lhe devêssemos chamar cinema de autor) a pretensão mais intelectual de “educar” ou o propósito estético de impressionar. DFW, com piada, conclui que o esforço interpretativo que temos de fazer em certos filmes faz do acto de compra do bilhete uma pura excentricidade, a de pagar para trabalhar. Não querendo colocar Jonathan Demme no altar dos verdadeiros autores, até porque nem sempre essa categorização assume contornos de elogio, parece-me muito redutor tratá-lo como uma mera peça da gigantesca engrenagem do cinema comercial. E não é por ter facturado uma pipa de massa que deixa de haver muita arte n´O Silêncio dos Inocentes. Por isso, política à parte, o meu desejo é que a última frase dos créditos finais do filme continue a inspirar o seu trabalho por muitos e bons anos.


 
 
Sérgio Barreto Costa
 
 
 

3 comentários:

  1. Fantástica análise de um magnífico filme.

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  2. Belo artigo. Uma critica digna de jornal, devia de ser assim... com muito sumo. Mas não sempre a pender para modas.
    Abc

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