terça-feira, 22 de novembro de 2016

Memórias Perdidas - 2

 
 
 
 
 

Em boa hora, decidiu a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa homenagear e agradecer aos seus benfeitores. No seu belo catálogo de edições, promoveu a publicação de pequenos livros, biografias da «Colecção Beneméritos». Nuns casos, nomes sonantes, fortunas vultuosas. Noutros, vidas vulgares, de pouca ou nenhuma história, mas que nessa vulgaridade adquirem um sentido único, comovente.
Quem foi Sidónia Ribeiro? É essa a resposta que a jornalista Ana Gomes procura, ao longo de quase 100 páginas de um livrinho extraordinário. Sidónia dos Santos Ribeiro nasceu em 1920 e morreu em 2003, tendo designado a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa como herdeira de todos os seus bens. Pelo meio, há uma vida, 83 anos de existência terrena. A vida de Sidónia Ribeiro, que nasceu em Lisboa, no ano de 1920. Filha ilegítima, de pai incógnito, facto que, segundo parece, tê-la-á marcado para sempre, até ao derradeiro e fulminante instante. A mãe, Luísa Aires Ribeiro, era natural da freguesia de Alcaide, no concelho de Fundão, onde nasceu em 1900. A mãe de Luísa (avó de Sidónia, portanto) morreu após o parto, e a menina foi entregue aos cuidados de um casal de professores, que lhe deram algumas letras mas não duraram muito. Estando só neste mundo, Luísa foi trabalhar como empregada para um restaurante nas redondezas. Engravidou do dono do estabelecimento. O pai enjeitou a criança e, perante o escândalo, Luísa veio para Lisboa, grávida de Sidónia. Ao saber da paternidade, o homem fora lesto em desembaraçar-se do fardo indesejado: meteu Luísa num comboio, rumo à capital, deu-lhe algum dinheiro e fim de história. É já em Lisboa que Sidónia vê a luz do dia, no Hospital de São José ( o nome ter-se-á inspirado no Presidente-Rei?). À data, a mãe morava perto, na freguesia da Pena, no número cinco, loja, da Travessa do Torel. Sidónia teve dois meios-irmãos, gémeos nascidos em 1935, com os quais aparentemente nunca teve uma relação muito próxima. Viveu em vários lugares da capital, locais onde a mãe servia como empregada doméstica. Do resto, nada se sabe.
Em 1951, andou à roda a volta da Fortuna. Sidónia casou com Daniel Malaquias Brás, natural da freguesia de Ferragudo, Algarve, enlace formalizado na «mais completa e absoluta separação de bens». Sidónia vivia à época num primeiro andar da Rua da Ilha de São Tomé, no Bairro das Colónias, em Lisboa. E Daniel Malaquias é dado, no registo do casamento, como «empregado de escritório», sendo proprietário de uma fábrica de estores com loja aberta ao público no Largo do Intendente, em Lisboa. Um comerciante abastado, portanto. Ao longo da vida, Sidónia jamais teve profissão, gerindo habilmente os seus bens, administrando com perspicácia as suas aplicações financeiras em Bolsa, ganhando onde muitos perdem. Logo após o matrimónio, o casal foi morar no número 15-A da Rua São João de Deus, no bairro do Areeiro. Poucos meses depois de casar, Sidónia adquire em seu nome um prédio acabado de construir no número 7 da Avenida da Igreja, ao Bairro de Alvalade, em Lisboa, onde residiu ainda uns tempos com seu marido e de cujas rendas fará a sua principal fonte de receita. Será esse, aliás, o único bem imóvel que doou à Santa Casa, a par de uma quantia bastante significativa em dinheiro bancariamente depositado. O prédio ainda lá está, na Avenida da Igreja, nº 7 e 7-A, albergando no piso térreo a loja de confecções Princesa de Alvalade e a sociedade Rico Sol – Comida Caseira Limitada, detentora do restaurante Prontinho. Em meados dos anos 50, o casal muda-se para um sexto andar da Avenida Almirante Reis, em Lisboa. Nascida e criada na capital, Sidónia aí viverá toda a vida, num perímetro curto, definido entre Alvalade e Arroios/Anjos. O casal, sem filhos, habitou na Almirante Reis na companhia de um cão, o Fidalgo, que o senhor Daniel levava à rua a passear e que, após a morte, foi enterrado no Cemitério dos Animais de Estimação do Jardim Zoológico de Lisboa. Subitamente, ao fim de vários anos de vida conjugal, e sem que saibamos ao certo como nem porquê, Sidónia e Daniel divorciam-se. Estamos no ano de 1981, quando, ao que tudo indica, Sidónia ainda fumava, e muito. Entretanto, Sidónia – ou «dona Sid», como era conhecida entre a vizinhança – comprara um apartamento em Cabo Ruivo, diz-se que com piscina e tudo, mas logo se desfez dele. Teve também um imóvel a Carcavelos, onde passava os verões. Mas, no final, sobrou-lhe apenas o prédio de rendimento à Avenida da Igreja, a fonte de sustento daquilo que mais gostava de fazer: viajar. Viajou muito, especialmente quando casada com Daniel, correndo mundo atrás de lugares exóticos, incluindo as Cataratas do Niágara, o Peru e a Argentina, a Rússia e até, pasme-se, o Extremo do Oriente. Desconhece-se que educação formal teve Sidónia, sabendo-se apenas, por testemunho de vizinhas e porteiras, que era muito organizada nas contas, impecavelmente arrumada no seu lar, bem cuidada no trajar. Serviu-a a empregada Judite, anos a fio. Não tinha amigos chegados, excepto talvez um casal que a acompanhou – a ela e ao marido – em algumas das suas viagens. Tratava-se do senhor Fonseca e da dona Elisa, que moravam na Praça de Alvalade e tinham armazéns que vendiam grão, milho, feijão; gente também abastada, e do comércio. Quanto ao mais, Sidónia ficava os dias em casa, a fazer tricot e a juntar peças de puzzles monumentais, daqueles com três mil peças, ou mais. Foi tudo o que de mais relevante se encontrou em sua casa, depois do falecimento. Além disso, jóias preciosas, cautelosamente guardadas numa gaveta falsa de um móvel com esconderijo. Em 1981, no ano em que se divorciou, Sidónia filiou-se na Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (à Rua do Salitre), a única actividade cívica que se lhe conhece. Na esfera pública, sabe-se das suas saídas à rua, sempre impecavelmente penteada, descendo de casa para ir almoçar a restaurantes das imediações, onde decerto beneficiava de um atendimento eficiente e bastante personalizado. Em 1984, com 63 anos, casa com Vasco Almiro Simões, natural de Nandufe, concelho de Tondela, cerca de dez anos mais novo, empresário da União Panificadora de Cascais. O casamento, porém, não dura mais de três anos. Divorciam-se por razões que a memória não regista. Sidónia ficou só de novo, e para sempre, na companhia das suas contas, escrupulosíssimas, e dos puzzles monumentais, alguns com 3.000 peças, ou talvez mais. Em 1986, morre a sua mãe, Luísa.   
Dona Sid tinha pavor de morrer sozinha, pois sozinha viveu muitas horas da sua existência obscura. Fez testamento doando todos os seus bens à Santa Casa, pedindo tão-só que dela cuidassem se acaso ficasse inválida e que a acompanhassem na hora do seu passamento. Aos 81 anos, foi até ao Largo Trindade Coelho, à sede da Santa Casa, para iniciar as conversações do contrato, sendo o testamento celebrado em 2002, no Quarto Cartório Notarial de Lisboa. Cerca de um ano depois, Celeste Barata, a porteira do prédio onde morava estranhou a sua prolongada ausência. Encontraram-na já morta, aos 83 anos. Tombada no chão da casa, com o telefone na mão, porventura em busca de socorro. Sidónia morreu só, como temia. Veio ainda o 112, mas Sidónia já estava extinta. A certidão regista, como causa do falecimento, enfarte de miocárdio motivado por aterosclerose generalizada. Antes disso, sempre previdente, comprara aos 74 anos um terreno no Cemitério do Alto de São João, em Lisboa, para aí acolher a sepultura perpétua nº 104. Nessa ocasião, encomendou à firma Sociedade de Mármores Central da Boa-Hora, à Ajuda, uma sepultura rasa de mármore. É nela que Sidónia manda inscrever as singelas palavras «À memória de Emídio Rogério Aires Cabrita», o seu-meio irmão, falecido em 1990. Sidónia far-lhe-á companhia eterna a partir de 2003. Ao velório afluiu pouca gente: a porteira, uns inquilinos, meia-dúzia de vizinhos. Dela se despediram na Igreja de São Jorge de Arroios, onde foi velada a 9 de Outubro de 2003. Depois, no dia seguinte, o cortejo subiu a Morais Soares e fez-se o funeral, junto à campa nº 1940 no Alto de São João. «Socialmente, acho que não foi uma pessoa muito feliz», confidencia a porteira, testemunho corroborado Gracinda Cabrita, inquilina do rés-do-chão do prédio de Alvalade: «no fundo, acho que era uma pessoa muito só». A sobrinha recorda que a tia, quando mais nova, gostava de envergar um vistoso fato de cabedal vermelho, composto por calças e blusão. Para os serviços fúnebres, foi convocada a empresa A Funerária Cristã dos Anjos, Lda., situada no mesmo quarteirão onde vivia a falecida. Os familiares mais chegados ficaram algo surpreendidos quando souberam que os bens de Sidónia, e a sua razoável fortuna, de mais de 500 mil euros, foram legados em exclusivo à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.
No apartamento onde morreu Sidónia, além de puzzles e jóias, havia muitos álbuns com fotografias de viagens.   
 
 
 
 


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