DE COMO O DIABO PASSEAVA
PELAS PRAIAS DE PORTUGAL
(capítulo inédito de um romance inédito)
Durante os três anos de
estudos filosóficos em Jardim Venusino e em Monte Carmelo, havia duas praias
que podíamos frequentar, sempre acompanhados – note-se bem – por um superior,
normalmente o Prefeito e, na ausência dele, ou em concomitância com ele, o Director
Académico. Durante essa fase da minha carreira eclesiástica, o Director
Académico foi sempre o Padre Angelini, e o Prefeito, durante o primeiro ano, em
Jardim Venusino, foi o Dr. Ambrósio, a quem alguns de nós chamávamos, às
escondidas, Cornélio à Lápide, e durante o segundo e terceiro anos, em Monte
Carmelo, foi o Dr. Timóteo.
Quanto às duas praias em
questão, uma era a Praia da Purificação, particular, e a outra era a Praia da
Glória. A primeira, como ouvi dizer no primeiro dia que para lá fui, juntamente
com os meus colegas de Filosofia, destinava-se exclusivamente aos senhores
padres e seminaristas bonifacianos, pelo que não se corria o risco de manchar a
pureza, por ser totalmente impossível deparar aí com representantes do sexo
fraco, autênticos emissários de Satanás, postos neste mundo para fazer perigar
a virtude da castidade e, portanto, a vocação religiosa e eclesiástica, dado
que uma e outra exigiam dos seus membros o voto de castidade.
E pelo que se refere à Praia
da Glória, era tão tristemente famosa pelo seu ar inóspito, pela bravura das
ondas e pelas grandes tempestades de areia, que dela fugiam os praistas como o
diabo da água benta. Além disso, enquanto a Praia da Purificação se podia
frequentar em todas as estações, a Praia da Glória era-nos interdita nos meses
de verão.
Foi no decorrer do primeiro
ano de Filosofia, em plena primavera, num encantador dia de sol, que se deu
este episódio.
Pela uma e meia da tarde, aí
vamos todos os seminaristas, do primeiro, segundo e terceiro anos, a caminho da
Praia da Glória. Era numa quinta-feira, dia do passeio semanal, de que só se
era dispensado por razões de força maior. Depois de uma longa caminhada,
vestidos em traje talar, eis-nos chegados à praia. Uma vez aí, de nós dependia
sentarmo-nos na areia, sempre em grupos, idealmente constituídos por mais de
dois, ou passearmos também em grupos, mas – que ficasse bem entendido - sempre
à vista do prefeito. Estar sentado sozinho ou passear sozinho era
terminantemente proibido. "Vae soli!" – todos aprendíamos no
noviciado, ou mesmo antes, e ouvíamos repetir a toda a hora. "Ai do
solitário!" Está sempre em grave risco de ser presa do demónio do
meio-dia, o mais perigoso de todos os membros das legiões infernais. E pelo que
se refere a grupos de dois, eram também altamente desaconselháveis, por poderem
dar azo às nefandas e perniciosas amizades particulares, tão prejudiciais para
a perseverança na vocação religiosa e sacerdotal.
Convém também esclarecer que,
estando como director do seminário, no seu primeiro ano, aliás, o Padre
Santiago, espanhol profundamente vitoriano, e Mestre de Noviços durante os
últimos seis ou sete anos, em Vale das Vinhas, tinha havido, segundo nos foi
dito pelos estudantes do segundo e terceiro anos de Filosofia, um grande
retrocesso, pelo que se refere a traje de praia. Era muito simples o traje
tolerado, ou, melhor dito, imposto, pelo Padre Santiago. Jamais se podiam
arregaçar as calças acima do joelho e jamais se podia andar de tronco nu.
Calções faziam-se de calças velhas, cortadas à tesoura pelo joelho. Houve quem
murmurasse um pouco ao princípio, sobretudo de entre os "filósofos"
dos dois últimos anos, habituados a um nadinha mais de liberdade, mas, tendo
todos eles sido noviços do novo director, e tendo todos o voto de obediência,
nada mais nos restou senão aceitar o novo regime de traje de praia. Aliás –
pontificava sabiamente o Rev.do Padre Santiago –, o melhor da praia eram os
banhos de sol e não os banhos de água.
Mas vamos ao episódio. Nessa
tarde – como poderei eu esquecer o mínimo pormenor? – o meu grupo constava do
Padre Angelini, do Serafim, do Ludovico e do Faustino. Estávamos todos sentados
na areia, em conversa amena, vagamente filosófica, quando, muito ao longe,
começou a vislumbrar-se um vulto que certamente não era o de um seminarista.
Fazendo de conta que nenhum de nós via o que estava vendo, a conversa
prosseguiu, pontuada por pausas cada vez mais intermitentes, enquanto o vulto
se foi aproximando e se foi tornando cada vez mais visível. Mais uns momentos,
e todos pudemos notar claramente que se tratava de uma praista, em fato de
banho razoavelmente modesto. Ao ver que o vulto caminhava lentamente em nossa
direcção, o Serafim e o Padre Angelini, num acto reflexo, apressaram-se a puxar
o chapéu para os olhos e a dizer estas palavras para eles mesmos e para todos
nós, como se se tratasse de um coro falado:
- Vamos embora, que vem aí o
diabo; vamos embora, que vem aí o diabo.
E como se tivessem molas
debaixo das reverendas nádegas, e as asas de Mercúrio nos pés clericais, o
Serafim e o Padre Angelini levantaram-se e afastaram-se da praia, a grande
velocidade. O Ludovico e o Faustino ficaram muito tranquilamente a ver passar o
diabo. Muito tranquilamente, é como quem diz. Lá muito no fundo – e quem sabe se
também um pouco à superfície! – operou-se neles uma certa perturbação, mas
acharam que era bom ficar a ver o diabo passar.
Aliás, tratava-se de um diabo
levemente reboludo, sem o omnipresente e fálico rabo vermelho a irromper
atrevido e irreverente de entre as pernas, e sem os emblemáticos cornos em fogo
a decorarem-lhe a testa, e de comportamento exemplar, à diabo lusitano.
Com a maior das naturalidades,
sem alterar o andamento, ao passar a nosso lado, o diabo lançou-nos um olhar
entre sereno e lânguido, e prosseguiu impertérrito no seu passeio à beira-mar.
Onde o meu amigo Ludovico pôs
os olhos, no momento em que o diabo passou, não o soube então e não o sei hoje.
Éramos dois seminaristas demasiado sérios para falarmos de coisas tão delicadas
e tão perigosas e tão mundanais. Mas onde eu pus os olhos gulosos nesse
instante de alumbramento soube-o então e sei-o hoje. Pu-los, com a velocidade
de um relâmpago, primeiro no rosto do diabo, e depois na anatomia
espartanamente defendida pelo meu voto de castidade, mas acessível à gulodice
tímida e trepidante dos meus olhos castos...e dos meus invisíveis desejos...
(Nono, não desejar a mulher do próximo. Mas eu não sei se a mulher que acaba de
passar por mim pertence a um homem. Ou será que próximo quer dizer o homem a
quem ela vai pertencer a seguir? Ou será que próximo significa o homem que está
mais perto de mim neste momento? Mas a este homem ela não pode pertencer. O
Ludovico, como o Faustino, tem voto de castidade. Meu Deus, que tremenda
confusão! Se nem os hermeneutas entendem estas coisas, como as posso entender
eu, que sou menos que noviço nos intrincados labirintos da Sagrada Escritura?
Faustino, meu filho, lá diz Jesus no santo Evangelho que aquele que desejou a
mulher do próximo já pecou dentro do seu coração, o que aliás também está
explícito no nono mandamento do Decálogo. Vai em paz e não voltes a pecar.
Muito obrigado e deite-me a sua bênção. Que Deus te abençoe.)
E
o "diabo" do Padre Angelini e do Serafim passou e o tempo passou e o
silêncio que se estabeleceu entre o Ludovico e o Faustino era mais difícil de
cortar que o nó górdio. Furtivamente, olhavam um para o outro para ver se dos
lábios do interlocutor potencial brotava uma palavra salvadora, mas, como se
entre ambos se interpusesse uma nuvem de cumplicidade pecaminosa, baixavam o
olhar para a areia e continuavam a escrever no chão palavras sem nexo,
unicamente para disfarçarem o vulcão de emoções que dentro deles ardia.
Mas, de repente, olham mais
uma vez um para o outro, e, num daqueles fenómenos que só os psicólogos poderão
explicar, nos lábios de um e do outro começa a esboçar-se um sorriso, primeiro
tímido, e depois mais ousado, até que ambos explodem numa gargalhada homérica,
que parecia não ter fim. E a gargalhada crescia e uma espécie de compreensão do
que se tinha passado, e se estava passando, começava a aflorar na mente dos
dois seminaristas que haviam tido a coragem de enfrentar o "diabo",
indo, dessa forma, contra o ensinamento de todos os mestres de ascese, que, em
casos idênticos, aconselhavam a fuga às ocasiões de tentação.
Dominado o riso convulso que
nos invadira com a fúria com que as tempestades de areia tomavam às vezes de
assalto a praia em que estávamos sentados, quase ao mesmo tempo, numa
necessidade imparável de quebrar o silêncio que nos asfixiava, irrompemos ambos,
em uníssono, nestas palavras:
- Estamos quilhados.
- Quando chegarmos a casa,
tenho a certeza que ambos vamos ser chamados a conselho – disse o meu companheiro.
– Devíamos ter feito como o Serafim e o Padre Angelini. Eu ainda pensei em
imitá-los, mas a verdade é que me senti como que preso à areia, impossibilitado
de fazer qualquer movimento. E, ainda por cima, nem o chapéu tinha comigo para
baixar para os olhos, como eles fizeram.
- Comigo sucedeu outro tanto.
E quanto ao chapéu, ainda que quisesse, nada poderia fazer, pois também o não
trouxe. Mais: para te ser sincero, nem sequer tenho chapéu. Estou sem ele,
desde o primeiro passeio que demos à Praia da Purificação. Ao dar-me conta do
ridículo que é passar pelo meio de Jardim Venusino e de Fortaleza, não só
embatinado, ou de fato preto e cabeção, mas também de chapéu, desci muito
sorrateiramente, sozinho, até à beira das ondas, e, para me convencer a mim
mesmo que não tinha a responsabilidade toda no que ia acontecer, pousei-o numa
pedra e fiz que me esqueci dele, enquanto abria um livro, aliás a biografia de
S. Luís Gonzaga, e me punha a passear os olhos pelas páginas. Quando me dei
conta, eis que vem a rajadazinha de vento que eu interiormente implorara à
minha rica Santa Bárbara, e lá vai o meu chapéu eclesiástico a caminho das
ondas. Para não ver São Luís Gonzaga a levantar-se em atitude vingadora das
páginas que enalteciam as suas virtudes, sobretudo a da modéstia e a da pureza,
para me fulminar pela acção praticada, fechei o livro num acto reflexo, não sem
marcar a página com a pétala seca de uma violeta, de que sempre me sirvo, desde
o terceiro ano de seminário. Quando estávamos preparados para o passeio da
semana seguinte, o Padre Basílio perguntou-me por que não punha o chapéu. Eu,
fazendo de conta que não notava que ele estava a falar comigo, nada respondi.
Mas, como ele insistisse, disse-lhe que me tinha desaparecido, sem saber bem
como. Que era necessário arranjar outro quanto antes, apressou-se ele a
dizer-me. E eu, interiormente, desejei ardentemente que isso não viesse a
acontecer. E a verdade é que até à data ainda não se arranjou outro. E, se
depender de mim, nunca mais se arranjará outro. E se outro tiver que aparecer
um dia, por artes do diabo, podes crer que por artes de dois diabos
desaparecerá como o primeiro. Quero que saibas que as coisas que mais me custa
fazer é andar de chapéu e de coroa feita. E quanto à coroa, quero que saibas
também que tenho vindo a recorrer a todos os meios para não voltar a fazê-la no
futuro próximo. O Padre Director e o Padre Basílio já me chamaram mais de uma
vez a atenção para isso, mas eu tenho procurado fazer-me desentendido. E, como
poderás ver, aqui está um santo seminarista, aspirante ao sacerdócio e
estudante de Filosofia, alérgico a dois mandamentos do código de direito
canónico e da praxe eclesiástica lusitana: o uso da tonsura e o uso do chapéu.
A primeira para mostrar ao mundo que estou marcado para ser sacrificado a
Cristo, e o segundo para mostrar ao mundo – e me dizer a mim mesmo – que
renunciei para sempre às pompas do século e às vaidades mundanas.
- Sabes uma coisa, pá?
Falaste bem. Quase me convencias com a tua argumentação. Mas a verdade é que a
pessoa a quem tens necessidade de convencer é a ti mesmo. Pelo que me diz
respeito, tudo quanto disseste sobre a perda do chapéu e os subterfúgios para
não fazeres a coroa aplica-se perfeitamente a mim também.
Interessante. Foi preciso
mergulhar num acto de cumplicidade comum para que o Ludovico e eu
escancarássemos as almas de par em par um ao outro. Dizer do lenitivo que esse
comportamento análogo me causava interiormente não é necessário. É como se os
meus actos adquirissem um estatuto de quase legalidade. É assim a natureza
humana. Sempre a refugiar-se na cumplicidade dos outros. O que quer dizer que o
sofisma é inerente à natureza do homem. Mesmo quando esse homem é um
seminarista. Sobretudo, quando esse homem é um seminarista.
Quanto às consequências
desastrosas que poderiam advir dessa nossa queda involuntária na tentação a que
o sentido da vista nos tinha arrastado não seria preciso esperar muito tempo
para virmos a sabê-lo, pois nem o Ludovico nem eu tínhamos a mínima dúvida de
que, chegados ao seminário, seríamos chamados a capítulo. De facto, mal
tínhamos entrado na sala de estudo, quando o Prefeito, o Dr. Ambrósio, se
aproximou da carteira do Ludovico e lhe sussurrou algo ao ouvido. O meu
confrade de aventuras levantou-se prontamente, lançou-me um rápido olhar e
saiu. Quando regressou, cerca de quarenta e cinco minutos mais tarde, vinha
visivelmente perturbado. Que teria acontecido? Teria o Padre Director
considerado grave o episódio? Correríamos o risco de ser ameaçados de expulsão?
Mas nós não tínhamos procurado o diabo. Por outro lado, o Padre Director
conhecia-nos muito bem para concluir, de ciência certa, se assim o desejasse,
que tanto um como o outro tínhamos maturidade suficiente para podermos e
sabermos ser superiores a obstáculos dessa natureza.
Como previa, não dispus de
muito tempo para formular hipóteses no ar. Apenas o meu colega se tinha
sentado, já o Dr. Ambrósio me estava a dizer baixinho que fosse falar com o
Padre Director.
Sabendo, de antemão, da
inevitabilidade desse encontro, tinha-me preparado mentalmente para ele. É que,
se noutras coisas era noviço, em situações como esta não o era. Há um dito,
muito usado entre nós, seminaristas, que traduz perfeitamente a minha atitude:
"para um espertalhão espertalhão e meio." De maneira que, em vez de
assumir a atitude de alguém que tem a consciência culpada, decidi fazer de
conta que na minha consciência reinava a maior das tranquilidades, e que não
via qualquer mal no que tinha acontecido na praia.
O primeiro sinal a que
recorri para transmitir ao Padre Director que essa era a minha convicção foi a
maneira como bati à porta. Em vez de bater com a maior das levezas, como era da
praxe, para não perturbar o silêncio que reinava àquela hora do dia, resolvi
dar uma pancadinha relativamente forte. Como já supunha, a voz do Padre
Director, dizendo que entrasse, fez-se esperar. Indício de que era intenção
dele atribuir extrema gravidade ao caso. Fazendo de conta que eu não sabia
interpretar esse sinal, bati novamente, e desta vez com um pouco mais de força.
Passado quase meio minuto, lá se fez ouvir a voz do Director, mandando entrar.
De tronco bem direito e cabeça bem ao alto, e com meio sorriso postiço nos
lábios, transpus a ombreira da porta decidido, e, com ar prazenteiro, dei-lhe
as boas-tardes. Como esperava também, o Padre Director não só não retribuiu a
minha saudação, como continuou com a cabeça mergulhada num velho cartapácio.
(Conheço a táctica, Padre Director. Usa-a com outros, que comigo não pega. Não
nasci ontem. Tenho muita escola e vários anos de praia.) E para que fosse bem
visível a minha serenidade interior – e exterior –, pus-me a olhar para um lado
e para outro, à maneira de quem está a observar as decorações das paredes do
escritório. Estive assim entre dois a três minutos, até que o Padre Director,
sem levantar os olhos do velho cartapácio, e sem abrir os lábios, me apontou a
cadeira, em frente dele. Com o maior dos à vontades, sentei-me e pus-me a olhar
para o ar, continuando a aparentar o máximo de serenidade.
Finalmente, o Padre Director
levanta os olhos do livro, olha para mim com um ar de grande severidade, e
pergunta-me se sei por que me tinha mandado chamar. Com a maior desenvoltura,
apresso-me a dizer-lhe que não, mas que terei o maior prazer em que me diga a
razão. Naturalmente que lhe dei essa resposta, com a maior cortesia possível,
pois qualquer expressão que visivelmente traduzisse uma atitude de arrogância
da minha parte poderia tornar-se contraproducente, saindo assim pior a emenda
que o soneto, ou, como também se dizia frequentemente entre nós, virando-se o
feitiço contra o feiticeiro.
Não convencido com a
sinceridade da minha resposta, sugeriu-me que pensasse um pouco, pois, se o
fizesse, não me seria difícil saber a razão por que estava ali. Fiz que pensava
um pouco, e disse-lhe muito calmamente que na verdade não conseguia imaginar
razão alguma, pelo que a mim me dizia respeito.
Socraticamente – que meu São
Sócrates me perdoe o quase sacrilégio pelo atrevimento da comparação –, o Padre
director começou a fazer mil rodeios, com a finalidade de me levar a dizer que
eu sabia que estava ali, devido ao que tinha acontecido na praia. Mas,
visivelmente cansado desses rodeios e das minhas fintas, não teve outra saída
senão ser ele a dizer claramente, em linguagem cristã, que eu tinha sido
chamado para responder pelo que tinha sucedido naquele dia na Praia da Glória.
- Verdadeiramente, não
sucedeu nada de especial – intervim eu com a maior das naturalidades. – O tempo
estava agradável e o passeio foi muito saudável. Saudável para o corpo e para a
alma, como o devem ser todos os passeios – acrescentei.
- Não foi isso o que teu
superior e os teus companheiros me revelaram, e tu sabe-lo muito bem.
- Sinceramente, não sei.
Vossa Reverência sabe muito bem que cada um tem a sua consciência e responde
diante dela. Pelo que a mim me toca, a minha consciência não me acusa de ter
feito nada de mau ou de menos próprio para um seminarista exemplar.
- Não sabia que em tão pouco
tempo tinhas esquecido as inúmeras conferências que te fiz no Noviciado sobre a
virtude da pureza, o voto de castidade e a necessidade de preservar, custe o
que custar, intacta essa virtude e intacto esse voto.
- Graças a Deus, não me
esqueci dessas lições. Escrevi-as quase na íntegra, como sabe e me aconselhou,
e tenho-as bem presentes na mente.
- De pouco vale que as tenhas
presentes na mente, se as tens ausentes do coração.
- Mas eu não as tenho
ausentes do coração. Acompanham-me aonde quer que vá; estão comigo onde quer
que esteja.
- Estaria mais tranquilo e
teria menos receio pela salvação da tua alma se sentisses tão bem como falas.
- E se eu lhe disser que
sinto tão bem como falo, Vossa Reverência acredita-me? - E ao proferir estas
palavras, olhei bem de frente para o Padre Director.
Um silêncio pesado
espalhou-se por todo o escritório. Com o maior respeito, para de forma alguma
provocar a sua ira, tinha conseguido argumentar com o meu antigo Mestre e
Director, quase de igual para igual, o que não era proeza fácil. É que eu sabia
muito bem que qualquer falta de firmeza da minha parte e qualquer indício de
que o que tinha acontecido na praia me pesava na consciência poderia vir a ter
consequências fatais para a minha carreira sacerdotal. E, por outro lado, eu,
bem no fundo, não me sentia culpado. Não tinha procurado a chamada ocasião de
pecado de propósito. E não tinha alimentado na consciência qualquer desejo
menos puro. Voluntariamente, claro.
Graças à compreensão e à
ajuda do Sr. Padre Fidalgo, tinha resolvido esse problema durante o quarto ano
de aspirantado. Nesse tempo, o dar com os olhos numa mulher, mesmo que fosse só
de fugida, deixava-me numa perturbação terrível. Era como se tivesse cometido o
mais hediondo dos pecados. Tudo fruto, naturalmente, de ensinamentos doentios,
por parte de alguns superiores. Até que um dia, estando eu a sair da portaria,
a caminho da capela, e encontrando-se aí uma senhora, me vi impetrado por ela
para que lhe desse não sei que informação: creio que para a informar se o Padre
Director estava em casa. Fiquei de tal maneira perturbado, que comecei a
gaguejar, e me retirei quase a correr para a capela, onde implorei auxílio a
Nossa Senhora e perdão a Deus por um pecado que não tinha cometido.
Tendo falado deste episódio
ao confessor nesse mesmo dia, ele, depois de me haver tranquilizado,
aconselhou-me a levar o caso ao Director. E eu fiz isso. E o Padre Director,
com o maior tacto e com uma atitude verdadeiramente paternal, disse-me que as
mulheres também eram criaturas de Deus. Que pensasse em minha mãe e nas minhas
irmãs e que visse como o Senhor também criava mulheres boas. Por fim, depois de muitos esclarecimentos e
conselhos, pôs-me nas mãos um livrinho que ele tinha reservado para casos
idênticos ao meu. Tratava-se de um pequeno manual que expunha, com a maior
delicadeza possível, o mistério da criação...e da fecundação. Que o lesse e
que, depois de lê-lo, lho levasse e falasse com ele. E despediu-me com estas
palavras: - "Quando, por casualidade, te voltares a ver em situações
análogas à de hoje, pensa que tens diante de ti a tua mãe ou as tuas
irmãs."
Durante o silêncio que se
estabeleceu entre o Padre Director e eu refiz todo este episódio. Era a minha
salvação. Estava disposto a referi-lo na íntegra, se necessário. O Padre
Santiago tinha servido sob a jurisdição do Padre Fidalgo, enquanto Mestre de Noviços,
e sempre manifestara muito respeito por ele.
- Queres explicar-me isso um
pouco mais em pormenor? – perguntou o Padre Director, depois de uma longa
pausa.
- Para lhe explicar isso
teria de lembrar Nossa Senhora e o culto de Nossa Senhora, advogado e propagado
por S. Bernardo e depois universalizado por legiões de santos. E podia também
trazer a Beatriz da Divina Commedia de Dante e
a Laura do Canzoniere de Petrarca, e podia trazer o testemunho de David e
de S. Paulo, os quais nos mandam elevar-nos a Deus através da contemplação da
beleza das suas criaturas (só depois de ter proferido os nomes do Profeta-Rei e
do Apóstolo das Gentes é que me lembrei que, se serviam para advogados de
defesa, igualmente serviam para advogados de acusação). Mas sei que é
desnecessário, porque Vossa Reverência conhece tudo isso melhor do que eu, como
tantas vezes nos provou, durante o Noviciado, nas suas conferências, tão cheias
de sã doutrina e santa erudição.
A determinado momento, o
Director faz-me esta pergunta:
- Ainda tens contigo os
cadernos de apontamentos do Noviciado? Refiro-me àqueles cadernos em que
resumias, como todos os teus companheiros, as meditações, as instruções, as
conferências, etc.
- Tenho, sim.
- Vai buscar aquele em que se
fala da mortificação dos sentidos e traz-mo cá.
Saí e, passados mais ou menos
dois minutos, voltei com o dito caderno.
- Vê se encontras as notas
das minhas conferências sobre a mortificação dos olhos, e lê o que lá tens
escrito.
Não me foi difícil encontrar
essas notas.
- Está aqui o resumo dessas
conferências a que Vossa Reverência se refere.
- Lê lá então.
E eu comecei a ler:
“As paixões alimentam-se dos
olhares; o ladrão é inclinado ao roubo porque pousou o olhar sobre o objecto
desejado; o impuro sente-se inclinado à desonestidade, por causa do olhar.
David cometeu o nefando pecado do adultério, por causa da imprudência do olhar.
Job dizia: "fiz um pacto com os meus olhos para que não se fiem nas
mulheres." Quanto menos se olha para os objectos, menos tentações há e
menos pecados se cometem. S. Jerónimo diz: "o demónio só precisa que lhe
abramos um pouco as janelas, isto é, os olhos." S. Bernardo diz: "a
primeira seta que trespassa a alma entra pelos olhos." Séneca dizia que a
cegueira favorecia a inocência. Um filósofo grego arrancou os olhos para não
pecar. S. Luís Gonzaga amava tanto a pureza que nem sequer olhava para a mãe e para
as irmãs, e outros santos faziam a mesma coisa. O verdadeiro religioso não deve
olhar para as pessoas de outro sexo nem para os meninos e os adolescentes,
porque o coração se pode prender a eles com facilidade. E isso pode ser fatal
para a vocação religiosa. Para aprender a mortificar o olhar, não se deve olhar
para os aviões; não se deve olhar para os enfeites por ocasião de festas; deve
afastar-se os olhos de vez em quando dos actores, quando se assiste à
representação de uma peça de teatro. Quantas vezes se prende o coração a um
adolescente que nos fascina e nos sensibiliza, em virtude da maneira como
aparece vestido no palco! Não olhar para todas as passagens de uma fita
cinematográfica. Não olhar para todos os pratos que nos vêm à mesa, sobretudo nos
dias de festa. Não olhar para nós no banho. Não olhar para as pessoas do outro
sexo nas praias.”
- Basta. Podes parar aí.
Espero que o que leste seja mais que suficiente para poderes compreender a
temeridade e a gravidade da acção que praticaste esta tarde durante o passeio.
Podes retirar-te. Mas aconselho-te a que, já hoje, releias o resumo daquelas
conferências em que eu falo da virtude da pureza e dos perigos em que a põe
todo aquele que não sabe fugir a tempo das ocasiões do pecado.
- Muito obrigado pela sua
compreensão. Muito humildemente quero rogar-lhe que me lembre nas suas orações,
para que o Senhor me confirme na virtude da fortaleza, e, indirectamente, na da
pureza.
Muito manso, talvez levemente
desconfiado, o Padre Director deu-me a mão direita a beijar, enquanto me batia
paternalmente com a esquerda na testa, e disse-me que fosse em paz.
E eu saí em paz porque tinha
conseguido convencer o meu Director que o diabo que o Padre Angelini e o
Serafim tinham visto na Praia da Glória não era o diabo, mas uma simples
criatura de Deus igual a ele e a mim...e provavelmente mil vezes superior em
virtudes humanas ao Padre Angelini e ao Serafim.
António
Cirurgião
Sem comentários:
Enviar um comentário