quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Do apelido Cirurgião.

 
 
 
 
 
        1. INTROITO AO MEU APELIDO DE CIRURGIÃO                                                        
 
        Através dos anos, ao tomarem conhecimento do meu apelido – Cirurgião –, muitos dos meus interlocutores, nos Estados Unidos, perguntam-me pelo significado dele. Ao responder-lhes que o apelido significa surgeon em Inglês, a reacção dos meus amigos americanos judeus é aventar que, muito provavelmente, eu sou de ascendência judaica. E é então que eu, a fim de reforçar a opinião deles, resolvo fazer um breve excurso por um dos capítulos mais significativos e dramáticos da história de Portugal, dizendo-lhes, entre outras coisas, que, proibidos de possuir bens imóveis, os judeus se defendiam economicamente por meio do recurso às profissões liberais, tais como as de banqueiros, comerciantes e médicos. Que a percentagem dos judeus que praticavam medicina era de tal maneira avassaladora, em comparação com os outros grupos étnicos, que, mesmo depois das perseguições e da expulsão de Portugal em 1497 e do massacre em 1506, os reis portugueses faziam questão de não expulsarem os médicos da família real e da alta nobreza.
          Como terá, portanto, aparecido a família Cirurgião em Portugal? Porque é que eu não procurava reconstituir a minha árvore genealógica? – perguntavam-me com frequência os meus amigos portugueses. E eu respondia perguntando-lhes, em tom mais jocoso que sério, se por acaso não conheciam a tão decrépita e tão degenerada árvore genealógica do Conde de Abranhos, o protagonista do romance do mesmo nome de Eça de Queirós, ou a igualmente tão decrépita e tão degenerada árvore genealógica do protagonista, Gonçalo Mendes Ramires, de outro romance do mesmo autor: A Ilustre Casa de Ramires.
         Mas uma vez, por ocasião da minha última visita a Lamas de Podence, freguesia do concelho de Macedo de Cavaleiros, em Trás-os-Montes, terra natal de meu pai, fui com um primo meu ao Registo Civil de Bragança, capital do distrito, e aí foi-me dada cópia da certidão de nascimento do meu pai – Francisco Joaquim Cirurgião –, constando dessa mesma certidão o nome da mãe de meu pai (e, portanto, minha avó paterna): Maria Augusta Cirurgião.  
          Não se encontrando nesse Registo Civil de Bragança certidões de nascimento anteriores a essa data, e tendo-me sido dito que elas poderiam encontrar-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, aí procurei eu, nesse mesmo Verão, possíveis documentos referentes à família Cirurgião, mas sem qualquer êxito. Para começar, verifiquei que o acervo do registo referente à freguesia de Lamas de Podence não se encontrava lá, ao contrário do que acontecia com o acervo referente a outras freguesias do Concelho de Macedo de Cavaleiros. Perante essas discrepâncias ilógicas, perguntei aos funcionários respectivos pela possível razão para esse facto. Responderam-me que o mais natural é que esse acervo se tivesse extraviado ou desaparecido por incêndio ou por negligência humana ou por outros fenómenos, causados pela natureza ou pelo homem.
         Acontece, porém, que, há bastantes anos, ao ler a biografia do Vice-Rei da Índia Dom João de Castro, de Jacinto Freire de Andrada, deparei com um senhor cujo apelido é Cirurgião. Para que conste, vou transcrever fielmente essa passagem: 
             
               Os grandes feitos que os Portugueses obraram neste dia, o
                 Oriente os diga; eu cuido que da ilustre Diu lhes será cada
                 pedra um epitáfio mudo. Porém, dos cinco cavaleiros que
                 havemos referido, não deixaremos com ingrata pena os nomes
                 em silêncio. Estes foram Sebastião de Sá, António Pessanha,
                 Bento Barbosa, Bertolameu Correia, mestre João Cirurgião
                 de nome. [...] Dos cinco cavaleiros que defenderam o baluarte,
                 morreu só mestre João, despedaçado de muitas feridas, que
                 deixou bem vingadas, sem querer deixar a briga nem obedecer
                 aos amigos, que o retiraram como pessoa tão importante
                 pela arte, pelo valor não menos (Vida de Dom João de Castro –
                 Quarto Vizo-Rei da Índia. Escrita por Jacinto Freire de Andrada.
                 Em Lisboa: Agência-Geral do Ultramar. Ano 1968, pp. 165-166).
         
           Para que não restem dúvidas sobre o facto de que “mestre João Cirurgião” era de facto Cirurgião “de nome”, no Índice Onomástico da mesma obra lá está “Cirurgião (João)”, de igual modo e na mesma página em que estão, por exemplo, “Coelho (João)” e “Correia (Diogo)”. 
E aqui está a única pessoa portuguesa que, até à data, me foi dado conhecer com o apelido de Cirurgião, para além da minha família, até à minha avó paterna: Maria Augusta Cirurgião.
 
 
 
 
        2. À MARGEM RAZÃO DE SER DO MEU APELIDO CIRURGIÃO                                                   
 
    
      As pessoas de algum saber histórico e visivelmente interessadas pela patronímia com frequência se interrogam (e me interrogam) sobre a razão de ser do meu apelido tão raro e tão peculiar: “tão raro e tão peculiar”, que ele é exclusivo, em Portugal, da minha família imediata, até à minha avó paterna, tal como fica dito acima.
      Algumas dessas pessoas, ao tomarem conhecimento que meu pai era oriundo de Macedo de Cavaleiros, perto, portanto, de Mirandela, terra de judeus e de marranos e das alheiras (as quais têm de tudo um pouco, menos carne de porco, ao contrário de todas as outras espécies de fumeiro), opinam logo que eu devo ser de ascendência judaica, com o que eu não tenho qualquer dificuldade em concordar. Porém, outras pessoas há que opinam o contrário, argumentando com o celebrado filólogo, historiador de literatura peninsular e de ideias estéticas, o eruditíssimo, espanholíssimo, facciosíssimo, super-patriota e super-chauvista Don Marcelino Menéndez y Pelayo, o qual afirmava a pés juntos, em prosa pomposa, que os autênticos ibéricos nada deviam nem aos judeus nem aos mouros. Ao que eu respondo, apoiado no insuspeito e grande pensador, filólogo e crítico literário Américo Castro (por sinal nascido no Brasil de pais espanhóis), que nenhum ibérico pode blasonar-se de não carregar consigo uma costela judaica e uma costela mourisca, dados os longos séculos de coexistência, já pacífica já beligerante, de miscigenações, assimilações e caldeamentos dos diversos povos que se fixaram na Península Ibérica, hoje constituída por duas nações, como todos sabem: Espanha e Portugal.
 


 
3.     O TELEGRAMA DO CIRURGIÃO
 
         Vivia eu nesse tempo em Lisboa. Já aparentava a idade de quem podia estar formado em medicina, quando uma tarde me dirigi aos correios, em Campo de Ourique, para enviar um telegrama a minha mãe, por ocasião do aniversário dela.
           Ditado o texto, a senhora do guiché perguntou-me pelo nome com que eu desejava assinar o telegrama.
         -  Cirurgião - respondi eu, para economizar dinheiro.
         - Ó senhor doutor, com tantos cirurgiões existentes em Lisboa, como é que esta senhora vai saber de que cirurgião se trata? O nome, por favor.
         - Ponha Cirurgião - repeti eu novamente.
         - Não sabe que assim vai perder o seu dinheiro? O nome, por favor.
         - Escreva Cirurgião – reiterei eu.
         Enquanto a zelosa funcionária dos correios olhava boquiaberta para mim, a senhora do guiché ao lado, que acompanhava o diálogo, interveio e disse:
         - Olha, filha: faz como ele manda. Ele é... (E fez um gesto para indicar que eu tinha um parafuso a menos.)
         E de facto a solícita senhora que me estava a atender anuiu ao conselho da colega, fazendo como o Cirurgião mandava, não sem lamentar mais uma vez que eu ia desperdiçar o meu dinheiro, desnecessariamente.
 


 
         4.  QUESTÕES DE AMBIGUIDADE
 
         Já eu tinha idade para estar formado em medicina. Sempre que, numa repartição pública, me perguntavam pelo nome, eu respondia, como tinha de responder: António Amaro Cirurgião.
         E a reacção era invariavelmente a mesma:
         - Desculpe: eu perguntei pelo nome e não pela profissão. O nome, por favor.
         - António Amaro Cirurgião - respondia eu novamente.
         E novamente a mesma reacção por parte do funcionário (ou da funcionária, como se diria hoje, para se ser politicamente correcto).
         E depois da terceira ou quarta pergunta, mais de uma vez ouvi este comentário:
         - Agradeço que não goze comigo.
         E era então, quando as coisas chegavam a esse extremo, que eu dizia que o meu apelido era na verdade Cirurgião.
         Mas mais de uma vez aconteceu que o funcionário, ou a funcionária, não sei se por estupidez, se por teimosia, se por não querer dar o braço a torcer, me exigia um documento para provar que o meu apelido era na verdade Cirurgião.
 

 
 
5.     OS RECEPCIONISTAS E O CIRURGIÃO
 
         Sabem o que aconteceu, por mais de uma vez, quando me apresentava na recepção de uma organização ou empresa para falar com determinada pessoa, já de mim conhecida e eu já conhecido dela? Bom: é fácil de adivinhar. Ao perguntarem-me quem deviam anunciar, eu dava - e dou - sempre a mesma resposta: Cirurgião.
         O recepcionista olhava para mim e perguntava-me mais uma vez quem é que devia anunciar. E eu dava a mesma resposta: Cirurgião.
         Resignado, o funcionário pegava do telefone e dizia para a pessoa com quem eu desejava falar:
         - Está aqui um (baixava a voz) cirurgião para falar consigo, com o senhor Doutor, com V. Ex.ª, de acordo com o que mandavam as regras de etiqueta e cortesia e urbanidade.
         E como a pessoa com quem eu desejava falar sabia na verdade de que cirurgião se tratava, lá lhe ia dizendo ao funcionário que sim, que mandasse subir ou entrar ou que mandasse esperar o Dr. António Cirurgião.
         E só nesse momento recebia eu uma espécie de sorriso da parte do funcionário. Mas nem sempre isso acontecia, pois alguns funcionários havia que julgavam que eu os estava a gozar ou a mangar deles, como se dizia na minha terra. Mas para mostrar que eu não tinha essa intenção, era a minha vez de abrir o rosto num largo e franco sorriso para levantar os espíritos e para mostrar que uma pequena dose de bom humor não faz mal a ninguém: nem sequer aos recepcionistas.
 
 
         6. OS CIRURGIÕES E A AMÁLIA RODRIGUES
 

         Foi nas férias de Natal de 1996. Indo passar essas férias a Portugal, como de costume, levava eu dessa vez comigo uma prenda para a Amália Rodrigues, da parte do cônsul honorário de Portugal no Estado de Connecticut, Dr. Adriano Seabra Veiga, meu grande amigo e primo do marido da Amália, o Eng. César Seabra.  
         Ao telefonar, do meu condomínio do Estoril, para perguntar quando podia ir levar a prenda a casa da Amália, apresentei-me como Cirurgião, como sempre costumo fazer, para auto-recreação, e, por vezes, para irritação das pessoas que atendem as minhas chamadas telefónicas. (A chamada telefónica para a casa da Amália, na Rua de São Bento, idêntica a tantas outras, foi mais ou menos assim, uma vez estabelecido o contacto: –  Daqui fala Cirurgião. Venho dos Estados Unidos e fui incumbido pelo Dr. Seabra Veiga e pela Dona Rita, primos do Sr. Eng. César Seabra e amigos da Dona Amália, de lhes entregar uma encomenda. De maneira que agradecia que me dissesse se hoje lhes poderia levar essa encomenda a casa. Resposta e pergunta da Sra. que atendeu o telefone: –  Pode vir pelas duas da tarde. E quem devo apresentar? – Resposta minha: –  Cirurgião. – Pergunta da Sra.: - Mas o nome, por favor? – Resposta minha:  Cirurgião. –  Pergunta da Sra.: – Desculpe, mas o nome, por favor. –  Resposta minha: – Cirurgião. – Bom dia. – Bom dia. Fim da chamada telefónica.)

         Ao chegar nesse mesmo dia, pelas duas da tarde, a casa da Amália, a primeira coisa que o César me contou foi o que tinha acontecido quando a senhora que me atendeu ao telefone foi dar o recado à Amália. As gargalhadas que tinham dado!

         E que tinha acontecido? Como há relativamente pouco tempo, uns escassos meses apenas, a Amália tinha feito mais uma operação, por sinal nos Estados Unidos, e por sinal no mesmo hospital em que eu fora operado ao coração, anos antes (no Yale New Haven Hospital), a senhora, ao chegar junto da Amália, a primeira coisa que lhe disse foi esta:

         –  Sinceramente, D. Amália! A senhora diz que a operação lhe correu tão bem, e já anda novamente metida com cirurgiões!

         Mas, passados os primeiros momentos de espanto e de confusão, a Amália e o César tranquilizaram a boa e zelosa senhora, dizendo-lhe que o Cirurgião que lhes ia entregar a prenda mandada pelo primo Adriano e pela Rita só era cirurgião de nome.

 
 

 
7.     CARÊNCIA DE CIRURGIÕES EM LISBOA
 
         Era eu professor numa escola particular em Lisboa, as Oficinas de São José, quando, quase pelo final do ano lectivo, tive de ser operado de urgência no Hospital de Jesus.
         Alguns dos meus alunos, ao chegarem a casa no dia da minha hospitalização, disseram aos pais que havia tantos doentes em Lisboa, necessitados de operações, que o professor deles tivera que ser substituído por outro, por ter que ir ajudar a fazer operações num dos hospitais de Lisboa. É que, para alguns dos meus alunos, eu não era cirurgião de apelido, mas cirurgião de profissão.
 
 
 
         8. OS CIRURGIÕES E A PRÁTICA DA HUMILDADE
 
         A operação referida no episódio n.º 8 obrigou-me a umas três semanas de hospitalização. O médico operador tinha sido o célebre Dr. Neto Rebelo, o qual me dizia que se fizera cirurgião sobretudo a operar noite e dia na base militar dos Aliados nos Açores, durante a Segunda Guerra Mundial. Achando graça ao meu apelido, como tem acontecido com tantas outras pessoas, a começar pelos médicos, ao aparecer junto do meu leito de doente, para a visita diária, o Dr. Neto Rebelo dirigia-se sempre a mim nestes termos: "Então como se sente hoje o meu colega?"
         Esse tratamento intrigou de tal maneira um dos doentes da sala, por acaso um seminarista da Congregação do Espírito Santo, que um dia se aproximou da minha cama e me disse, de uma forma muito respeitosa, com muita timidez e com sotaque vizeense, que achava estranho que, sendo eu cirurgião, não tivesse as honras de um quarto particular no hospital.    
         Gostando de brincar com o meu apelido, como de costume, e precisando de levantar o espírito, não lhe disse que eu era cirurgião apenas de nome. Mas, sabendo que ele era membro de uma ordem religiosa, apressei-me a dizer-lhe, com certo ar de compunção, que um pouco de humildade ficava bem a toda a gente, inclusive a um cirurgião.
         Visivelmente edificado, o meu colega de sala, e de religião, concordou comigo e desejou-me as melhoras rápidas (eu tinha sido operado às varises e as dores eram de fazer desmaiar).
 
 
 
         9. EM BUSCA DE MELHOR MÉDICO
 
         Foi por ocasião de um banquete organizado num restaurante português de  Hartford, no Estado de Connecticut,  para comemorar uma efeméride, cujo nome não recordo.
         Durante os momentos que precederam o banquete, enquanto os participantes iam circulando pelo bar, contíguo à sala de jantar, tomando os aperitivos e conversando, aproximou-se de mim um jovem imigrante português e perguntou-me se me podia dizer uma palavrinha em particular.
         - Com certeza - apressei-me eu a responder.
         E em voz baixa, e com o maior respeito, o jovem imigrante português profere estas palavras:
         - Sr. doutor, há-de desculpar, mas eu queria pedir-lhe um favor muito especial.
         E quando eu pensava que me ia pedir uma recomendação para emprego ou para admissão na minha universidade ou coisa parecida, como tantas vezes acontecia, eis que me fala assim:
         - Sr. doutor, sabe, a minha mãe anda tão insatisfeita com o médico que tem (e disse-me o nome desse médico luso-americano), que eu queria perguntar se o Sr. doutor poderia passar a tratá-la.
         E eu, com toda a seriedade, respondi-lhe assim:
- Olhe, meu bom amigo, lamento muito, mas tenho tantos doentes, que não me é possível aceitar doentes novos.
E o jovem pediu-me desculpa pelo incómodo e retirou-se, visivelmente triste.  E, perante essa atitude dele, a traduzir um genuíno e exemplar amor filial, pela primeira vez na vida fiquei pesaroso de ter feito espírito com o meu apelido.
 



 
         10. UM JORNALISTA PRESUNÇOSO
 
         Desde novo que me deu para escrever de longe em longe um artigozinho para jornais e cartas aos editores. Embora muitas dessas prosas fossem assinadas com pseudónimo - Tonico Amargo (Tonico, sem acento, não acinte para intrigar o leitor, mas para obedecer às leis da gramática) era o meu pseudónimo favorito, por ser ao mesmo tempo o nome por que era conhecido entre os membros da família e os amigos da velha aldeia, desde o dia em que a minha professora de instrução primária, a D. Marquinhas, na primeira aula da primeira classe, me passou a chamar Antonico - para me distinguir de outros Antónios da mesma classe -, lá ia, de longe em longe, um ou outro desses artigozinhos ou cartas aos editores assinados com o meu nome completo: António Amaro Cirurgião.     
         Entretanto, como alguns dos responsáveis pela redacção dos respectivos jornais ou revistas ainda não me conheciam, apunham ao artigo ou à carta apenas António Amaro. Outros, pensando que eu de facto queria que a minha profissão constasse também, deixavam ir o Cirurgião, mas dentro de parêntesis, e às vezes com letra minúscula, para melhor elucidação do leitor.
 

        
 
         11. O CIRURGIÃO E A LISTA TELEFÓNICA

 
         Quando alguém me perguntava pelo meu número de telefone em Portugal, no meu condomínio do Estoril, quase sempre dizia à pessoa a quem o dava que, na eventualidade de vir a esquecer-se dele ou a perdê-lo, fosse à lista telefónica da Costa do Sol e o procurasse sob Cirurgião, que lá estaria, uma vez que eu era o único Cirurgião dessa lista.
         Chegou porém um dia em que uma pessoa amiga me disse que tinha procurado o meu número na lista telefónica e que o não tinha encontrado.
         Que não podia ser - esclareci eu -, pois o telefone já tinha sido instalado há vários meses e o meu número devia forçosamente constar da nova lista, entretanto publicada.
         Mas como essa pessoa amiga insistia que o meu nome não constava da lista telefónica em questão, eu vim a verificar que afinal tinha razão. E, sendo assim, apressei-me a telefonar para os serviços administrativos da companhia telefónica, a fim de perguntar por que é que o meu nome não constava da lista telefónica. E, dito isso, dei à senhora que me atendia o meu nome completo: António Amaro Cirurgião. Ouvido o nome, a senhora pediu-me que lhe dissesse especificamente sob que nome devia estar. Ao que eu respondi que, naturalmente, devia estar sob o nome Cirurgião.     - Oh! - essa era boa. Que, por favor, não brincasse com ela, pois que eu devia saber muito bem que as listas telefónicas eram feitas à base dos apelidos e não das profissões, pelo que não era de estranhar que as pessoas não conseguissem descobrir o meu número de telefone.    
         Como tive a impressão que a senhora não aparentava ter grande sentido de humor, decidi esclarecer imediatamente que o meu apelido era Cirurgião.
         Mas as impressões tinham-me enganado, pois a senhora replicou assim ao meu esclarecimento:
         - Olhe, meu senhor, sempre seria mais interessante ter por apelido Cirurgião que Sinsim.
         E sem me dar tempo para eu reagir à piada dela, informou-me que precisamente nesse mesmo dia ela tinha falado com um senhor cujo apelido era Sinsim.
         Foi então que repliquei que ela tinha muito bom gosto por preferir o apelido de Cirurgião ao apelido de Sinsim e que eu tinha mais uma razão para ter orgulho do meu apelido.
         Feito esse esclarecimento, ela perguntou:
         - Não me diga que o apelido do senhor é mesmo Cirurgião.
         - É sim, minha senhora.
         Convencida finalmente que a companhia telefónica se tinha equivocado, ao registar o meu nome na lista telefónica, sob Amaro e não Cirurgião, a boa funcionária lá me foi dizendo que ia imediatamente fazer as devidas diligências para que na próxima edição da lista telefónica o meu nome aparecesse como devia ser. Mas que de facto - acrescentou ela - eu tinha um apelido muito estranho e um pouco bizarro e que devia compreender e desculpar o equívoco da companhia.
         E como, ao contrário do que chegara a suspeitar, a funcionária da companhia telefónica tinha sentido de humor, ficámos a conversar quase dez minutos sobre o carácter estranho e bizarro de alguns apelidos, a começar pelo meu.
 

    
        12. UMA OPERAÇÃO BENVINDA
 
         O caso que se segue aconteceu nos Estados Unidos.
         No meu primeiro ano de professor nos Estados Unidos, ensinava eu Latim e Francês em Chester High School, na vila de Chester, no Estado de Massachusetts, quando o médico de família me descobriu um quisto nas costas e me aconselhou a operá-lo imediatamente.
         Na manhã do dia seguinte, chegado ao hospital de Westfield, dirigi-me à recepção para me informar sobre a localidade do gabinete do médico que ia operar-me e para preencher os devidos formulários.
         A primeira coisa que a recepcionista fez foi perguntar-me pelo nome, como é natural.
         - António Cirurgião - respondi eu.
         - Soletre o apelido, por favor - pediu-me a recepcionista.
         E eu soletrei o apelido uma vez. E, como ela o não apreendesse bem, pediu-me que o soletrasse novamente. E eu soletrei-o uma segunda vez, provavelmente demasiado rápido, por causa do nervosismo e da pressa em ir ter com o cirurgião que me ia operar, pelo que ela não conseguiu apreendê-lo devidamente.
         Então eu, para simplificar as coisas, rematei dizendo-lhe:
         - Well, just put surgeon.
         Ao que ela prontamente replicou:
         - OK, doctor, come again.
 


 
         13. O CIRURGIÃO NOS SERVIÇOS DE IMIGRAÇÃO E NATURALIZAÇÃO DOS ESTADOS UNIDOS
 

 
         Após ter assinado o contrato de professor de Latim e Francês numa escola americana, dirigi-me aos Serviços de Imigração e Naturalização, em Boston, para mudar o visto de estudante para o de residente permanente.
         Perante a dificuldade em pronunciar o meu último apelido - Cirurgião - a senhora que me atendeu pediu-me que lho pronunciasse. E eu pronunciei-o e ela tentou imitar-me, mas, como é óbvio, e como sempre acontece, sem qualquer êxito. E, sendo assim, pediu-me que lho pronunciasse uma segunda vez e uma terceira vez e uma quarta vez, e a dificuldade dela persistia, o que é a coisa mais natural deste mundo para quem tem o Inglês como língua materna.
         Perante esse facto, perguntou-me o significado do apelido em Inglês.
         - Surgeon - disse-lhe eu.
         - Nesse caso, porque é que não muda o apelido de Cirurgião para Surgeon?
         - Porque eu gosto do meu apelido assim.
         - Pense bem nisso - insistiu a boa senhora.
         - Já está pensado, minha senhora: o meu apelido é Cirurgião e assim deve continuar.
         - Bom - apressou-se ela a dizer: vá-se acostumando a ver o seu apelido mal pronunciado e mal escrito, pois ele não só é difícil de pronunciar mas também de escrever.
         - Isso sei eu, por longa experiência, e a isso já estou acostumado, minha senhora. Aliás, pelo que se refere à escrita, isso até acontecia com muita frequência em Portugal, meu país de origem - expliquei eu com um leve sorriso.
         - Well: good luck then, Mr. Surgeon - disse-me ela, em tom de graça.
         E assim optei eu, contra o conselho da diligente e pragmática funcionária dos Serviços de Imigração e Naturalização de Boston, por ser o fundador de uma dinastia de Cirurgiões nos Estados Unidos da América, de preferência a ver-me assimilado pelas famílias de Surgeons americanos.
 

 
 
14. PARA UM CIRURGIÃO NÃO HÁ RESTRIÇÕES PLAUSÍVEIS
 
         Sempre que vou a Portugal, nunca deixo de visitar a família do Porto, como é natural. Umas vezes vou de comboio e outras vou de carro. Quando vou de comboio, aviso de antemão, indicando o dia e a hora da chegada. Quando vou de carro, normalmente opto por aparecer de surpresa, o que sucedeu dessa vez. E, naturalmente, a casa a que sempre me dirijo é a do meu irmão Artur e da minha cunhada Matilde, na Rua de São Tomé. Mal tinha acabado de tocar a campainha, quando, vinda do lado oposto da rua, me apareceu a Matilde, toda aflita e com os olhos marejados de lágrimas. É que ela regressava nesse preciso momento do Hospital de São João, onde se encontrava o Artur para exames médicos, pois umas duas horas antes, quando dava o seu passeio matinal, se sentiu de repente quase impossibilitado de respirar.
         Ao ouvir essas palavras, limitei-me a dizer à Matilde que eu ia imediatamente ao hospital visitar o meu irmão. Que não valia a pena: que os médicos tinham dado ordens terminantes para não permitir qualquer visita, fosse de quem fosse, até novas ordens.                      
         Perante essa informação da Matilde, apenas retorqui que eu ia tentar obter autorização para visitar o meu irmão. Ao fim e ao cabo, tinha vindo expressamente dos Estados Unidos para visitar a família. Que os médicos certamente compreenderiam o meu caso.
         E, ditas estas palavras, dirigi-me para o Hospital de São João, a uns dez minutos a pé da casa do meu irmão e da minha cunhada. Aí chegado, dou imediatamente com os olhos nas minhas duas sobrinhas – a Maria Isabel e a Maria Fernanda – e os respectivos maridos: o Zé Manuel e o Francisco. Ao perguntar onde se encontrava o meu irmão Artur, fui informado que tinha sido levado para a secção de cardiologia, a fim de ser devidamente examinado.
         De posse dessa informação, disse-lhes que ia tentar visitá-lo. Inútil sequer tentar – disseram-me eles em coro: a proibição dada pelos médicos estendia-se a toda a gente, inclusive à família mais chegada. Por isso a Matilde tinha ido para casa e eles – as filhas e os genros – estavam ali na portaria. Eu, sem mais delongas, deixei-os aos quatro e dirigi-me para os elevadores. Vou para puxar o botão, quando um senhor, devidamente uniformizado, me perguntou para onde pretendia ir. Perante a minha resposta – que queria ir visitar o doente Artur Pires –, o dito senhor informou-me que esse doente não podia receber visitas de ninguém. Isso sabia-o eu muito bem – disse eu ao diligente e responsável porteiro. Acontecia, porém, que eu era cirurgião e necessitava ver o doente com a maior urgência.
         - Com certeza, senhor Doutor. Faz favor de entrar no elevador, que eu levo-o à secção onde esse senhor se encontra, para exames médicos.
         E ao aparecer junto de meu irmão, rodeado de enfermeiras, a primeira coisa que ele me perguntou foi como é que eu tinha conseguido autorização para ir ter com ele.
         - De uma maneira muito simples. Apenas disse a quem de direito que eu era cirurgião e necessitava ver o doente com a maior urgência.    
           E esta saída, tão apropriada e tão importante, naquele dramático momento, contribuiu obviamente para ajudar a levantar o espírito do Cirurgião mais velho e do Cirurgião mais novo.
 

 
         15. O CIRURGIÃO SEM ALTERNATIVA PLAUSÍVEL
 
         Em Julho de 2007, por ocasião de uma visita à minha família de Boston, a Paulina, a determinado momento, falou-me assim:
         - António, o Anthony e eu temos vindo a pensar se não seria aconselhável adoptar outro apelido para os seus netos (a Camille Janine e o Calvin Alexander), pois, como sabe, ninguém consegue pronunciar devidamente o apelido Cirurgião. Perguntamo-nos se não seria preferível mudar o apelido Cirurgião para outro apelido. Tanto mais que o Anthony me disse que ele tem a impressão que o segundo nome do António também é um apelido.
         - De facto assim é. Como a Paulina sabe, o meu nome completo é António Amaro Cirurgião. Como é da praxe em Portugal, o Cirurgião era o apelido de meu pai e o Amaro, o apelido de minha mãe.
         - E qual é o significado de Amaro em Inglês? – perguntou-me a Paulina.
         - É bitter, de amargo (do Latim amarus – amara – amarum).
         - Ora bolas – apressou-se a exclamar a Paulina. – Nesse caso, é melhor deixar as coisas como estão. Ao fim e ao cabo, Cirurgião não é o único apelido na América de pronúncia difícil. O meu, por exemplo – Zgorzelska –, também é de pronúncia difícil.
         De maneira que, de momento, a Paulina e o Anthony concordam em que a Camille e o Calvin continuem a apedidar-se de Cirurgião, uma vez que a alternativa confirmaria o velho ditado que diz que, às vezes, é pior a emenda que o soneto.   
        
        
                         António Cirurgião
 
 

11 comentários:

  1. Há um equívoco na ideia de que os judeus portugueses não podiam ter bens imóveis. Existem incontáveis escrituras de transacções de propriedades entre e com judeus em todo o país, antes do édito de expulsão, consultáveis na Torres do Tombo e . Depois disso, os cristãos-novos continuaram a poder ser proprietários e a transaccionar bens imóveis.

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    1. Prezada Senhora,
      Muito obrigado pela correcção do erro a que, amável e diplomaticamente, chama "equívoco".
      Cordiais saudações do
      Cirurgião

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  2. Sempre uma delícia ler os seus textos, caro António Cirurgião!

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    1. Caro(a) Leitor(a),
      Muito sensibilizado, agradeço a sua amabilidade.
      Abraço amigo
      do
      Cirurgião

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  3. existe um excelente site onde é possível fazer genealogias através de arquivos existentes. Necessário registar e pagar. Eis o que se encontra sobre Cirurgião, alguns com ligações a Afonso Henriques: https://geneall.net/pt/pesquisa/?s=Cirurgi%C3%A3o&t=p

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  4. o apelido é raro tal como as qualidades da pessoa: inteligente, sensível, perspicaz e verdadeiro...abraço amigo

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  5. Consideravelmente a despropósito - muito ao lado da substância do texto -, uma pequena nota gastronómica:

    "... e das alheiras (as quais têm de tudo um pouco, menos carne de porco, ao contrário de todas as outras espécies de fumeiro)..."

    A ideia de que a alheira é coisa marrana é muito popular mas fantasiosa. As alheiras - que nunca foram de Mirandela senão agora em indústria, mas das terras frias e apenas de Mirandela expedidas para as cidades por caminho-de-ferro -, têm realmente de tudo e quase as ninguém fazia sem pelo menos a dita em gordura do reco. Assegurou-me sempre a minha avó (que faleceu já em noventas e as havia aprendido de bisa), que isso só podia ser fantasia teológica do abade de Priscos. Além disso e do pão, levava o alho que lhe dá o nome e de que se esqueceram alguns salsicheiros.

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    1. Com isto, esqueci-me do mais importante: fartei-me de rir ao ler o que agora nos oferece. E não creio que seja possível fazer maior encómio a qualquer texto.

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    2. Prezado Sr. dutilieul,
      Muito obrigado pela lição e pelas palavras tão elogiosas.
      A propósito, esqueci-me de informar que a alheira de porco também tem a tripa. E outrossim informo que, quanto à propalada exclusividade de Mirandela, na minha terra natal, Soutelinho da Raia, concelho de Chaves, a minha avó materna e a minha mãe faziam alheiras tão boas e em tal quantidade, que, para podermos saboreá-las através de todo o ano, de matança a matança de porco, as conservavam com excelente azeite da Terra Quente em enormes talhas. E mais informo que, quanto aos ingredientes que constavam da feitura da alheira, entrava o peru, o qual, antes de ser sujeito ao sacrifício, era emborrachado com o nosso gostoso e capitoso vinho do Ozo, cultivado no termo da frequesia do Couto de Erevededo, para refinar o sabor das alheiras.
      Tomei a liberdade de referir o último pormenor sobre a confecção das alheiras da minha terra natal, por saber que estou a salvo da jurisdição dos zelozíssimos familiares e confrades do PAN de Portugal e que os confrades americanos do PETA, não lêem esta minha prosa bárbara.
      Prosit e cordiais saudações do
      Cirurgião

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  6. Cirurgião, meu caro amigo,
    Ainda bem que pôs tudo isto cá para fora. Há tanto tempo que insisto consigo para que o faça. Só tenho pena de que seja tudo de uma vez. Hoje na minha idade não aguento tão lauto jantar. Tenho de ir lendo aos poucos, muito embora já conheça algumas. Ou porque me contou, ou porque li graças à sua amizade.
    Escreva mais. E/ou mande mais.
    Um abraço amigo.

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  7. Afinal, li tudo sem parar. Quer dizer, parei no fim.
    Tenho muitas estórias sobre o meu nome Onésimo Teotónio, mas o meu amigo bate-me de longe com as suas.
    Mais um abraço.

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