sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

São Cristóvão pela Europa (53).

 
 
 
 
Igreja da Abadia de Grimbergen, Bélgica, 26 de Julho de 2016
 
Louis-François Métra (1738-1804) foi um jornalista francês, autor da Correspondência literária secreta, em que reproduzia ou imaginava correspondência ou discussões entre vultos célebres do pensamento da época. A sua ousadia levou-o mesmo ao exílio.
Um desses diálogos é entre Diderot (1713-1784) e Voltaire (1694-1778). O tema é Shakespeare.
Diderot defendia acaloradamente o autor inglês, acumulando os traços de génio que justificavam a sua admiração.
Não o compreendo, diz Voltaire com humor, nem compreendo como vocês se apaixonaram por esse farsante. Estou mesmo persuadido que sem hesitar vocês lhe dão a preferência em relação a tudo o que nós produzimos nesse género.
Não, riposta Diderot, não sou suficientemente injusto para comparar o Apolo de Belvedere com o São Cristóvão de Notre Dame. Mas convenhamos que, apesar de todos os seus defeitos, este colosso gótico tem qualquer coisa de venerável e imponente.
Podem dizer-me, interrompe Madame Diderot, o nome do operário que produziu esse monumento?
Não sei, respondeu Diderot após ter procurado lembrar-se durante algum tempo, mas foi um pedreiro, acrescentou.
Ah sim, foi um pedreiro, prosseguiu Voltaire, um pedreiro está muito bem dito!
Sim senhor, repisou Diderot, não era senão um pedreiro, mas os homens mais altos podem passar entre as pernas do seu colosso.
 
Esta discussão foi publicada em 26 de Agosto de 1778. Demonstra como o debate acerca da estátua de São Cristóvão e o seu carácter rude estava bem presente entre os pensadores franceses.
 
José Liberato

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