terça-feira, 3 de junho de 2014

Vír,gula.

 
 
 




         Eleito pelos povos do círculo de Santarém, este parlamentar da nação apresenta-se na fotografia com um ar bastante compenetrado. Líder de uma juventude partidária  na época tauromáquica 2010/2012, no seu currículo académico apresenta, quanto a habilitações literárias, uma «frequência» do clássico Mestrado em Relações Internacionais/Assuntos Europeus. Abençoado país em que a frequência de um curso confere logo uma habilitação, ademais literária. Na profissão indica «Consultor», ou seja, uma pessoa que dá consultas, à semelhança dos otorrinos da laringe ou dos mestres da astrologia. Como compete numa democracia transparente, informa o país, no registo dos seus interesses, ser titular de 5% do capital social da irrequieta empresa Mosca – Agência de Publicidade, cuja área de actividade é «Publicidade e Criatividade».  

Nas páginas do Expresso, publicou hoje este parlamentar uma densa crónica de comentário político. Com arguta subtileza e não menor profundidade analítica, apresenta-nos a seguinte tese, prenhe de pensamento e reflexão teorética: «António Costa é o Nené da Política Portuguesa». Além de muito bem pensada, a crónica do jovem deputado encontra-se redigida numa prosa cuidada, escorreita e límpida. Simplesmente, quando ia a sair de casa apareceu-lhe à porta uma família muito numerosa de vírgulas (da espécie virgula virgulae). Desciam elas a rua em ordeira fila indiana, formando um carreirinho disciplinado de vírgulas-formiguinhas. O senhor deputado-cronista, que é um coração de ouro, achou por bem hospedá-las todas no seu texto, semeando-as aqui e acolá. Era assim que Jackson Pollock pintava as suas telas. O parlamentar escalabitano limitou-se, pois, a seguir o cânone da arte abstracta norte-americana da segunda metade do século XX. O resultado final é um valha-me-deus para a língua portuguesa, deixando-nos maravilhados quanto à literacia de alguns dos nossos parlamentares e, já agora, dos nossos jornais de maior prestígio. Se esta é a imprensa «de referência», imagine-se a outra.
Aqui vai prosa:



«Era inevitável escrever sobre a novela atual do Partido Socialista. Uma autêntica "casa dos segredos" como lhe chamou Carlos Zorrinho, ou melhor ainda, Marco António Costa "a versão portuguesa da Guerra dos Tronos". Toda esta fábula tem demonstrado, com notável clareza, o que é na realidade o partido socialista do "friso socrático"... que começou em Mário Soares e termina em António Costa.

Jamais um combate político interno tinha sido tão violento, onde tanta gente perdeu a cabeça e disse os mais duros disparates, sobre colegas de partido, sem qualquer lealdade política e institucional. O PS pagará caro, tanto esta fatura como esta fratura. Logo, num período em que a abstenção é tão alta, em que os partidos estão em crise, esta polémica, este lavar de roupa suja, não ajuda em nada a combater o deficit de credibilidade do sistema político. O país precisa, de um PS forte, credível e respeitado, como alternativa de poder, o que de facto, também não tem conseguido ser.

Mas esta novela teve já duas consequências positivas para Portugal. Permitiu a Seguro assumir um papel reformista, propor uma mudança do sistema político democrático e, espero eu, esperamos todos, discutir importantes reformas em Portugal. Seguro que rejeitou que o PS integrasse a Comissão Parlamentar para a Reforma do Estado, que recusou discutir a reforma da Segurança Social, que rejeitou o Acordo de Concertação Social, entre tantas outras reformas, quer agora, afinal discutir todo o sistema.

Seguro reforma por taticismo e não por convicção 

 
Por outro lado, e apenas por uma questão tática, Seguro defende as primárias, para a escolha do candidato a Primeiro-Ministro, o voto preferencial para a eleição dos Deputados, a redução do número de Deputados, tudo iniciativas de rutura com atual sistema, tal como  defendi recentemente na Assembleia da República, mas das quais... Seguro discordava. Ou seja, Seguro, o moralista líder do PS, assume estas bandeiras, não por convicção, mas por oportunismo e tacticismo. Tacticismo que tanto crítica, que tanto atira contra António Costa. Com isso conseguiu "ganhar" alguns meses de "oxigénio" na "sala de cuidados intensivos" do partido socialista. Seguro acha que, António Costa trai a democracia, do seu partido ao tentar uma "entrada" suja no PS, mas, trai as suas convicções para conseguir uma saída limpa desta novela.

Mas olhemos também para António Costa, que abandonou o Parlamento Europeu, logo após um ano de mandato, que foi o braço direito de Sócrates no seu primeiro Governo e que depois abandonou, e que agora, apenas um ano depois de ser eleito como edil da capital, quer trocar os votos e confiança dos lisboetas pela ambição de liderar o PS. Haverá maior machadada que esta, na confiança das pessoas nos políticos? Onde está a indignação habitual? Se fosse Santana Lopes ou qualquer outro do PSD, caía o "Carmo e Trindade". Quando Durão Barroso trocou o Governo português pelo cargo de maior prestígio que um português já alcançou, levantou-se uma guerra, ainda hoje sem "armistício", em Portugal, pelo pouco sentido de oportunidade da decisão, mas também por alguma inveja e pelo que se seguiu.

António Costa é o Nené da política portuguesa

 

Mas, há perguntas, que é útil fazer: quem tem medo do voto preferencial, ou da redução do número de Deputados? Quem teme a reforma dos partidos? O status quo existente e que, dominou o país nos últimos 40 anos. António Costa é o rosto dessa geração que tem "dominado" o país mas com um dom que o distingue de muitos outros, é uma espécie de Nené da política... não suja o fato, não se esforça muito e fica sempre à espera que os outros ganhem a bola, para depois poder brilhar. É por isso que agora quer "roubar" a bola a António José Seguro, porque "cheira a poder". Mas não, não "cheira a poder", tresanda sim, a irresponsabilidade. Fede a falta de memória. A Troika, já se foi embora, mas as reformas exigem responsabilidade.

Sendo favorável à redução do número de Deputados, alerto que isso prejudica sobretudo os pequenos partidos, que representam franjas da população como o PCP, o BE ou o CDS ou agora o MPT, ou as regiões menos populosas. Será isso prioritário? Não me parece. Quanto às primárias são uma forma de responsabilização dos cidadãos quanto à vida dos partidos. Hoje, e, porque vivemos em alternância política, entre PS e PSD, são uma minoria de portugueses, as distritais, os militantes do PSD e do PS, que escolhem os primeiros-ministros. Parece-me pois, o único caminho a seguir, depois de termos adotado o sistema de eleições diretas.

O  voto preferencial   é talvez a mais importante das reformas do sistema eleitoral, com diversas vantagens e desvantagens, que em breve aqui, explorarei. Esta, é talvez a mais profunda e imediata transformação que se pode concretizar no sistema eleitoral, provocando um brutal choque no status quo dos partidos, da relação dos Deputados com o Governo e sobretudo, no reforço da legitimidade de todos os eleitos. Apetece perguntar, quem teme esta mudança?... os que controlam o jogo, há décadas!»




25 comentários:

  1. Pior, muito pior - e mais ridículo - do que o excesso de vírgulas é a utilização do abjecto «acordês».

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  2. ... De que, aliás, a frase «o PS pagará caro, tanto esta fatura como esta fratura» é um exemplo eloquente e... «espetacular».

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  3. Pior, muito pior, é o estado a que o expresso chega... Não fazem correcção de texto caralho?!! um nojo

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    1. Desculpe, mas tenho que o corrigir. Devia ter escrito: "Não fazem correcção de texto VÍRGULA caralho"

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  4. Esta é a versão corrigida do texto. A original e melhor começava:

    «Era, inevitável escrever, sobre a novela atual do Partido Socialista.»

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  5. O mestrado Duarte Marques está correcto no seu belo texto.
    Foi-lhe ensinado que as vírgulas e pontos finais devem ser usadas quando se respira ao ler um texto ou quando é necessário uma pausa dramática.
    Claro que se a pessoa for asmática pode haver uma ou outra vírgula a mais.
    São ossos do ofício.
    Este apontamento não precisou delas porque respiro muito bem graças a Deus.

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    1. O Saramago morreu com falta de ar?!

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  6. sim, o texto original puxava logo do travão de mão à segunda palavra

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  7. «Era, inevitável escrever, sobre a novela atual do Partido Socialista.» é para gravar na pedra...francamente. Não há mais nada a fazer se não esquecer isto tudo... Depois lá se surpreendem, que o povo é muito inteligente e tal... é claro que é, comparativamente... um nojo esta clique de lisboa

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  8. Aposto que foi a empresa deste senhor que fez a publicidade de Olá...

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  9. Onde está o Wally? Dá-se um doce a quem descobrir no texto deste jovem ambicioso, a falta de concordância na "crítica"...

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  10. Este não é o texto original. O original tinha mais vírgulas: https://cld.pt/dl/download/56476be6-4d70-41cb-8a75-7830663c3acb/expresso_sapo_pt_seguro_rejeita_entrada_suja_e_tenta_saida_l.pdf

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  11. Face à notória e injusta incompreensão de que tão ilustre plumitivo está ser alvo aqui alguém que o acoselhe a escrever o texto sem vírgulas e no fim junte uma molhada delas e cada um que as distribua como quiser (, , , , , , , , , , ).

    É o que eu acabo de fazer e se alguma sobrar podem ficar V. Exas. com ela de boa vontade .

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  12. Nem li o texto, mas... o Expresso não tem revisores? Ou alguém que leia o texto antes de o publicar?

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  13. Sim, há vírgulas a mais. Sim, o Expresso devia ter feito revisão do texto. Mas é ridículo fazerem disto notícia / falatório / post. Vão lá ver o trabalho do deputado antes de criticarem prosas. Fossem todos como ele.

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    1. AHAHAHA, AHAHA, LOLOLO, AH, AHAHAH, ahahah.

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    2. Se o deputado não sabe escrever nem deputado devia ser, olha que merda

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    3. > Vão lá ver o trabalho do deputado antes de criticarem prosas.

      Ora ainda bem que alguém defende o analfabetismo dos aristocratas.

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  14. nem devia escrever num jornal, como é evidente

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  15. Já foi ler o blogue Chez George Sand? Intitula-se escritora/poeta. O Duarte Marques está perdoado.

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  16. O bípede, se tivesse um mínimo de mioleira, podia ter seguido o exemplo das redacções da Guidinha, na "Mosca de Poche"...

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  17. Pois, também acho, tratam-se de virgulas a mais.

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