segunda-feira, 29 de julho de 2013

A Modas e Bordados e o Processo Revolucionário Em Curso.










Modas e Bordados, nº 3300, de 14-5-1975, pág. 3







fiz amor na noite do 25 de abril

 

Nasci em 1960, tenho quinze anos embora muitos me dêem mais idade.

         Venho de uma família burguesa, apolítica e muito obstinada. Tirei a instrução primária num colégio de freiras que eu detestava porque sempre fui muito amiga da justiça e tudo quanto via não me agradava. Tratava logo de contestar e de dizer que não queria, fosse o que fosse! Isto era um suplício para as freiras que se desculpavam, dizendo que as coisas se deviam aceitar como eram, como um sacrifício, por Deus. Deus, Deus, Deus, só me falavam em Deus e mais nada, era tudo por Deus.

         De qualquer modo já estava habituada e até gostava d’Ele.

         Um belo dia descobri que estava para chegar um irmão! Eu tinha 7 anos. Durante os 9 meses de espera o irmãozinho querido viveu comigo, para me abandonar, logo depois de 48 horas de ter nascido. Era tão lindo e eu amava-o tanto! Nasceu no fim das férias e quando voltei ao colégio as freiras disseram-me que ele tinha morrido por vontade de Deus. A minha reacção imediata foi gritar que odiava Deus, que Ele era mau, que o meu irmão nunca lhe tinha feito mal e que eu nunca mais rezava. E não rezei! Obrigavam-me a ir á missa o que me revoltava ainda mais. Quando já tinha 9 anos acabei de receber a hóstia, saí da igreja e cuspi-a na rua.

         Depois de fazer a quarta classe não me quiseram mais no colégio, porque eu dava mau exemplo às outras meninas.

         Um dos meus primos foi preso pela D.G.S. quando eu tinha 12 anos. Ele tinha 16 e ao fim de um ano voltou a Caxias e a família quase que o excluiu. Era apenas uma criança e não era justo porem-no à parte, só porque ele tinha sido preso. Eu achava que ele tinha sido extraordinário. Era e é socialista.

         Comecei a encontrar-me com ele às escondidas, falámos muito, de tudo, de Caxias, e eu beijava-o na face, molhando-o com as minhas lágrimas.

         Passado 6 meses sobre o início dos nossos encontros secretos, ele quis fazer amor comigo; eu era liberal nessas coisas mas tinha 13 anos e a minha mãe com as suas ideias ainda imperava em mim. Não o fiz nessa altura, mas prometi-lhe que no dia em que eu tivesse a certeza de amá-lo que o fazíamos.

         No dia 25 de Abril estava eu em Lisboa com o meu primo. Ele estava esfuziante, parecia doido, pulava, ria, gritava! Segui-o por toda a parte, ele contagiava-me, ofereci flores aos soldados, juntei a minha voz à do povo. E não sei o que nos levou a fazê-lo, talvez a sensação de liberdade, na noite de 25 para 26 de Abril, fizemos amor, até ao fim! Foi maravilhoso, embora a princípio ficasse decepcionada.

         Tinha 14 anos e ele 18.

         Hoje, volvidos quase 12 meses estou aqui a escrever a história da minha vida. Os meus pais estão mais democratizados mas mantêm-se apolíticos.

         Estão separados na vida conjugal mas vivem junto por causa do escândalo. Discutem frequentemente. O casamento e o divórcio para mim não passam de disparates mas se estivesse no caso deles divorciava-me.

         Quando acabar o quinto ano do liceu vou viver com o meu primo e emprego-me. Tiro o sétimo ano à noite, gosto de estudar. Quero ajudar o meu país a viver. Asfixiava quando oi libertámos, é preciso dar-lhe oxigénio. Quero ter filhos e não os revoltados como eu, logo no início da vida.

         Não me considero revolucionária, até porque mal tive tempo de o ser, mas não deixarei que a minha liberdade morra, a minha e a dos outros, todos devem ser livres.

         Quero ajudar Portugal seja como for.      

 

GISELA


(in Modas e Bordados, nº 3300, 14 de Maio de 1975, pág. 3)
 






2 comentários:

  1. Tão mas tão bom... E quantos filhos não existem por aí.

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  2. Esta Gisela não seria uma correspondente de Maricá?

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