domingo, 25 de março de 2018

A já longa história da Livraria Espaço de Algés.

 
A Livraria Espaço faz 54 anos no próximo mês de Julho. É a livraria mais antiga do concelho de Oeiras e poucas pessoas se lembrarão de que foi um dos polos culturais dessa Algés que era, durante a última década do antigo regime, um lugar de reunião, de difusão de ideias, de resistência. Dentro da pequena livraria existia também uma Galeria de Arte e foi por iniciativa de um grupo de amigos que a frequentava que se criou uma cooperativa de consumo na Rua Anjos, uma secção cultural no Sport Algés e Dafundo e o 1º Acto -  Clube de Teatro.
 
 
Maria Odila Cordeiro Rodrigues, à porta da livraria
 
 
Algés era, na década de sessenta e até ao 25 de Abril, uma periferia tranquila, com um jardim e esplanadas de onde se via o rio e o mar. Guardava ainda traços do local de vilegiatura de famílias abastadas de Lisboa, do final do século XIX e, apesar da Praça de Touros já estar encerrada, apesar da praia de banhos já não ser recomendada e apesar dos restaurantes “fora de portas” já não atraírem os lisboetas, Algés continuava sendo um lugar aberto e luminoso onde as famílias iam passear e sentar-se nas esplanadas, ao domingo, e onde os jovens iam estudar durante a semana.  A Lisboa da época era uma cidade zangada com o rio e ao longo das suas margens só havia cais, armazéns portuários e guindastes.
Os cafés e esplanadas de Algés atraíam os jovens de classe média que frequentavam o Liceu de Oeiras, o Liceu D. João de Castro ou que já andavam na universidade. Muitos dos prédios da baixa de Algés, na parte desenhada por Morais Soares, tinham tomado o lugar das pequenas vivendas e abrigavam famílias jovens com filhos em idade escolar. Mesmo ao lado, no Restelo, o bairro de casas económicas tinha sido concluído há pouco. E no Dafundo, com uma densa população jovem de todos os estratos, havia também os alunos do Instituto Nacional de Educação Física, do Jamor. Para mais, o Sport Algés e Dafundo, na época, atraía e canalizava para o desporto muitos jovens de toda a área ocidental de Lisboa.
Nos anos sessenta o país, espantado, deu-se conta que estava engolfado numa guerra em África que, com o passar dos anos, parecia que nunca iria ter fim o que fazia com que os rapazes arrastassem os estudos para adiar a data de se tornarem soldados em teatro de guerra e se reunissem nos cafés a desejar o fim do regime, depois a conspirar para o fim do regime e sempre à espera.
Como em Algés a concentração de esplanadas e cafés era grande, por causa dos tais passeios de domingo das famílias classe média que repetiam hábitos da geração anterior, foi quase natural que estes cafés fossem invadidos por jovens e que as ideias de esquerda se fossem espalhando a mancha de óleo.
Nas mesas desses cafés, como diz Vítor Viçoso no texto que transcrevo abaixo, os grupos eram compostos por estudantes, mas também por empregados de escritório, intelectuais, atores, comerciantes, funcionários. O grupo que pôs de pé a livraria, a galeria de arte, o clube de teatro, a cooperativa de consumo, as secções culturais dos clubes, pertencia a esta faixa etária. Ao contrário dos estudantes, estavam numa fase da vida que lhes permitia de pedir empréstimos, autorizações ministeriais ou negociar com a comissão de censura.
 No seu blog Caos Declinável, em 8 de janeiro de 2011, Vítor Viçoso retrata assim a atmosfera que então viveu:
“Era frequente os jovens terem à mesma mesa gente na casa dos 40 ou mesmo mais. Os meus cafés desse tempo eram sobretudo o Ribamar e o Tamar, em Algés, por circunstâncias de proximidade habitacional. (…). Houvera também um outro café, o velho Cristal (se a minha memória não atraiçoa o seu verdadeiro nome), com a estrutura em ferro e uma singela escada em caracol que conduzia ao 1º andar. Porém, este seria destruído, em inícios da década de 60, para dar lugar a um monstro de betão (o Catavento) que ainda funcionou como café e depois como supermercado. Hoje ainda não tive coragem para verificar a sua atual vocação.
Por esses cafés paravam algumas figuras ilustres da nossa cultura. Lembro, por exemplo, Manuel Ferreira e Augusto Abelaira que ora liam ora escreviam fragmentos das suas obras. Também Vasco Graça Moura, então estudante de Direito, se embrenhava nos calhamaços do seu curso - não sei se terá escrito aí alguns poemas dessa época. Havia ainda os conspiradores sempre desconfiados dos ouvidos atentos da mesa ao lado, possíveis pides ou meros informadores. No fundo éramos quase todos conspiradores, uns menos outros mais, naquele tempo ditatorial que ia corroendo os nossos desejos e sonhos juvenis. (…) Nos cafés também se passavam de mão em mão panfletos ou livros clandestinos. Fumava-se muito nos cafés. (…) Discutia-se filosofia, arte e política. (…)
Em Algés, durante o dia, escolhíamos sobretudo o Ribamar, pois as suas paredes envidraçadas deixavam passar a luz com abundância, mesmo em dias soturnos, e permitiam-nos prolongar o olhar sobre o rio, numa cumplicidade entre o mundo interior e a paisagem. Mas à noite era o Tamar o nosso preferido. Ou melhor, o seu longo corredor, uma extensão que separava os consumidores da "bica" nocturna e o salão de chá destinado aos "burgueses" mais acomodados. Nesse corredor, mesas de um lado e do outro, misturavam-se estudantes, aprendizes de poetas e funcionários de serviços, todos identificados com a oposição ao regime. Era um mundo simultaneamente aberto e fechado. Um espaço rectangular mais ou menos controlado e reservado a dialogantes contestatários. Depois as longas noites, sobretudo no Verão, dispersavam-nos por tascas, cervejarias (o Relento fechava às 4 da manhã), ou em deambulações sem nexo pela marginal de Algés.”
 
Foi nesta Algés que nasceu a Livraria e Galeria Espaço no dia 5 de junho de 1964.
A reconstituição da história da Espaço é aqui feita com base numa longa entrevista ao seu fundador Armando Rodrigues.
A livraria era, e é ainda hoje, composta por uma loja e uma cave, na Avenida dos Combatentes da Grande Guerra. Criada inicialmente em sociedade com o actor Armando Caldas, a sociedade depressa se desfez por não haver receitas que compensassem dois sócios. Armando Rodrigues prosseguiu com a livraria com a sua mulher, Maria Odila Cordeiro Rodrigues,  enquanto que a parte da Galeria de arte, três paredes forradas a sarapilheira no fundo da livraria, onde se exibiam quadros, era da responsabilidade de Francisco Madeira Luís.
Muito em breve passou também a ter uma discoteca, numa parceria com a Valentim de Carvalho. Quando se rompeu esse contrato (em 1969/1970), a discoteca passou a ser explorada por um casal de nome Bizarro, durante cerca de dez anos, até à morte dos discos de vinil.
Para a inauguração da Espaço convidaram Alves Redol que veio falar e autografar o seu romance de 1961, “Barranco de Cegos”, e Mário Castrim que terá falado sobre “Classes populares” e autografado um livro de ensaios seu. Depois, mês a mês, essas sessões foram-se repetindo tendo passado pela Espaço Rogério Paulo, José Cardoso Pires (duas vezes), Mário Dionísio (duas vezes), Urbano Tavares Rodrigues, Baptista Bastos, Eugénio de Andrade, Manuel da Fonseca, Fernando Relógio, Júlio Pomar, Nuno Bragança, José Saramago e os espanhóis Jorge Semprun e Felix Cucurull.
Na Galeria da Espaço, o seu “director de exposições”, Madeira Luís montou a primeira exposição pública de fotografias de Eduardo Gajeiro, uma exposição individual de Júlio Pomar, uma coletiva de Pomar, Lima de Freitas e Francisco Relógio, uma coletiva de serigrafias de parceria com a Cooperativa de Serigrafia. Segundo Armando Rodrigues, Madeira Luís era muito minucioso na montagem das suas exposições chegando a gastar duas horas para pendurar um quadro.
Pouco depois surgiu a Secção Cultural do Sport Algés e Dafundo, com José Sanches, Costa Ferreira, Viriato Portugal, Eduardo Pedrozo e um médico, Dr. Homero, onde se passou a realizar eventos que, por terem mais público, necessitavam de mais área do que a livraria tinha para oferecer. (Armando Rodrigues fala também de uma secção cultural semelhante na Liga dos Melhoramentos de Algés, todavia não se recorda de eventos que aí tenham tido lugar). Foi aí, no Algés e Dafundo, que, para uma vasta audiência, se realizou uma homenagem a Aquilino Ribeiro que contou com uma palestra de Alexandre Pinheiro Torres sobre a obra do autor.
Em 1966, o mesmo grupo fundou na Rua Anjos uma cooperativa de consumo dirigida por José Rodrigues Caldeira Patrão, irmão de Armando Caldas. Para além de bens de consumo alimentar, dispunha de uma biblioteca de empréstimo. Esta cooperativa durou cerca de seis anos.
E foi na cave da Espaço, numa noite de reunião de amigos, que Armando Caldas propôs a criação de um clube de teatro. Alugaram um espaço num prédio em construção e fizeram um teatro que se veio a chamar Primeiro Acto – Clube de Teatro. A equipa de arquitetos era chefiada por Nuno Teotónio Pereira, outro frequentador assíduo dos cafés de Algés. O Primeiro Acto chegou a ter 3000 sócios, sendo o sócio nº 213, José Saramago.
Podemos ler a história do 1º Acto no artigo de Eduardo Pedrozo em Sinais de Cena, nº7, junho de 2007
 
 
e uma entrevista a Armando Caldas em
 
 
A partir da inauguração do 1º Acto, as actividades que até então se desenvolviam na livraria passaram a ter lugar no teatro.
Toda esta efervescência cultural se diluiu após o 25 de Abril. O 1º Acto foi tendo cada vez menos atividade até que fechou por completo. Anos depois a Câmara de Oeiras comprou-o e restaurou-o transformando-o no Teatro Municipal Amélia Rey Colaço.
A Espaço Livraria e Galeria, prosseguiu, agora com a valência de papelaria e com o nome de Livraria e Papelaria Espaço, gerida pelas filhas de Armando Rodrigues, Marisa, Elsa e Liliana Cordeiro Rodrigues. Hoje em dia, numa tenaz luta pela sobrevivência, a Espaço é uma pequena livraria com livros de qualidade e é simultaneamente um polo cultural numa Algés de população envelhecida e que passou por grandes transformações. Armando Rodrigues faz questão em “homenagear as suas filhas Marisa, Elsa e Liliana que, com coragem e tenacidade, mantêm o nível e o prestígio cultural da livraria”.
                                
 
As três irmãs livreiras
 
 
Na Espaço, neste momento, existem diversas atividades: um clube de leitura, contos para crianças aos sábados, uma oficina de escrita criativa, workshops de tricot e de desenho. Lá se fazem também pequenas peças teatrais e lançamentos de livros.
A partir do início da primavera é lá o ponto de encontro semanal de um grupo de caminhadas, ao fim do dia.
 

Falando de Clarice Lispector no Clube de Leitura, convidada Clara Rowland, Março de 2017
 
 
 

 
Também se deve às irmãs livreiras a criação da página de Facebook “Algés acontece” que se tornou o verdadeiro jornal da comunidade.

 
 
É à Espaço que se vai comprar o último romance de Hélia Correia ou se vai pedir um conselho sobre o livro a oferecer aos netos. É lá que se encomendam livros que não estão em stock e pacientemente se espera o SMS a dizer que já chegou.
Resta-nos desejar que os mecanismos dessa “gentrificação” cujos efeitos já se começam a notar em Algés não destruam o nosso comércio tradicional e sobretudo a nossa livraria de bairro, de notável passado e polo atual de tanta actividade.
 
 
Helena Abreu
 

 

 



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